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terça-feira, 28 de outubro de 2014

5 observações sobre os resultados das eleições


Alívio ou frustração. Esses parecem ser os sentimentos que predominam de forma excludente entre os eleitores. Findado o "show da democracia", Dilma Rousseff venceu Aécio Neves por cerca de três milhões e meio de votos. Foi muito pouco, como já era esperado nessa que se desenhou como uma das eleições presidenciais mais competitivas e emocionantes da história das eleições diretas no Brasil. 

Primeiras reações
Com a divulgação dos resultados, "civis" nas redes sociais e jornalistas especializados em políticas nos grandes canais de televisão começaram a fazer interpretações intringuantes. Um comentarista de um grande canal "culpou" Minas Gerais pelo derrota de Aécio Neves. Não faltou também gente bisonhamente defendendo a divisão do país em dois quase que seguindo a distribuição binária de estados em que venceu cada candidato -- como se as marcas do subdesenvolvimento na história do país fosse responsabilidade exclusiva das escolhas dos eleitores de uma ou outra região.

Aproveito para compilar algumas reflexões sobre os resultados e apontar algumas curiosidades nos resultados que me parecem ter passado desapercebidas. Aí vai:

1. Pesquisas de opinião: "In science we (should) trust"



Muito descrédito recaiu sobre os institutos de pesquisa. Foi um tanto compreensível dado o tamanho do erro nas estimativas do primeiro turno -- as pesquisas de intenção de voto apontavam que Aécio (Dilma) teria 26% (44%) dos votos válidos, tendo tido, de fato, 33,55% (41,59%). O que foi pouco comentado é que essas pesquisas de intenção sempre exibem erros relativamente grandes em relação aos resultados do primeiro turno -- em geral são erros não-amostrais, em grande parte produzidos por "erro" na hora de votar devido ao número maior de candidatos a ser escolhido -- mas tendem a cravar o resultado com impressionante precisão estatística no segundo turno. E não foi diferente nessa eleição: as sondagens de Ibope e Datafolha na última semana falavam em percentuais que acabaram sendo muito próximos do percentual de votos obtido por Dilma e Aécio. Estatisticamente, acertaram na lata!

2. Psicologia do eleitor "swing"




Na semana passada escrevi um post onde fiz considerações sobre a psicologia do eleitor "swing" -- os indecisos, os que abstiveram-se no 1º turno e os que votaram branco e nulo. Falei de três efeitos que poderiam atuar sobre esses eleitores: o "efeito underdog" (preferir o candidato que é esperado perder), o efeito "networked bandwagon" (seguir o voto das pessoas indecisas na sua "rede" social uma vez que elas comecem a se decidir) e o efeito "efeito ilusão pivotal" (a crença de que seu voto individual pode ser relevante para determinar o resultado da eleição).

Uma evidência anedótica do segundo efeito foi a declaração pública de voto de alguns jogadores de futebol (Fred e Ronaldinho) na esteira da divulgação do vídeo de Neymar Jr. declarando voto em Aécio.

Dito isto, o efeito que governaria o resultado previsto seria mesmo o terceiro: a "ilusão pivotal". A ideia era a seguinte: se parte desses eleitores "swing" acreditassem que há um empate técnico, desejariam aparecer para votar no segundo turno. O efeito obviamente recairia sobre eleitores dos dois candidatos. Mas o argumento em favor de um efeito final em favor de Aécio provinha da hipótese de que o custo a ser internalizado nessa decisão de se deslocar para o seu distrito eleitoral operaria como uma barreira maior para os eleitores de Dilma. 

O fato que chegamos na sexta com um virtual empate técnico entre os candidatos, criava as condições ideias para testar a previsão, que tinha portanto duas partes: uma parte "qualitativa" (o sinal do efeito: votos "swing" diminuirão) e outra quantitativa (o tamanho do efeito: a mudança de votos terá suficiente para dar a vitória a Aécio Neves). 

Conquanto a segunda parte da previsão tenha miseravelmente falhado, fui olhar os dados dessa e das últimas três eleições e constantei que eles são consistentes com a primeira parte da previsão: embora seja sempre verdade que, do primeiro para o segundo turno, (a) o percentual de votos brancos/nulos se reduz, e (b) o percentual de abstenções aumente, esses movimentos foram diferentes nessa última eleição na direção prevista: as abstenções aumentaram menos e os votos nulos/brancos diminuíram mais (a excessão é a redução de nulos em 2002).

A tabela abaixo mostra as diferenças entre os percentuais (de abstenções, nulos e brancos) de primeiro e o segundo turno das últimas quatro eleições. Há evidência, portanto, de que teve um efeito na direção prevista mas sem a intensidade suficiente para mais do compensar outros movimentos que acabaram dando mais votos para Dilma.


3. Boatos de que Aécio estava vencendo eram verdadeiros
Soube de fontes quentes que Aécio estava a frente de Dilma nas horas que anteciparam a divulgação. Em certo momento, quando faltavam cerca de trinta minutos para a divulgação do resultado, dizia-se que Aécio estava com 53%. Havia um clima de euforia entre amigos e conhecidos com quem compartilhei as boas-novas. Quando os resultados apareceram às 20h ficou a dúvida: a fonte estava falando a verdade? O gráfico abaixo mostra que sim: no eyeball, vê-se que Aécio chegou a estar mais de 10 pontos percentuais a frente de Dilma com mais da metade das urnas apuradas (!), com Dilma passando-o apenas com a contagem dos votos do decil final das urnas sendo apuradas. Close call!



4. "Mas e se...": Existe um culpado?




Resultado computado, os que torciam pela vitória do senador procuravam um "culpado". Muitos analistas foram ligeiros em vaticinar MG como o culpado (a diferença foi de cerca de 500 mil votos apenas...). Os que votaram nulo e se abstiveram-se de votar (mais de 25% do eleitorado) foram "culpados" também.

Muitos outros disseram que o culpado era a região Nordeste -- nos estados da região, Dilma teve, de fato, expressivos percentuais de votação; excetuando-se Alagoas, Dilma teve diferenças de mais de 30 pontos percentuais em todos os estados da região (foi de mais de 50 pontos percentuais no Ceará, Maranhão e Piauí.). como já aconteceu no primeiro turno, discursos de ódio contra a região abundam. Até os que votaram nulo e se abstiveram-se de votar (mais de 25% do eleitorado) foram "culpados".

A ideia de geolocalizar a "culpa" pela derrota é no mínimo boba, dado que estamos em um sistema onde o que importa é a contagem nacional de votos, tendo os votos de lugares diferentes rigorosamente a mesma influência no resultado final (diferentemente dos EUA onde o vencedor em cada estado "takes ti all"(votos do estado)).

O tratamento pouco cuidadoso dos dados pode ser, em parte, responsável por essas confusões. Falo especificamente desses mapas binários de votação por estado (pintado de vermelho se Dilma ganhou, e azul se Aécio venceu) que muito aparecem nos jornais (ver o exemplo abaixo com dados do segundo turno dessa eleição). 


O que esses gráficos escondem é que Dilma teve votações expressivas em absolutamente todos os estados (ver gráfico abaixo, da web, com cada estado sendo colorido conforme proporção de tovo obtido por cada candidato). Em Santa Catarina por exemplo, onde Aécio venceu com a maior diferença percentual absoluta, Dilma obteve 35% dos votos válidos. No Rio Grande do Sul, Aécio venceu mas Dilma obteve quase 47% dos votos. Em São Paulo por exemplo, Dilma obteve praticamente 8.5 milhões de votos, metade dos quais seriam mais do que suficientes para ter dado a vitória a Aécio. Ou seja: é sempre possível definir uma aglomeração espacial grande o suficiente para fazer o exercício contrafactual de que, tivessem Dilma tido, sei lá, metade dos votados que obteve, o resultado da corrida presidencial teria sido outro. O exercício é obviamente inútil: Dilma venceu com votos de eleitores de todos os lugares. Period.



5. Quem tem medo da polarização?
A disputa acirrada parece ter deixado muita gente impressionada. Faz sentido. Afinal, nunca experimentamos, desde a abertura, uma eleição tão concorrida como essa. O que não faz absolutamente nenhum sentido é tomar isso como sinal de que há uma divisão no país que justifique falar em segregação. 

Obviamente que essas são reações emocionais de quem está tendo dificuldade de assimilar a verdade: Dilma venceu e o fez dentro das regras do jogo democrático, de modo que o resultado deve ser absolutamente respeitado.

Verdade seja dita que logrou a vitória com uma campanha eticamente reprovável, que fez uso do medo -- como quando dizia que a independência do Banco Central era equivalente a colocar banqueiros a decidir preço e salário! -- e que insiste em difundir a cretinice de que ricos, bem-sucedidos, e quem "a direita" do partido estiver, não podem genuinamente desejar a melhoria da renda e da educação das pessoas mais pobres. Mas há quem diga que não há santos e que a "politics of fear" dificilmente vai deixar de ser usada pelos incumbentes, seja de que partido for.

O mais importante aqui é lembrar que essas polarizações são naturais e podem até ser vistas como sinais de maturidade da nossa jovem democracia. Os mapas eleitorais abaixo são ilustrativos desse ponto -- todos mostram níveis razoáveis de polarização entre dois grupos políticos em eleições recentes em países com uma insuspeita tradição democrática (Reino Unido, EUA, Canadá, Itália e França). "Lets embrace" nossa polarização (também) como algo saudável.


Eleições Gerais no Reino Unido 2010

Eleições Presidencias nos EUA/2012

Eleições Gerais no Canadá 2011

Eleições Regionais na Itália 2010


Eleições Presidenciais - 1ºTurno - na França 2012


5. Os eleitores do PT e do PSDB são diferentes?
Dia desses em uma aula de "teoria dos jogos", um aluno me perguntou porque o equilíbrio de Nash não necessariamente envolvia as pessoas jogando as estratégias que maximizam o payoff global delas. Eu disse: "pra que isso fosse o caso (no jogo particular que olhávamos), teríamos que relaxar uma hipótese central para toda a disciplina de economia, e uma que não sei se nos levaria muito longe: a hipótese de que as pessoas que habitam nossos modelos são self-interested". 

Pois bem. Essa história deve parecer boba e auto-evidente para economistas mas ilustra um aspecto (unificador) que se esconde por trás das dezenas de justificativas que foram e serão utilizadas para votar em um candidato ou outro, qual seja: o de que votamos governados pelo interesse próprio (e não há nada errado com isso!). 

Senão vejamos: é ideologia socialistóide ou auto-interesse que faz o estudante universitário, recebedor líquido de transferências (não tem renda própria, logo não paga imposto do próprio bolso) preferir plataformas políticas que advogam mais governo? É desinformação ou auto-interesse que faz o sujeito classe média baixa, do Nordeste ou donde for, que tem (ela, ou seus filhos, ou seus familiares) se beneficiado de vários programas do governo federal (BF, MCMV, FIES, Pronatec, Minha Casa Melhor) preferir a continuidade do governo que massificou esses programas? É ideologia liberalóide ou auto-interesse que faz com que o profissional graduado -- economista, advogado, engenheiro, médico etc, no topo da pirâmide distributiva --, que vê quase metade de sua renda evaporar na forma de tributos com pífio retorno, preferir um governo mais "business-friendly" e com uma mão tributária mais leve? 

A desgraça do analfabetismo econômico é acreditar que há uma inconsistência intrínseca de longo prazo entre as aspirações desses grupos, é deixar que esses discursos ideológicos divisionistas e arcaicos impeçam de enxergar o que o Reverendo William Boetcker disse no seu famoso décalogo: "Você não pode elevar o empregado rebaixando o empregador. Você não pode ajudar o pobre destruindo o rico".

terça-feira, 21 de outubro de 2014

Os indecisos já se decidiram



Estão dizendo por aí que os indecisos vão determinar o resultado da eleição.

Mas de acordo com esse artigo da revista Science, quem se declara indeciso já se decidiu. Apenas ainda não sabe disso.

O artigo faz um experimento bem legal. No fim de 2007, houve na Itália, em Vicenza, um plebiscito que decidiria sobre a expansão de uma base militar americana na região. Alguns diziam que votariam a favor, outros contra, e outros tantos se declaravam indecisos.

Os pesquisadores então colocaram os indecisos na frente de um computador que passava diversas imagens muito rapidamente, uma atrás da outra. A cada imagem, de supetão, sem tempo pra pensar, as pessoas tinham que apertar uma tecla "+", se gostavam daquilo, ou uma tecla "-", se não gostavam daquilo.

No meio de imagens sortidas havia fotos relacionadas a temas militares. Os pesquisadores então separaram as pessoas em 2 grupos: o grupo daquelas que apertaram mais "+" para as imagens militares e o grupo daquelas que apertaram mais "-". Depois disso, eles viram se o grupo ao qual a pessoa foi alocada poderia prever o voto que ela deu na hora do plebiscito. O resultado foi surpreendente. O poder de previsão foi de 99%.

Se eu fosse dono de um instituto de pesquisa, eu faria um experimento desse com uma amostra representativa dos indecisos aqui no Brasil.

segunda-feira, 20 de outubro de 2014

Prevendo o eleitor "swing": Três razões porque Aécio vencerá as eleições


Não é por acaso que as democracias representativas são formas dominantes de governo. Participar de forma direta -- e minimamente decente -- do processo de formulação e voto de políticas públicas e leis em geral demandaria muito tempo de nossas curtas vidas: tempo direto, gasto nos ritos processuais envolvidos em cada uma dessas etapas e tempo indireto, gasto na aquisição das competências e expertise para avaliar e votar de forma informada na variedade de assuntos -- de defesa nacional à regulação econômica -- de que consistem a administração de qualquer sociedade.

Um subproduto, talvez indesejável, dessas formas indiretas de governança é a existência de apatia e pouco engajamento ao processo político por parte de grandes frações do eleitorado. Como há indivíduos dedicados aos (e especializados nos) trâmites do processo de formulação de políticas públicas (nossos "representantes" nos vários níveis de administração), nosso envolvimento tende a se reduzir à escolha desses representantes, o que acontece de forma infrequente o suficiente para que adquirir grandes conjuntos de informação sobre os vários indivíduos que pleiteam representar nossas preferências é simplesmente taxing demais. Resultado: muitos eleitores simplesmente não conseguem expressar mais do que indiferença aos candidatos na disputa eleitoral, frequentemente utilizando "atalhos" ("rules of thumb") para decidirem em quem votar ("o mais bonito", o "incumbente", o "preferido das pesquisas", os "que são apoiados por meus amigos",  etc, etc).

É razoável acreditar que dessa apatira e indiferença surge o fenômeno do "eleitor swing" (swing voter). O "eleitor swing" é o eleitor "independente", o indivíduo sem forte identificação ideológico-partidária, que pode votar em virtualmente qualquer partido. Mais importantemente, é o eleitor que permanece indeciso ao longo de quase toda a campanha, decidindo seu voto nos últimos instantes da campanha eleitoral. 

Partidos e analistas políticos sabem, já há algum tempo, que ganhar o coração e mente desse tipo de eleitor é absolutamente crucial para o resultado da campanha. Foram esses eleitores, por exemplo, que deram uma inesperada vitória para Truman (partido democrático) nas eleições presidenciais americanas de 1948 -- inesperada porque Harry Truman venceu com mais de 15 pontos percentuais de vantagem para o segundo colocado quando as pesquisas de intenção de voto, até os últimos momentos da campanha, apontavam para uma apertada disputa entre ele o candidato do partido republicano, o então governador do estado de Nova York, Thomas Dewey. A vitória foi tão inesperada que até um jornal de Chicago se adiantou aos resultados das urnas, antecipando uma vitória que não aconteceu. 



A Eleição Presidencial no Brasil
Essa indiferença e apatia -- com correspondente efeito no número de eleitores "swing" -- é um fator psicológico crucial para prever o resultado de uma eleição. A razão é simples: eleitores indecisos sempre são uma fração significativa dos votantes. Faltando apenas um mês para as eleições, pesquisas de opinião indicavam que 7% dos eleitores ainda estavam indecisos (ver exemplo aqui). 

É verdade que isso não aparece muito. Mas se considerarmos que os votos brancos e nulos e até mesmo as abstenções, são todos -- ao menos em alguma medida -- expressão dessa apatia com o processo eleitoral, temos aí um "pool" de eleitores "swing" de magnitude impressionante. No primeiro turno dessa eleição presidencial, por exemplo, nada mais do que cerca de 29% dos eleitores se abstiveram (19,40%), votaram em branco (3,85%) ou votaram nulo (5,78%). Fosse um candidato, esse "frankstein da apatia e da indecisão" teria sido o terceiro candidato mais votado.

Quem ganhará o segundo turno?


Como as pesquisas de opinião apontam para um empate técnico entre Aécio e Dilma, não parece um exercício complicado de lógica concluir que o que estou chamando -- com alguma "liberdade poética", é verdade -- de eleitor "swing" será o agente decisório dessas eleições presidenciais. Prever o resultado desse próximo domingo reduz-se, portanto, a entender o seguinte: como decidirá esse eleitor "swing"?

O que aprendi nas incursões que faço na literatura de psicologia social me inclina a acreditar que o vencedor dessa eleição será o candidato do PSDB, Aécio Neves. Três fatores contribuirão para isso:

O efeito "underdog"



O primeiro é o "efeito underdog". O efeito "underdog" é um fenômeno típico de competições -- eleitorais mas não só -- onde os indivíduos, ao perceberem que um dado candidato é o provável vencedor, tendem a dar apoio ao candidato que espera-se perder -- esse tipo de fenômeno seria explicado por  uma espécie de "desejo de ser influente". 

Há uma literatura empírica sobre o assunto, que foi tratado de forma seminal (ver artigo aqui) por Herbert Simon -- um dos economistas/cientista políticos mais brilhantes de sua geração com contribuições em mais de meia dúzia de áreas, da psicologia, passando pela economia, até à computação (Simon ganhou o chamado "Prêmio Nobel em Economia" em 1978).

Pois bem. O fato é que Aécio foi praticamente "written off" da corrida presidencial, tendo sido preterido -- os surveys de intenção de voto sugeriam -- por Marina Silva para ser o adversário de Dilma Roussef no segundo turno. Aécio deu uma "virada" -- seu "vote share" acabou sendo muito maior do que as pesquisas de boca de urna sugeriram -- e se posiciona nas últimas pesquisas divulgadas em empate técnico com a incumbente Dilma Roussef. Muitos desses eleitores indecisos e indiferentes tenderão a votar no "underdog", em Aécio, pelo simples fato -- abominável como soe -- de que ser responsável por um dos maiores "upsets" na história das eleições brasileiras será muito mais prazeroso. 

O efeito "pivotal illusion"


O segundo é o que chamarei de "ilusão pivotal". Ser pivotal em um processo decisório significa simplesmente ser de importância crucial -- no caso, ser um eleitor que "influencia" o resultado da eleição. É claro que ser pivotal é impossível: como qualquer modelo econômico de "eleitor racional" nos dirá, votar é (em certo sentido) irrelevante, dado que o voto individual tem probabilidade praticamente nula de influenciar o resultado final da eleição.

Mas nosso comportamento é frequentemente baseado em crenças e percepções. E a disputa apertada entre os dois candidatos ajuda a criar a percepção de que "cada voto contará", dando origem a ilusão de que será um eleitor "pivotal". Mas por que a existência dessa ilusão favorece ao candidato do PSDB? Explico.

Pouco mais de 27 milhões não compareceram às urnas. Muitos dentro desse contingente não comparecerão mesmo: são eleitores que faleceram mas ainda estão com seus títulos ativos. Mas a vasta maioria desses eleitores são de indivíduos que, a um custo c, poderiam votar na eleição deste domingo. São eleitores que estarão fora de seus domicílios eleitorais -- -- esse c seria portanto, essencialmente, o custo de deslocamento. É claro que a distribuição desse custo é heterogênea -- para alguns significaria ir da capital para o interior; para outros, viajar do Sul/Sudeste para o Centro-Norte/Nordeste (ou vice-versa). Mas minha hipótese é que, ainda que os votos desses eleitores ausentes (e sujeitos à "ilusão pivotal") se distribuam uniformemente entre Aécio e Dilma, são os eleitores do primeiro que tenderão a aparecer em maior proporção nesse segundo turno. A razão é simples: internalizar o custo de deslocamento será proporcionalmente mais fácil para o eleitor típico do candidato do PSDB -- veja que não se trata aqui de repetir a besteira que só pobres/só ricos votam num e noutro, mas apenas notar que as pesquisas mostram que os indivíduos de maior renda estão proporcionalmente mais inclinados a votar no candidato da oposição. Em suma: a "ilusão pivotal" diminuirá o número de abstenções e a maior fatia desses votos, por questões econômicas, irá para Aécio -- uma adição que será crucial para o resultado da eleição.

Uma ilustração desse ponto são os dados na tabela logo abaixo. Eles mostram a votação de Aécio e Dilma no primeiro turno entre os eleitores que votaram em trânsito -- eleitores que podem ser vistos como uma "proxy", admitidamente imperfeita, do que seria o voto do eleitor que absteve-se no 1º turno, decidisse ele/ela aparecer para votar no 2º turno.


O efeito "networked bandwagon"


O terceiro é o que chamarei de "networked bandwagon effect" -- uma espécie de "todos pulando no mesmo carro/onda". Comecemos observando o seguinte: povoamos nossas redes sociais de pessoas semelhantes a nós mesmos em muitas dimensões. É razoável admitir, portanto, que os sujeitos genuinamente indecisos estão também cercados de indivíduos indecisos. Ou seja: o eleitor indeciso está numa "network" de eleitores indecisos. Uma vez que um ou mais indivíduos (os "nós" da rede) dessa rede comecem a decidir seu voto, esses eleitores tenderão a "contaminar" outros eleitores indecisos em sua rede (que "pularão na onda"). É claro que a força e magnitude desse efeito depende (1) do momento em que essa decisão é feita (se for feita no último segundo, seu efeito é nulo) e (2) da "topologia" dessa rede -- quantos mais links cruzados, maior e mais rápido tende a ser esse efeito (em oposição à uma rede "flat" onde cada indivíduo tem poucas conexões).

Obviamente que a estrutura em rede de conexões sociais pode favorecer qualquer dos dois candidatos dependendo da opção dos primeiros "nós" a mudarem de status (de "indeciso" para "decidido"). Mas meu argumento é que os dois efeitos acima contribuiriam para que esse voto fosse em favor do candidato do PSDB, de modo que as redes de indecisos fizessem um "swing" majoritariamente em favor dele.



É a presença desses três efeitos -- mais salientes em eleições "mais disputadas" como essa -- que torna difícil a tarefa dos institutos de pesquisa de prever corretamente os resultados.

Conclusão
Aécio vencerá (salvo alguma declaração -- verbal ou não -- desastrada no próximo debate).

sábado, 4 de outubro de 2014

O tempo de TV pode mudar o resultado da eleição?


O pessoal da campanha da Marina está apostando forte no aumento no tempo de TV que ela terá, se eventualmente passar para o segundo turno. Mas isso fará diferença?

quarta-feira, 1 de outubro de 2014

Petistas deveriam votar em Aécio


Pela lógica do Bruno Giovannetti (veja aqui), Marina tem mais chances de ganhar de Dilma do que Aécio, por causa da variação no tempo de TV entre primeiro e segundo turno (que é bem maior para Marina). Tem ainda a transferência de votos: eleitores de Aécio tendem a votar em Marina em um segundo turno contra Dilma; mas esse efeito é provavelmente mais fraco, caso Aécio vá para o segundo turno.

Aécio subiu no Datafolha! Que droga!

A chance da Marina ganhar da Dilma no 2o turno é grande. A chance do Aécio ganhar é miudinha, miudinha.

sábado, 27 de setembro de 2014

A eleição já acabou


Na pesquisa de 2o turno, Dilma está com 47% e Marina 43%. Isso, considerando os tempos de TV atuais (12 minutos Dilma, 2 minutos Marina).

No segundo turno o tempo fica 50%-50%. Dada a estimativa do Bernardo da Silveira e do João Manoel (artigo) de que o aumento de 1 ponto percentual no tempo de TV causa o aumento de 0,27 ponto percentual no voto, qual é a dúvida? A eleição já tá ganha! Por que tanto mimimi?

sexta-feira, 26 de setembro de 2014

Sistemas eleitorais


Nessa semana publiquei um pequeno comentário sobre a regra eleitoral brasileira, e como ela favorece a eleição de figuras midiáticas. O texto teve uma discussão mais ampla na seção de comentários, sobre as vantagens e desvantagens do voto distrital vis-à-vis o sistema proporcional. Lembrei de um artigo escrito pelo Carlos Eduardo há algum tempo, que explica bem esses pontos. Abaixo reproduzo o texto.

***

Sistemas Eleitorais
(Carlos Eduardo S. Gonçalves) 

Em ano eleitoral, volta à baila a discussão sobre reforma política. O debate centra-se muito nos aspectos do financiamento da campanha (público/privado), no uso abusivo da máquina pública e na fidelidade partidária, deixando de lado o que no fundo me parece mais importante: a necessidade de uma mudança mais abrangente e radical, que mude o sistema eleitoral na sua raiz e assim afete os incentivos de nossos políticos.

Há dois cortes fundamentais quando se discutem arranjos políticos comparados. O primeiro é a dicotomia clássica entre tipos de governo, a saber, Parlamentarismo e Presidencialismo. O segundo, aparentemente mais relevante para questões de economia, diz respeito ao sistema eleitoral, com a divisão entre Distrital e Proporcional.

A evidência empírica disponível sinaliza que regimes presidencialistas têm políticas públicas e taxas de crescimento econômico piores que os regimes parlamentaristas, mas a dificuldade de traçar um sentido claro de causalidade correndo do sistema de governo para aquelas duas variáveis de interesse é grande, em vista da predominância de países da América Latina e África entre as nações presidencialistas. O ponto é que o mau desempenho desse grupo particularmente problemático pode estar contaminando a variável “Presidencialismo” na análise empírica. De todo modo, para o Brasil essa discussão é menos importante no momento, visto que não faz tanto tempo assim o país escolheu, sem margem para contestação, o regime presidencialista.

No caso do corte Distrital/Proporcional, as evidências são mais claras. Antes de mencioná-las, contudo, um breve resumo das diferenças teóricas entre esses dois possíveis arranjos.

No sistema proporcional, as cadeiras do Congresso são ocupadas pelos partidos na medida quase exata da proporção de votos que esses recebem nas eleições. Se há 200 vagas no Congresso, por exemplo, um partido pouco representativo que tenha recebido apenas 5% dos votos nas eleições, termina com 10 cadeiras no Parlamento. Como essas cadeiras são alocadas dentro do partido depende da natureza das chamadas “listas eleitorais”. Nas listas abertas, os candidatos mais diretamente votados pelos eleitores têm prioridade dentro do partido. Já no caso das listas fechadas, os eleitores votam numa lista predeterminada e ordenada pelos dirigentes do partido – a soberania do eleitor é, portanto, menor nesse caso (e os incentivos à corrupção maiores).

Voltando à divisão Distrital/Proporcional, o consenso na literatura política é que enquanto esse último tem a vantagem de garantir representatividade para minorias raciais/ideológica/etc, aquele é mais eficiente em termos de “accountability” dos políticos e governabilidade.

No sistema Distrital é eleito quem obtiver a maioria dos votos do Distrito. Desse modo, candidatos com preferências muito idiossincráticas (os “nanicos”) não encontram um lugar ao sol. Claro está, esse esquema eleitoral coíbe a participação, ou melhor, desincentiva a entrada de políticos/partidos incapazes de angariar boa parcela dos votos totais. Como resultado, em equilíbrio, o número de partidos é menor no sistema Distrital, o que facilita a governabilidade. Além disso, porque a eleição ocorre num Distrito relativamente pequeno – por exemplo, o Distrito do Pacaembu –, o conhecimento em relação aos candidatos é maior, as campanhas são mais baratas, e a proximidade geográfica ajuda o eleitor a vocalizar suas queixas e insatisfações.

Não à toa, os dados mostram que, tudo o mais constante, a corrupção é de fato menor em países que adotam o sistema Distrital (em relação, claro, aos países que adotam o Proporcional).

E não apenas mais governabilidade e menos corrupção – dois problemas gravíssimos de nosso atual regime “presidencialista-de-coalizão-de-araque”. O sistema Distrital também gera maior austeridade fiscal. O motivo é simples. Como no arranjo Proporcional o candidato precisa levantar votos em uma parcela ampla do eleitorado (no Brasil, em um Estado inteiro; em Israel, no país inteiro!), sua plataforma tende a favorecer grandes grupos organizados da sociedade, como os aposentados, por exemplo, que não se concentram de modo desproporcional em alguns poucos distritos, achando-se dispersos geograficamente. Como conseqüência, mesmo controlando para estrutura etária e outras variáveis explicativas, a análise estatística revela que os gastos públicos em países com sistema Proporcional são mais elevados.

Fosse o Brasil um país com importantes clivagens ético-raciais, seria discutível se uma mudança em direção a um sistema Distrital valeria a pena. Não sendo, migrar para o sistema Distrital é o que se costuma chamar em economia de “almoço grátis”. Para a sociedade, claro, mas talvez não para os políticos.

(Publicado originalmente no blog Sob a Lupa do Economista, em 16/7/2010)

quinta-feira, 25 de setembro de 2014

Maluf, Tiririca, Russomano e o voto distrital


Na semana passada saiu a primeira pesquisa do Ibope para deputado federal em São Paulo (veja aqui). E no topo aparecem figuras bem conhecidas como o palhaço Tiririca, Paulo Maluf e Celso Russomano. Fiquei pensando como um cara tipo Maluf pode ter votação expressiva, mesmo com seu histórico de denúncias de corrupção.

Mas ele (assim como os outros citados acima) só se elege por causa do caráter proporcional da eleição para deputado no Brasil. Em particular, Maluf precisa ter muitos votos no Estado como um todo. Mesmo com uma rejeição enorme, se 1% das pessoas votarem nele, conseguirá mais de 300 mil votos (o eleitorado no Estado é cerca de 30 milhões). Elege-se com o pé nas costas: em 2010, o terceiro colocado no Estado teve votação menor que isso (veja aqui).

Já em um sistema distrital, Maluf dificilmente se elegeria. Isso porque ele precisaria de uma votação expressiva em um distrito. Na regra atual, por ser uma figura conhecida, Maluf consegue poucos votos em diversos locais, que somados acabam viabilizando sua candidatura. Com o voto distrital, ele não poderia fazer essa soma e nunca seria eleito.

PS: Maluf foi considerado ficha suja e, portanto, teve sua candidatura barrada pela justiça eleitoral. Mas continua em campanha porque tem direito a recurso. Ou seja, para se eleger, ele não precisa só de votação expressiva; precisa reverter a decisão da justiça (veja aqui).

segunda-feira, 15 de setembro de 2014

A anti-Carta ao Povo Brasileiro


Doze anos após Lula assinar a notória Carta ao Povo Brasileiro (íntegra aqui), Dilma Rousseff vai compondo uma verdadeira anti-Carta ao Povo Brasileiro. Abaixo, só um de vários exemplos dos parágrafos dessa Carta que a presidente está distribuindo nos últimos dias:

“Minha filha, meu filho, esse povo da autonomia do Banco Central quer é o modelo anterior, quer é fazer um baita ajuste, um baita superávit primário, aumentar os juros pra danar, reduzir emprego e reduzir salário, porque emprego e salário não garantem a produtividade, segundo eles. Eu sou contra isso, eu tenho lado.” (Retirado de notícia publicada pelo site de O Globo em 11/09/2024, link aqui)

O recado foi dado com muita clareza. Ela não está do lado da autonomia do Banco Central. E a presidente Dilma pode certeza. Se ela for eleita, a não ser que esconjure a anti-Carta e escolha para presidente do Banco Central um monetarista notoriamente sanguinário (caros colegas bloguistas economistas, pergunto-lhes: quem poderia ser esse notório monetarista sanguinário?), a cada reunião do Copom, por muito tempo, o mercado financeiro se lembrará do conteúdo da anti-Carta.

quarta-feira, 10 de setembro de 2014

Rio Grande do Sul e reeleição: um case mundial


O Rio Grande do Sul já faz por merecer se transformar em objeto de estudo de cientistas políticos brasileiros e estrangeiros.

Lá, ao contrário do que ocorre no resto do mundo, ser candidato à reeleição é uma desvantagem. Ninguém conseguiu se reeleger governador no Rio Grande do Sul até hoje.

A regra, ao que parece, será confirmada nesta eleição. Ana Amélia, candidata do PP, caminha para retirar Tarso Genro do Palácio Piratini, sede do governo estadual.

Tudo bem. Sem contar 2014, foram apenas 4 insucessos de candidatos incumbentes. É pouco para construir um padrão estatístico. Mas é suficiente para despertar curiosidade intelectual e até acadêmica. Principalmente se olharmos o que ocorreu na eleição presidencial e em todos os demais estados do país desde 1998, primeira eleição que aceitou a reeleição para o executivo.

Há alguma explicação para o fenômeno gaúcho? Terá fundamentos históricos ou sociais? Será decorrência do elevado grau de polítização que, supostamente, existe no RGS? Ou tem a ver com a precariedade fiscal do estado?

Talvez seja algo no mate do chimarrão.

terça-feira, 9 de setembro de 2014

quarta-feira, 3 de setembro de 2014

Alckmin, o homem do povo?


O PT tende a ser mais forte entre os pobres e pouco escolarizados, e não o PSDB. Mas a última pesquisa do Ibope para o governo do Estado de São Paulo mostra um fato peculiar: Alckmin lidera (apesar de ter perdido terreno), e essa liderança é particularmente larga entre os eleitores com menos instrução:
No eleitorado mais escolarizado, com ensino superior, a vantagem de Alckmin sobre Skaf é de apenas 10 pontos: 44% a 34%. Entre os que estudaram até a 4.ª série do ensino fundamental, essa vantagem chega a 37 pontos: 51% a 14%. 
Será que isso tem a ver com informação? Como os demais candidatos são pouco conhecidos, e os menos escolarizados tendem a ser também menos informados, Alckmin levaria vantagem. Imagino que seja difícil capturar a atenção do eleitor, especialmente com uma eleição presidencial acontecendo ao mesmo tempo.

(Isso levanta uma hipótese interessante: será que incumbentes têm vantagem desproporcional em eleições para governador, quando elas ocorrem junto com eleições presidenciais?)

Outra possibilidade é que a amostra é pequena quando quebramos por faixas educacionais. Os erros padrões devem ser gigantescos para a subamostra dos menos escolarizados. De qualquer forma, a diferença a favor de Alckmin é também enorme para esse grupo.

Fonte: estadao.com.br

quarta-feira, 20 de agosto de 2014

O Pastor e as Ovelhas da "Nova" Direita Liberal


O Jornal Nacional tem feito uma série de entrevistas com candidatos à presidência. Ontem, os apresentadores do programa entrevistaram o Pastor Everaldo. O vídeo com a entrevista pode ser visto aqui.

terça-feira, 12 de agosto de 2014

Presidencialismo de coalizão: hora de rever algumas convicções?


Dois artigos sobre política no Brasil publicados na imprensa me chamaram a atenção na semana passada. Foram escritos por Rafael Cortez (Estadão 06/08, aqui) e Marcus Melo (Valor 08/08, aqui, para assinantes ou cadastrados), cientistas políticos de boa – e justa - reputação acadêmica (Lattes respectivos aqui e aqui).

quinta-feira, 12 de junho de 2014

Toc, toc, toc


A presidente Dilma anda batendo na madeira e fazendo figa para que tudo dê certo durante a Copa do Mundo. Fez isso quando, ao lado de Cafu, recebeu a taça da Fifa das mãos de Joseph Blatter (aqui). Repetiu o gesto em entrevista à TV Bandeirantes (aqui). Com tantos fios desencapados rondando o evento, faz bem a presidente em bater na madeira e fazer figa, porque é importante para a sua reeleição que a Copa corra bem, fora do campo, mas, estou ficando convencido, também dentro do campo.

É um sinal de anormalidade. Não deveria ser assim. Normal seria se Copa e eleição fossem eventos desconexos. Pensar que as desventuras dos jogadores brasileiros durante as próximas quatro semanas (toc, toc, toc) possam influenciar a decisão de voto dos brasileiros é o supra sumo da anomalia. Mas o brasileiro anda tão mal humorado, tão ensimesmado com a Copa e o clima social está tão agitado que não é absurdo pensar que o desempenho do Brasil em campo poderá ajudar ou atrapalhar o destino da presidente Dilma.

Estamos vivendo tempos estranhos e é provável que esse clima se estenderá até a eleição, talvez com um interregno durante a Copa (toc, toc, toc). Uma situação diversa da desenhada por Cezar Zucco em artigo publicado no Valor (aqui). Para quem não conhece, Zucco é um dos principais nomes da nova geração de cientistas políticos brasileiros. Andou por universidades importantes nos EUA, como aluno e professor. Hoje está na FGV-Rio. Produz bastante, papers que combinam assuntos interessantes, boas discussões teóricas e testes empíricos tecnicamente sofisticados.

No artigo do Valor, Zucco usa justamente um modelo empírico para concluir que Dilma é franca favorita. O modelo, bastante parcimonioso, combina preços de commodities à taxa de juros americano para criar um índice de que ele batizou de “bons ventos econômicos”. Esta é a variável independente que explica a aprovação ao governo, a qual, por sua vez, determina as chances de sucesso da candidatura incumbente. Segundo Zucco, a aprovação de Dilma está abaixo do previsto pelo modelo. Com base no modelo, ele aposta que, apesar da conjuntura desfavorável, fatores estruturais se imporão de modo que, daqui até a eleição, a aprovação do governo, hoje um pouco aquém de 35%, chegará a 45%, nível suficiente para garantir a reeleição de Dilma. Esse é principal ponto do artigo: a subordinação dos aspectos conjunturais aos estruturais.

Em condições normais, Zucco estaria certo. Mas será que a eleição presidencial deste ano ocorrerá em condições normais? Será que a avaliação do governo está seguindo seu padrão histórico detectado pelo modelo? Talvez não. E nem é preciso usar estatística sofisticada para levantar essa hipótese. Basta olhar o gráfico da avaliação positiva do governo  para perceber que as manifestações de junho passado provocaram uma quebra abrupta da série (despencou de 65% para 30% em um mês) impossível de explicar por intermédio de modelos estatísticos de tipo série de tempo. Qualquer modelo, pois todos têm a normalidade do passado como guia. E se o passado perdeu capacidade de explicar o presente e, mais ainda, de prever o futuro, a conjuntura se sobressai, não sendo desprezível a possibilidade de se sobrepor à estrutura.

Além disso, esse clima de estranheza, de mal estar, de incerteza quanto ao futuro, está contribuindo para enfraquecer – mas certamente não para extinguir – a influência do cenário econômico externo sobre o doméstico. A queda da confiança do empresariado e do consumidor, por exemplo, a qual foi contaminada, por assim dizer, por esse clima estranho, parece ter, no mínimo, contribuído para o recente esfriamento da economia, ilustrado por números divulgados nas últimas semanas.

Se é assim, se estamos em um momento no qual, usando uma expressão bem a gosto dos políticos do passado, vaca está estranhando bezerro, é mesmo hora de Dilma bater na madeira e torcer como nunca pela seleção. Toc, toc, toc, que a bola vai rolar daqui a pouco.

domingo, 18 de maio de 2014

Lapso lulista


Lula está falando pelos cotovelos ultimamente. Normal e esperado. Estamos nos aproximando de uma eleição cercada de incertezas e riscos para o PT. E Lula é indiscutivelmente o comandante maior do PT e das forças políticas e sociais que rodeiam o petismo. Até por conta disso – mas não apenas por isso – é importante prestar atenção ao que ele diz.

quinta-feira, 8 de maio de 2014

Um a menos e um a mais


Nelson Barbosa está dizendo que a inflação em 2015 atingirá 7,5%. Um a menos na lista de Fazendáveis de Dilma II. E mais um na turma de ex-aliados de Dilma I.

sexta-feira, 2 de maio de 2014

Retrocesso


Nos anos 80 e 90, o reajuste da tabela de desconto do IR pela inflação era item constante da pauta de reivindicações dos sindicalistas. Essa medida típica da agenda do final do século passado ter sido incluída no pacote de bondades anunciado por Dilma no 1º de Maio com objetivo de estancar a queda da presidente nas pesquisas mostra que retrocedemos.

domingo, 13 de abril de 2014

São Pedro

São Paulo, sábado, oito e meia da noite, chove forte. Aquela chuva que foi rara no último verão paulistano. A luz de casa começou a piscar. Daqui a pouco, muito provavelmente, a minha conexão com a internet cairá. Certamente muitos semáforos não estão funcionando na cidade. Vários pontos de alagamento já devem ter surgido.

Apesar disso, a chuva é bem-vinda. Fez calor nos últimos dias e a represa precisa encher para não virar de vez açude nordestino em época de seca. Se eu estou contente com a chegada da chuva, imagino a felicidade de Geraldo Alckmin. O governador de São Paulo já deve ter acendido muitas velas para São Pedro, colocado sal grosso no telhado do Palácio dos Bandeirantes, baixado na internet os passos da dança da chuva etc. Dilma também deve estar apelando a todas as mandingas para que chova muito, torrencialmente, em todo o país.

Pois é, PSDB e PT finalmente estão aliados. Aliados na torcida para que São Pedro mande água aqui para baixo. Disso pode depender o sucesso eleitoral dos políticos que ocupam os cargos executivos mais importantes do país, a Presidência da República e o governo de São Paulo. Algo saiu errado quando o futuro político dos principais governantes do PSDB e do PT depende de São Pedro. Não pode ter sido apenas falta de sorte.

Quem pagará a conta pela incúria tucana e petista, financeiramente ou via racionamento de água ou energia, somos nós consumidores e eleitores. O pior é que os especialistas estão convergindo para a previsão de que o racionamento de água e de energia é inevitável. A dúvida é saber quando ocorrerão, quando as torneiras secarão e quando as televisões – ou as máquinas da indústria – deixarão de funcionar por falta de energia. A torneira secará primeiro, ou a televisão parará de funcionar antes? Será em 2014 ou em 2015? Antes ou depois de 5 de outubro?

Seja como for, se os especialistas estiverem certos, também haverá uma conta política a ser paga por Alckmin e Dilma. Será mais salgada se chegar antes de outubro. Mas pesará no bolso dos dois mesmo se for cobrada depois disso, especialmente se eles se reelegerem. Em 1999, depois da desvalorização cambial de janeiro, a popularidade de FHC despencou e nunca mais se aprumou para valer. Pode ser que ocorra o mesmo com Alckmin e Dilma em 2015, se sobreviverem a 2014.