terça-feira, 9 de setembro de 2014

Nota de Repúdio ao Banco Central


A Veja revelou, em matéria publicada em sua última edição, que o Banco Central do Brasil abriu queixa-crime contra o economista Alexandre Schwartsman. O procurador do Banco Central argumenta que as críticas do economista atentaram "contra a honra da instituição". O argumento é cretino e uma juíza federal tratou de arquivar a queixa dizendo, sobre as críticas, o que deve surpreender apenas os asseclas reacionários do partido no governo: que tudo que foi dito -- duro e em tom de motejo como diz o BC ter sido -- não foi mais do que um mero exercício da liberdade de expressão.

Serviço de utilidade pública
Marcos Lisboa fez um pequeno manifesto que, assinado por vários economistas, circula pelas redes sociais e seguirá/seguiu para editores dos grandes jornais. Uma outra lista de assinaturas está sendo montada eletronicamente. Segue a nota abaixo. Logo em seguida, as instruções para assinar a nova lista.

A recente notícia de uma ação judicial contra o economista Alexandre Schwartsman deixou-nos perplexos. Todos nos acostumamos, durante anos, a ouvir críticas muito piores e inverídicas - como a de que o BACEN seria manipulado pelos bancos - sem qualquer retaliação. O respeito à crítica e ao debate transparente sobre a condução da política monetária, inclusive, tem sido um aspecto fundamental da atuação do BACEN, progressivamente construído desde a estabilização, há mais de duas décadas.

A judicialização como instrumento de repressão à divergência representa um retrocesso inaceitável. Felizmente, a denúncia não foi aceita pela justiça. A intolerância com a divergência e com a crítica ácida e o recurso da máquina pública para suprimir o contraditório, por meio da utilização de uma instituição pública para constranger alguém judicialmente, configuram uma prática incompatível com os valores que uma democracia deve ter e cultivar. Essa atitude prejudica a democracia e as instituições e merece o nosso mais veemente repúdio.

Como assinar?
1. Visite  o site Petição Pública clicando aqui;
2. Digite "Alexandre Schwartsman" na caixa "Procurar" no canto superior direito;
3. Clica na petição para abri-la. Preencha (nome e e-mail) e clique no botão "Assinar".

Update
O Banco Central deu para trás (veja aqui).

segunda-feira, 8 de setembro de 2014

Crowdsourcing: aplicativos que usam as massas para melhorar as cidades

Ao contrário dos unicórnios, que permanecem incógnitos, carros estacionados em lugares proibidos são visões comuns nos centros urbanos do país. 


Uma iniciativa de uma empresa Canadense promete dificultar a vida desses malandros. A SpotSquad criou um aplicativo que permite ao usuário, com uma simples foto do telefone, reportar o veículo ilegalmente estacionado. O programa ainda está em fase piloto na cidade de Winnipeg, mas os proprietários sonham grande: pretendem adotar um modelo de negócios no qual um percentual das multas é pago para a empresa e então dividido com os usuários de acordo com sua "produtividade". O aplicativo terá características de jogo à la Waze -- com "badges" de ranking dos usuários.


A regulamentação do uso de um aplicativo desses representaria uma brutal descentralização da atividade de "law enforcement".

Outros applicativos que usam as "massas"
A ideia de usar a "sabedoria das massas" para melhorar produtos e serviços já conhecida dos usuários do Wazer -- o aplicativo que ajuda seus usuários a "bater" o tráfego das cidades. A ideia começa a ser usada em outros contextos. Abaixo alguns exemplos:

1. Boston Citizens Connect
Aplicativo da prefeitura de Boston (EUA) que permite aos usuários informarem de "defeitos" nos espaços públicos -- buracos, pichações, luzes quebradas, placas de sinalização quebradas etc. O "status" da ocorrência é atualizado quando a prefeitura "fixa" o problema. É possível ver um mapa das ocorrências abertas.



2. "Crime Watch" e "Maps do Crime"
A polícia do Reino Unido reúne em seu site uma lista de aplicativos para smartphones que permitem aos usuários não apenas interagir diretamente com as forças policiais operando em sua área de residência como uma série de aplicativos que permitem acesso aos dados oficiais de crime na área. Isso mesmo: dados oficiais (exemplo abaixo é da cidade de Surrey).



3. Walkonomics
Aplicativo que, com a ajuda dos usuários, cria um sistema de avaliação (rating) das ruas em várias dimensões: (1) facilidade em cruzar a rua, (2) qualidade do asfalto/calçadas, (3) medo de crime, (4) beleza, (5) diversão, (5) o quão "enladeirada" são as ruas...Já amplamente utilizado em Nova York, Londres e São Francisco.




Enquanto isso em Gotham City...
Por enquanto esses tipos de aplicativos parecem uma realidade distante no Brasil. A julgar pelas últimas notícias, todavia, não seria de todo estranho apps do governo federal para simpatizantes do governo reportarem seus críticos ("mordaçonomics")...


"J´accuse": The preposterous Central Bank


This weekend Veja revealed that the Brazilian Central Bank tried to sue economist Alex Schwartsman -- a former CB diretor -- for his critics against the way monetary policy has been conducted of late.

Are we living in a semi-dictatorship??? Cant we criticize the government anymore???

And why the heck doesnt the CB sue these PSOL guys saying it is favoring the Bankers by keeping rates "so high"? This is a serious accusation about its probity, is it not?

The CB would do us a lot of good if instead it focused on reducing the inflation rate to 4,5%, its supposed target.

Jesus, man, I am going back to Brazil. Fighting PT has become the most important battle of the 21 century.

Chavez nuestro, que estás en el cielo

Não, não é brincadeira. No Congresso do Partido Comunista Unido da Venezuela, Hugo Chavez foi homenageado com uma oração -- uma adaptação do Pai Nosso (veja no vídeo abaixo). Pelo jeito Chavez ascendeu à categoria de Deus.


sexta-feira, 5 de setembro de 2014

Crise na USP II: Transparência

Recomendo a entrevista do professor José Renato de Campos Araújo (EACH), dada à CBN, sobre a situação da USP (veja aqui). José Renato é membro do Conselho Universitário, e revela um problema sério da instituição: falta de transparência. Em particular, não é costume por parte da reitoria mostrar as contas de sua administração (Zago fez isso recentemente, mas ele é exceção), nem mesmo para o conselho. Outro exemplo: as próprias pautas das reuniões do conselho não são abertas a toda a comunidade.

Sim, a universidade tem autonomia administrativa, mas isso não implica que não precise prestar contas a quem a financia: o contribuinte paulista. Daí fica difícil aumentar a fatia do ICMS dada a universidade: a sociedade daria mais dinheiro para a instituição, sem saber direito como esses recursos estão sendo empregados.

A meta de inflação no Brasil mudou


A mentira vai-se tornando verdade...
No corpo da matéria, reconhece-se que a meta é de 4,5% a.a. e, na verdade, o que houve foi um estouro da banda superior da meta. Então, como se explica o título acima? Má-fé?

quinta-feira, 4 de setembro de 2014

X, help me! Penas maiores para brancos?



Um amigo meu que é defensor público me disse uma coisa ontem que me deixou encafifado.

Ele defende que a pena para brancos seja maior do que a pena para negros (para o mesmo crime). Parece que essa é uma tese de um doutrinador argentino, chamado Raúl Zaffaroni.

À primeira escutada, soa muito estranho, não é? Bem bizarro. Mas sua justificativa, embora não me convenceu, não foi ruim não. Muito pelo contrário.

Ele disse: Bruno, vocês economistas não falam que, na hora de decidir entre praticar ou não um crime, o cara olha para p*q? (p = probabilidade de ser pego; q = pena)

Eu disse: Sim.

Ele disse: Por discriminação estatística, a polícia não para na rua muito mais negros do que brancos?

Eu disse: Sim.

Ele disse: Então, mané. Como o p dos negros é maior do que o p dos brancos, o q dos brancos tem que ser maior do que o q dos negros, para compensar! Caso contrário, ceteris paribus (metido ele...), o custo esperado do crime está desproporcional.

Eu disse: hummmm...

Aí comecei a falar "como que vai implementar esse troço?", "como que vai definir a cor das pessoas?", "não é claro qual é o efeito disso em equilíbrio", "isso não é constitucional", ou seja, fugi um pouco do tópico ou, como diria a presidentA, tergiversei...

Mas to encafifado. Faz sentido? Puts, parece que faz.

X, please, help me! Mas sem tergiversar (vc tem esse mau hábito).

Crise na USP: Regras Prudenciais para o Futuro


O ex-reitor da USP, João Rodas, escreveu uma nota sobre a situação da USP. 

Na nota, o ex-reitor se defende das acusações e basicamente diz que a culpa é de todo mundo. Ele tem um bom ponto: as decisões de torrar o dinheiro -- que pingou mais generosamente do que o normal na conta da USP no período de vacas gordas -- em novas contratações de funcionários/professores, expansão de cursos, abertura de escritórios internacionais e construção de prédios foram decisões colegiadas. Logo, todo mundo que participou e votou nesses "colégios" são responsáveis pela situação atual. Makes sense.

A nota pode ser lida na íntegra aqui. Destaco o trecho abaixo:
O material jornalístico produzido pelo Estadão é protegido por lei. Para compartilhar este conteúdo, utilize o link:http://sao-paulo.estadao.com.br/noticias/geral,nota-do-ex-reitor-joao-grandino-rodas-imp-,1554462
Ao terminar meu mandato, da citada reserva, cerca de 1 bilhão e meio estava comprometida com pagamentos futuros; enquanto 1 bilhão restava livre. Tudo isso foi feito com a autorização dos órgãos colegiados indicados pelo Estatuto ou Regimento da USP. Tanto que não houve nenhuma observação, nem dos pró-reitores, nem dos diretores de unidade, durante quase 4 anos. Com a diminuição do recolhimento do ICMS foi necessário lançar mão das reservas orçamentárias, como em outras administrações havia sido feito. Qual o problema? Esse dinheiro existe para quê? Para dar lucro aos bancos? Por outro lado, o nível de endividamento das demais universidades estaduais paulistas é semelhante à da USP.

Abaixo o capital financeiro
O trecho acima é revelador -- e confesso que meio desconcertante. Desconcertante porque temos aqui um ex-reitor de uma das principais universidades latino-americanas maldizendo os bancos por lucrarem com o serviço (de wealth  & asset management) que poderiam ter prestado à universidade. Coisa que se espera da juventude do PSTU (será que ele acha que devemos comer em casa para não dar lucro aos restaurantes?)

Mas o trecho é revelador porque dá um excelente insight do que se passava na cabeça desse pessoal. algo mais ou menos assim: "se tem dinheiro, temos mais é que gastá-lo". Fica mais claro agora porque a USP está na situação deficitária atual.

Regras prudenciais de gasto
É verdade que não há incentivos para os administradores das universidades públicas brasileiras serem parcimoniosos na administração do dinheiro em caixa. Mas espera-se que a crise na USP sirva para demonstrar a necessidade de introduzir-se uma espécie de "lei de responsabilidade fiscal" das universidades: regras que (1) imponham limites nos gastos que criam compromissos irredutíveis de gastos no futuro (contratação de pessoal sendo o principal deles) e (2) subjuguem novas decisões de gastos desse tipo à aprovação de um conselho auditor externo à universidade.

Não precisa de muita "tecnologia" para desenhar um esquema de gasto que proteja a universidade de flutuações em sua arrecadação. Um exemplo de um conjunto de regras é o seguinte:
  1. Gasto deve ser programado: a universidade deve fazer uma estimativa da tendência de sua receita (ou seja, do PIB do estado) e definir, com base nisso, o seu padrão de gasto futuro (a linha azul tracejada do gráfico abaixo). 
  2. Folha salarial deve ter teto: a universidade deve fixar um teto para o percentual de sua receita que pode ser gasto com folha de pagamento (ativo e inativa) (ilustrado pela linha cinza tracejada no gráfico abaixo). Algo dentro do intervalo 50-60% parece razoável (Harvard, por exemplo, gastou 48% de suas receitas com folha de pagamento em 2013).
  3. Universidade deve ter poupança: Em períodos de vacas gordas, a universidade deve acumular a receita que excede o gasto programado (área amarela no gráfico abaixo). Essas reservas servirão para cobrir o déficit no período de "vacas magras" (área laranja no gráfico abaixo) entre receita corrente e o gasto programado. Essa poupança deve ser administrada por fundos especializados em "asset managment", à serviço da universidade, e não por professores.


Chega de viver de mesada
Além disso tudo, a universidade deve perseguir outras fontes de receita que não apenas aquela que recebe dos "contribuintes". Já dei sugestões de como e até fiz umas estimativas do valor que poderia ser arrecadado, respectivamente, aqui e aqui

Achar que explorar o potencial comercial do seu espaço, dos seus recursos humanos e dos "produtos" que cria -- como já faz as melhores universidades do mundo -- vai comprometer a autonomia da universidade, ou transformar a USP numa empresa de sabão -- como parece ser o receio do pessoal do sindicato --, é uma tremenda besteira.

quarta-feira, 3 de setembro de 2014

Dilma, Marina e a política industrial

Frase de Dilma Rousseff:
Fiquei muito preocupada com o programa (de governo) da candidata Marina, porque ela reduz a pó a política industrial.
Obrigado, presidenta. Você me convenceu a votar na Marina.

Alckmin, o homem do povo?


O PT tende a ser mais forte entre os pobres e pouco escolarizados, e não o PSDB. Mas a última pesquisa do Ibope para o governo do Estado de São Paulo mostra um fato peculiar: Alckmin lidera (apesar de ter perdido terreno), e essa liderança é particularmente larga entre os eleitores com menos instrução:
No eleitorado mais escolarizado, com ensino superior, a vantagem de Alckmin sobre Skaf é de apenas 10 pontos: 44% a 34%. Entre os que estudaram até a 4.ª série do ensino fundamental, essa vantagem chega a 37 pontos: 51% a 14%. 
Será que isso tem a ver com informação? Como os demais candidatos são pouco conhecidos, e os menos escolarizados tendem a ser também menos informados, Alckmin levaria vantagem. Imagino que seja difícil capturar a atenção do eleitor, especialmente com uma eleição presidencial acontecendo ao mesmo tempo.

(Isso levanta uma hipótese interessante: será que incumbentes têm vantagem desproporcional em eleições para governador, quando elas ocorrem junto com eleições presidenciais?)

Outra possibilidade é que a amostra é pequena quando quebramos por faixas educacionais. Os erros padrões devem ser gigantescos para a subamostra dos menos escolarizados. De qualquer forma, a diferença a favor de Alckmin é também enorme para esse grupo.

Fonte: estadao.com.br