quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014

O idioma que falamos afeta nosso comportamento?

A pesquisa de Keith Chen sugere que sim.

O autor considera dois tipos de idioma: aqueles em que é necessário identificar gramaticalmente o futuro, e aqueles em que essa distinção não é obrigatória. Por exemplo, em português, é estranho falar "Chove amanhã". É preciso ajustar o tempo verbal, e não apenas indicar "amanhã" para fazer referência ao futuro. Já em alemão ou mandarim, é perfeitamente aceitável falar o equivalente a "Chove amanhã".

Chen chama o primeiro tipo de linguagem de strong-FTR e o segundo de weak-FTR, em que FTR quer dizer future-time reference.

O autor encontra que pessoas que falam línguas com weak-FTR apresentam uma tendência maior a poupar. Esse resultado é forte e sobrevive a uma bateria de testes de robustez. Vale não apenas no nível individual, mas também no agregado: a taxa de poupança é em média mais elevada nos países com uma parcela maior de pessoas falando idiomas com weak-FTR.

A interpretação é que o idioma afeta nossa percepção de quão "próximo" é o futuro. Em particular, nas línguas com strong-FTR, como há necessidade de realizar a distinção gramatical, tem-se a impressão que o futuro está relativamente distante. Como poupança envolve um sacrifício de consumo hoje para aumentar o consumo mais tarde, quanto maior o tempo percebido para usufruir do benefício, menor o incentivo a poupar.

Em suma, a língua parece afetar a taxa de desconto subjetiva.

O incrível é que o idioma tem a ver com outros tipos de comportamento associados ao tradeoff entre presente e futuro. Por exemplo, atividades como fumar, comer junk food e transar sem camisinha envolvem um benefício imediato em troca de perdas possíveis no futuro. Chen também encontra que pessoas que falam línguas com weak-FTR tendem a apresentar melhores indicadores de saúde, praticar sexo seguro, além de terem menores chances de serem fumantes ou obesas.

O paper saiu no AER do ano passado (link). Vale a pena também dar uma olhada no TED Talk de Chen (abaixo).


(para a versão com legendas em português do vídeo, veja aqui).

quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014

Sexo, pílulas e economia

O vídeo abaixo explica como teoria econômica pode ser usada para entender as decisões dos indivíduos na esfera amorosa/sexual. E como a expansão da pílula anticoncepcional bagunçou esse mercado.



terça-feira, 25 de fevereiro de 2014

Investment-grade e preços dos ativos (difícil, como diria o CESG)


Andei lendo por aí que a Standard & Poor´s pode rebaixar o rating do Brasil (aqui, por exemplo). Não sei o quanto isso é firme, não acompanho muito de perto. No entanto, essa história motiva a pergunta: quando um país é rebaixado, o que acontece com o valor das empresas por lá listadas?

Quando o rebaixamento leva à perda de grau de investimento (não é o caso do Brasil), há um canal meio mecânico pelo qual as empresas perdem valor. Investidores grandes internacionais (fundos de pensão, fundos mútuos) têm em seus regulamentos a restrição de só investir em países investment-grade. Quando o país é rebaixado, esses investidores se mandam e o valor dos ativos caem.

Mas quais ativos caem mais? Por exemplo, se o Brasil perdesse o investment grade, quais são as empresas que mais iriam sofrer? Para responder a essa pergunta, o canal mecânico descrito acima aliado à teoria pode nos ajudar. As ideias vêm do working paper  Giovannetti, Rodrigues e Ros (2014), que foi baseado na dissertação do Eduardo Ros orientada pelo Mauro Rodrigues (como eu fui virar co-autor no paper? enchendo o saco na banca!).

Basics

O modelo básico de asset pricing, o CAPM, diz que o risco de uma ação deve ser medido pela covariância de seu retorno com o retorno da carteira de mercado, o tal do beta. O retorno de mercado entra como uma variável que mede o estado da economia (estado bom, retorno bom). A ideia é que ações que nos protegem com relação a oscilações do estado da economia (beta baixo) são menos arriscadas que ações que nos alavancam (beta alto). Posto isso, ações de beta alto, mais arriscadas, têm que nos compensar pagando em média retornos maiores (ceteris paribus, tem preços menores).

E daí, meu bem? (como diria o Sérgio Almeida)

E daí que quando tem muito gringo investindo em um país, o beta provavelmente deve ser calculado usando-se o retorno da carteira de mercado internacional ("beta gringo") - o gringo deve ser o investidor marginal que precifica os ativos no país. Quando tem pouco gringo, por outro lado, deve-se usar o retorno da carteira nacional mesmo ("beta nacional"). Sob essa hipótese, podemos fazer um educated guess sobre quais empresas vão sofrer mais com o rebaixamento.

Como?

Bom, quando o país perde o grau de investimento, vários gringos têm que tirar o dinheiro do país e, assim, a precificação das ações deixa de ser feita via "beta gringo" e passa a ser feita via "beta nacional". Por causa disso, a mudança no preço das ações ao redor do rebaixamento deve vir da diferença entre esses betas, que podemos chamar de DIFCOV. Definindo o DIFCOV como "beta nacional" menos "beta gringo" (que tenderá a ser positivo, dado que as empresas covariam mais com a carteira local do que com a global) temos o seguinte:

  • empresa com DIFCOV alto: quando os gringos saírem do país (downgrade), terá seu risco reavaliado bem para cima => preço cai muito
  • empresa com DIFCOV baixo: quando os gringos saírem do país (downgrade), terá seu risco reavaliado para cima, mas nem tanto => preço cai pouco
Assim, calculando DIFCOV de cada empresa, podemos ter uma indicação do que deve acontecer com os preços individuais das ações no caso de um downgrade. 

Isso funciona?

Parece que sim. No nosso artigo, calculamos a variação do preço das ações ao redor de eventos de downgrade e upgrade (para upgrade a história é análoga). Focando nos downgrades, temos 5 eventos - Coréia do Sul (1997), Indonésia (1997), Grécia (2010), Hungria (2011) e Portugal (2011) - totalizando quase 800 empresas. O gráfico abaixo mostra o retorno das empresas ao redor dos respectivos downgrades vis-a-vis seus DIFCOVs. Retornos e DIFCOVs estão demeaned, portanto desencane de olhar o valor dos eixos. A coisa parece clara: quanto maior o DIFCOV, maior a queda do preço.



E agora?

Bom, se (i) o governo atual continuar fazendo besteira, (ii) o Brasil perder o investment-grade e (iii) você ganhar dinheiro baseado nesse post, lembre-se de nós e faça uma doação para o Economista X. Para o blog, não para o pentelho! 

Combate a Desigualdade nos EUA


Vários acadêmicos ficam saindo no jornal falando da necessidade de reduzir a desigualdade nos EUA. Louvável. Nos anos 30, após a grande depressão, a administração Roosevelt fez um importante programa nesse sentido. Mas agora isso não vai acontecer. Nem a pau, Juvenal.

1)   Diferentemente dos anos 30, o Governo já é muito grande.

2)  Também diferentemente dos anos 30, atualmente a polarização política é imensa, tornando impossível qualquer consenso para implementação de tal política.

3)  Pesquisas mostram que a maioria dos gringos não sabe que a distribuição de renda piorou lá muito, que é muito pior que a europeia.

4)  Os gringos também acham que o Governo desperdiça tudo, e não confiaram nele para realizar esse trabalho.

5)  Mesmo que houvesse uma demanda forte por redistribuição, o Congresso americano é profundamente afetado por doações, provenientes de uma parte mínima da população.

Esquerda direita


O texto do José Eli da Veiga hoje no Valor faz menção ao site do Political Compass , que contém um teste interessante para saber onde a pessoa se localiza em 2 escalas: esquerda-direita (do ponto de vista econômico) e libertário-autoritário (do ponto de vista político, valores sociais). 

Já havia feito o teste anteriormente. Refiz o teste hoje e cai no quadrante direita-libertário, mas quase no centro:

The Political Compass
Economic Left/Right: 0.62
Social Libertarian/Authoritarian: -1.54

  

A distribuição com as respostas dos leitores fica (atualizado em 26/02 às 19:33, com 28 respostas):


The Political Compass ™ Crowd Chart

                       
                                   
E agora só com os blogueiros:


E vocês, como se situam nessas escalas?



Incentivando comportamento seguro


Ontem fui à academia para obter informações sobre preços. Descobri que, por conta do meu seguro saúde, eu teria 10% de desconto na mensalidade.

Do ponto de vista do plano de saúde, há uma motivação óbvia para prover tal desconto: atrair um maior número de consumidores. Mas há um segundo efeito: incentivam-se os clientes do plano a praticarem exercício, diminuindo as chances de doenças mais graves e a realização de procedimentos cirúrgicos, os quais são bastante custosos para o provedor do seguro.

Lógica semelhante pode ser atribuída a descontos em medicamentos, que são oferecidos por alguns planos de saúde.
  
Na verdade, a discussão acima tem muito a ver com um post anterior, sobre descontos nos estacionamentos fornecidos por seguradoras de veículos (veja aqui). Nesse caso, o incentivo é para que o motorista não deixe seu carro na rua, reduzindo assim o número de roubos e os custos da companhia. 

segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

Por que (e quanto) estudar?


A literatura microeconômica e de desenvolvimento em educação é extensa e de longa tradição. Mas no campo de crescimento embora não faltem modelos de capital humano e estudos sobre impacto de educação sobre crescimento e renda, não são muitos os estudos que tentam entender porque as pessoas investem em capital humano. Olhando um exemplo específico: em 1960 a mediana da escolaridade média dos países da África Subsaariana era de menos de 1,5 anos. Em 2010 ela tinha saltado para mais de cinco anos. No mesmo período a performance de crescimento dos países da região foi entre o muito ruim ou catástrofe, com raras exceções. Países como Gabão e Gana, por exemplo, cuja renda relativa aos Estados Unidos caiu à metade entre 1960 e 2010 aumentaram em sete e seis anos, respectivamente, suas escolaridades médias no período.

Porque investir tanto em educação em um cenário de aparente estagnação? Talvez porque, apesar de tudo, o retorno tenha aumentado e não está sendo refletido corretamente pelos números PIB. Ou porque os custos caíram. Restuccia e Vandenbroucke (2013, U. of Toronto) vão pelo primeiro caminho. Neste modelo, um pequeno aumento de produtividade – na verdade, PTF - na economia seria suficiente para manter as pessoas na escola. Adicionam como explicação o crescimento da expectativa de vida observado na África no período (a mediana vai de 42 para 56 anos): uma maior longevidade aumenta o retorno de um dado investimento em capital humano. Este é um modelo engenhoso e uma explicação plausível: dado que no futuro a economia será mais produtiva e eu viverei um número maior de anos, meu retorno em permanecer mais tempo na escola será maior também. 

Há alguma controvérsia sobre o impacto de longevidade sobre educação e crescimento. Rodrigo Soares (JPopE, 2006), usando dados da PNAD, encontra um impacto positivo enquanto Acemoglu e Johnson (JPE, 2007) usam dados para um grupo de países e não encontram qualquer efeito de expectativa de vida sobre crescimento. De qualquer forma, muitos economistas vêm utilizando esta hipótese em seus modelos que, pelo menos do ponto de vista teórico, faz bastante sentido. Já a relação entre TFP e investimento em capital humano para a África pode estar em contradição com o fato de que, pelo menos a partir dos anos 70, a produtividade em grande parte destes países passa a cair – e as perspectivas futuras pioram muito – mas os números de educação continuam a melhorar.

Uma explicação alternativa seria de que os custos de se educar diminuíram. De uma maneira informal, podemos pensar em alguns fatores importantes nesta direção. Os países se urbanizaram, de forma que distâncias médias para as escolas são agora menores. O número de escolas e de vagas cresceram, em geral em ritmo maior que a população. Em alguns países pelo mundo afora – e.g., Brasil – há agora transporte, material e livros grátis. Ainda usando o Brasil como exemplo, no meio do século passado quase nenhuma cidade pequena tinha escolas de ensino médio e muitas não tinham ginásio, de forma que as crianças e adolescentes tinham que se deslocar muito ou mudar de cidade se quisessem continuar estudando. Hoje grande parte das cidades brasileiras tem escolas de ensino médio. Imagino que, de uma forma ou outra, o resto do mundo venha evoluindo nesta direção. 

O problema é como medir isto, como conseguir bons dados e evidências sólidas que parecem não estar disponíveis a um custo baixo. Uma alternativa seria construir modelos dinâmicos de crescimento e acumulação de capital humano e usá-lo como uma ferramenta para medir estes custos (mais uma vez, theory ahead of measurement...), mais ou menos como os modelos de mensuração de “wedges” e distorções em ciclos reais (e.g., Chari, Kehoe e McGrattan, Econometrica 2007). Talvez o pessoal de microeconometria já tenha resolvido isto e eu esteja desinformado, de qualquer forma é uma questão importante, e em aberto, que os macroeconomistas têm virtualmente ignorado.

sábado, 22 de fevereiro de 2014

Fidelidade

Programas de fidelidade estão disseminados em diversos setores de atividade. O exemplo mais óbvio é o das milhas aéreas. Mas hoje existem esquemas similares em farmácias, supermercados, livrarias, postos de gasolina etc.

Há duas vantagens do ponto de vista do vendedor. Primeiro, incentiva-se o consumidor a comprar sempre no mesmo estabelecimento. Segundo, por falta de tempo ou simples esquecimento, algumas pessoas deixam de trocar os pontos acumulados por produtos ou prêmios (em geral os pontos expiram depois de um tempo). Nesses casos, o produtor ganha a fidelidade do consumidor sem precisar dar nada em retorno.

Optei por concentrar minhas compras de medicamentos e outras coisas na Droga Raia. As compras rendem pontos, que podem ser trocados por produtos. Nessa semana resolvi perguntar qual era meu saldo, quanto aquilo valia em reais, e como faria para transformar pontos em produtos. Eles me informaram o saldo e falaram que eu deveria consultar o catálogo de prêmios para fazer a troca. E que não havia uma correspondência de pontos para reais.

No fim eu disse que não tinha tempo para aquilo e fui embora. Isso provavelmente se repetirá nas próximas vezes que eu retornar à farmácia. Ou seja, há uma chance bastante elevada de que perderei esses pontos.

Depois fiquei pensando: essa seria uma estratégia deliberada da empresa para dificultar a troca dos pontos? Ah, perguntei também se o catálogo de prêmios está disponível online. A resposta: Não.    

Skill bias e desigualdade

"Skill bias": nos EUA a demanda por qualificação, função das inovações tecnológicas, subiu muito nos últimos 20 anos. O número de pessoas com capital humano mais elevado subiu de fato devagar (tuition caro demais e outras coisitas mais). Resultado: aumento na desigualdade dos salários: o dos 10% mais ricos cresceu mais rápido que o do mediano -- pero no mucho.

Mas essa história é incompleta. Bem incompleta talvez. Isso porque a renda dos 1% mais ricos explica cerca de 60% do incremento da renda dos 10% mais ricos. É demais: os 9% melhoraram mais que a média, mas não tremendamente. E não há grandes diferenças educacionais entre os 9% mais ricos e os 1% mais ricos que justifique isso. Então o grosso do crescimento da desigualdade NÃO vem de skill bias; ou seja não vem de produto marginal do trabalho muito diferente.

Não necessariamente vem de coisas ruins, claro, pode muito bem ser escala por exemplo -- pense no Ipad. Mas pode também vir de uma acentuação do problema de agente-principal dentro das grandes corporações (CEOs e alta gerência conseguindo meter mais do dinheiro dos acionistas no bolso), o que o José Stiglitz chama de quebra da outrageous constraint.

sexta-feira, 21 de fevereiro de 2014

Consumidor tem direito a qualidade?


Conversa que escutei hoje em uma padaria entre um cliente e a garçonete:

Cliente: Quem é o gerente daqui?
Garçonete:  É o Paulo. Algum problema?

Cliente: A pizza costumava ser boa aqui, mas agora está muito ruim.
Garçonete:  Mas o pizzaiolo é o mesmo e as pessoas não têm reclamado.

Cliente: Mas eles não reclamam porque brasileiro não sabe dos seus direitos.
Garçonete:  Humrum.

Cliente: A pizza pode subir de preço mas não cair a qualidade.
Garçonete: Tá. Vou falar pro gerente.

Essa conversa me lembra aqueles modelos dinâmicos de oligopólio onde a firma cria um produto de alta qualidade e depois de consolidarem uma posição monopolista nesse segmento, podem vir a derrubar a qualidade (custos) e desfrutam da renda extra enquanto a ficha dos consumidores não cair. Uma estratégia que, dependendendo de certas condições, pode ser dinâmicamente eficiente. Há evidências anedóticas de que a Nike (fabricante americano de material esportivo), Zara (fabricante de roupas espanhol) e a Toyota (fabricante de carros japonesa) fizeram algo assim ao longo dos anos. Ah, e a julgar pelo diálogo acima, a padaria do "meu bairro" também.

P.S.: Em caso você esteja em dúvida: consumidora não tem direito a qualidade! Ela tem, todavia, o direito de depositar seus "votos monetários" em outra pizzaria.

quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

Tratores petistas 3

Apesar de ter sido escrito há 65 anos Coronelismo, Enxada e Voto (CEV) de Victor Nunes Leal ainda é a literatura que melhor analisa o fenômeno do governismo ilustrado pela nota petista Deputado Amauri entrega tratores em Mirangaba e Campo Formoso (ver aqui a nota).

Desde então, o país mudou muito e, como previa Leal, o coronelismo conforme descrito por ele se esvaneceu graças ao avanço da urbanização, ao enraizamento do sistema representativo democrático e ao aumento da competição eleitoral, muito mais vigorosa hoje do que nas primeiras décadas do século passado. Restou, contudo, o predomínio político do poder central sobre o poder local e a enorme capacidade centrípeta do governo federal – e do grupo político que o controla – em relação às demais forças políticas do país. Ou seja, restou o governismo, que, no modelo de Leal, é uma das marcas do coronelismo. Como diz ele, “o ‘coronelismo’, como sistema político, tem feição marcadamente governista.” (pg 254)

Fernando Limongi publicou recentemente um ótimo artigo sobre CEV no qual destaca pontos fundamentais do modelo de Vitor Nunes Leal. Vou pegar carona na análise de Limongi. Segundo ele, no modelo de Leal “há coordenação e alinhamento políticos dos líderes dos três níveis distintos de governo” (pg 141). O sistema está assentado na troca de benefícios entre os poderes local e federal. Nesse sentido, observa Limongi, é um compromisso que representa um “equilíbrio, no sentido técnico do termo” (pg 146) pois todos os agentes envolvidos saem ganhando e estaria em pior situação fora do equilíbrio. Nesse sistema, “o exercício de poder traz consigo retornos no plano eleitoral (...). Enquanto garantir a maioria dos votos locais, o chefe local se credencia a receber as benesses do oficialismo” (pg 146). Quanto mais pobre o município, mais sólido é esse esquema, dada a dependência em relação a verbas transferidas pelos governos estadual e federal.

Na minha dissertação de mestrado, encontrei evidências empíricas de que esse alinhamento entre o poder local e o poder federal, ainda hoje, é mais acentuado em municípios semelhantes a Mirangaba e Campo Formoso, pequenos e de baixo IDH. André Marenco dos Santos, em paper de 2013, também encontrou evidências do alinhamento entre o poder local e o federal. Segundo ele, “a hipótese de que alinhamento ao governo federal possa constituir importante capital político na competição eleitoral local foi confirmada (...) Alinhamento com o governo federal constitui o grande trunfo para candidatos locais”. Vale para os candidatos a prefeito e também a deputado federal, como provavelmente será o caso de Amauri Teixeira neste ano.

Para os pequenos agricultores de Mirangaba e Campo Formoso, contudo, nada disso importa. O que interessa é que receberam tratores novinhos. Quem poderá condená-los se votarem e fizerem campanha para o deputado petista?

Referências

LEAL, Victor Nunes (1978[1949]). Coronelismo, Enxada e Voto. São Paulo: Editora Alfa-Ômega.

LIMONGI, Fernando (2012). “Eleições e Democracia no Brasil: Victor Nunes Leal e a Transição de 1945”. Dados – Revista de Ciência Sociais, Rio de Janeiro, vol. 55, no. 1, 2012, pp 131-163.

SANTOS, André Marenco dos (2013). “Topografia do Brasil profundo: votos, cargos e alinhamentos nos municípios brasileiros”. Opinião Pública, Campinas, vol. 19, no. 1, 2013, p.1-20.

Escravos (difícil)

A escravidão humana, instituição abominável, marcou séculos de história econômica.

A análise aqui é econômica apenas, despida de ética e outras considerações. Modelo de agente-principal. Se não tive estômago, não leia mais.

Há evidência, ao menos para os EUA, de que a escravidão era um arranjo eficiente. E, ao menos nos EUA, os escravos tinham certa qualidade de vida (em termos de expectativa de vida e alimentação), melhor até do que os pobres brancos. Isso a gente aprendeu com o Fogel, prêmio Nobel.

Escravos eram ativos que custavam caro, então argumentar que os senhores de engenho utilizavam escravos porque eles não recebiam salários é errado. Mas então em que situações faz sentido a escravidão, sob o ponto de vista do produtor claro?

Ela faz sentido quando os incentivos negativos -- chicotadas -- e monitoramento são mais eficazes que os incentivos positivos. Ocorre que a tarefa nos plantations, apelidada de "gang labor", era muito simples e fácil de ser monitorada. Gang labor não exige do funcionário esforços não passíveis de serem observados: o cara foi mais molenga, o capataz rapidamente identifica isso -- monitorar é relativamente simples. E aí vem chicotada, um incentivo negativo.

Quando a tarefa exige esforços não observáveis, quando não se pode monitorar direito, a coisa não pode funcionar com base na chicotada; essa punição negativa não funciona para aumentar a produtividade. Como um capataz pode se certificar de que o desenvolvedor de software, ou o escritor de uma história, "se esforçou"?  Quando as tarefas crescem em complexidade, e monitorar fica difícil, é preciso outro conjunto de incentivos. Se o trabalho nas "plantations" fosse menos mecânico, talvez não tivéssemos tido escravidão em massa como tivemos.

terça-feira, 18 de fevereiro de 2014

Como gastos públicos afetam a atividade econômica


Na semana passada Raphael Corbi, que está terminando doutorado na London Business School, apresentou um paper bem interessante na USP. O objetivo é estimar o multiplicador fiscal, isto é, o impacto de variações no gasto público sobre o PIB.

Ter dinheiro nos torna "de direita" ou "de esquerda"?


Por que alguém é "de direita" ou de "de esquerda"? Existem, essencialmente, duas explicações.

Uma é a de que essas preferências políticas emanam de nossos códigos morais internos -- nossas visões sobre "o que é certo e errado". A outra é a de que nossas preferências políticas são mero exercícios de puro auto-interesse os quais vestimos com uma retórica moral.

segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

Tratores petistas 2

No post “Tratores petistas 1” (ver aqui), reproduzi nota do boletim da bancada do PT cujo título é suficiente para resumir o conteúdo dela: Deputado Amauri entrega tratores em Mirangaba e Campo Formoso

Colhi algumas informações a respeito de Mirangaba e Campo Formoso, duas cidades do interior da Bahia. Elas se localizam na região do semiárido baiano no norte do estado. Populações de 16.279 e 66.616 habitantes, respectivamente. IDHs: 0,542 e 0,586, correspondentes às posições 5.295 e 4.501 entre os 5.569 municípios brasileiros, no ranking do índice em ordem decrescente.

domingo, 16 de fevereiro de 2014

Nelson Barbosa interview in the Big State

Cant really understand this guy.

He said in Brazil exchange rate depreciation boosts inflation and hinders growth. Well, for most shocks I can think of causing a depreciation, I fully agree with him. The problem, it seems, is that he doesnt agree with himself. Why? Because he was one of the mentors behind the forced 2012 depreciation movement!

sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

Namoro, Casamento e Divórcio: A Equação do Amor


O amor está entre as coisas mais importantes nas nossas vidas. Mais até do que o dinheiro. Pelo menos é isso que sugere de forma inequívoca o Google: a palavra “amor” aparece de duas a quatro vezes mais do que a palavra “dinheiro” dependendo do idioma. Até as epístolas bíblicas falam de sua importância: “sem amor nem todos os mistério nem toda a ciência valeriam alguma coisa”, diz Paulo em sua longa carta aos Coríntios.

quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

Casamento causa desigualdade de renda?


Casais tendem a se conhecer na escola ou no ambiente de trabalho. Isso faz com que marido e esposa tenham características semelhantes em termos de habilidade ou capital humano. Por exemplo, se duas pessoas começam um relacionamento na faculdade, elas terão educação de qualidade semelhante. Na literatura, esse fenômeno é conhecido como "assortative mating".

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

Política fiscal e inflação (difficile)

Pense num modelo novo-keynes moderno com rigidez e uma função objetivo do governo quadrática. Algo como Woodford and Benigno (2004), mas ponha uma taxação distorciva ao invés de lump-sum.

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

Tratores petistas

Topei com essa nota um dia desses e logo percebi que merecia atenção. Vai render mais de um post.

Sucesso: sorte ou esforço?


Dois fatores podem explicar o sucesso de uma pessoa: esforço e sorte. Políticas redistributivas fazem sentido quando o fator sorte é importante. Por exemplo, antes de nascer, a pessoa não tem certeza se terminará em uma família rica ou pobre. Ao redistribuir renda ex-post, o governo compensa em parte esse risco inicial. Em outras palavras, esse arranjo funciona como um seguro ex-ante.

domingo, 9 de fevereiro de 2014

Incentivos para leitura nos presídios


Vez ou outra aparece alguém na administração pública que parece entender aquele que é provavelmente um dos mais importantes pilares da economia, a saber: as pessoas respondem a incentivos... 

Abaixo, dois exemplos de ressocialização pela leitura:

"Para reduzir a pena, presos da Paraíba leem um livro por mês"

"Presos do Paraná reduzem pena com leitura de clássicos da literatura"

sábado, 8 de fevereiro de 2014

Kapital

Razão capital renda era 600% na Belle Epoque, cai pra 300% no entre guerras e agora está na casa dos 500% de novo.

O que explica o declinio forte entre 1913 e 1950: destruição pega pouco; a perda de ativos nas ex-colonias explica bastante, assim como a baixa poupança no período (aí o capital deprecia e não é reposto). Tem também o controle de preços sobre imóveis, mas não explica muito.

quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014

1 milhão para quem disser o que o governo faz com nossos impostos


Nada pode dar uma ideia mais precisa do quão institucionalmente primitivo e muito pouco republicano o Brasil é do que a completa e total falta de transparência no orçamento da União. Para onde vai o dinheiro que as esferas do governo arrecadam? Que se gasta um monte com previdência social e saúde, isso nocionalmente se sabe. Mas qual é exatamente o pedacinho de cada R$ 1,00 arrecadado pela união gasto com saúde, educação, segurança, seguridade social, transporte, serviço da dívida etc e etc?

Com a ajuda do Mr. Google, consegue-se em menos de 60 segundos achar dados sobre uso e fonte das receitas tributárias dos governos, por exemplo, dos EUA, do Canadá, do Reino Unido e da Austrália (ainda que oficioso, há também entradas na wikipedia para o orçamento desses países). E não estou falando de planilhas com centenas de colunas e linhas cheias de números e siglas pobremente documentadas. Estou falando de gráficos e tabelas bem apresentados que conseguem, num bater de olhos, dar uma boa ideia da onde vem o dinheiro que o governo arrecada e com o que ele gasta. Duvida? Veja por você mesmo nos links no nome de cada país acima.

O abismo em matéria de transparência e riqueza de dados entre esses países "anglo-saxões" e o Brasil é tão gigantesco que chega a ser deprimente -- afinal, são favas contadas que no horizonte de vida de todos nós nunca vamos ver o Brasil com algo sequer próximo do nível de organização institucional desses lugares. Meu consolo nessas horas é pensar que eu podia ter nascido em Cuba ou na República Democrática do Congo...(no offense)

Enquanto isso, em Gotham City...
Recomendo a distinta leitora que procure encontrar um gráfico "de pizza" desses para o Brasil. Desses que mostram para onde vai cada pedacinho de cada R$ 1,00 arrecadado pelo governo. Dou um milhão se você encontrar algo parecido em um site oficial (pode ser até desatualizada).


Claro que as coisas não são tão ruins assim. Os dados pra montar uma dessas estão todos lá enterrados nas profundezas da página do "Portal do Orçamento" ou em um dos trezentos anexos da seção de orçamento do site do Ministério do Planejamento. Boa sorte tentando fazer isso.

Ultraje
Isso sim é um ultraje: que uma tabela sumária com dados tão básicos e importantes como esses não seja regularmente compilada e esteja facilmente disponível para qualquer um ver em pelo menos um dos websites governamentais. Com tamanho obscurantismo orçamentário, não é de estranhar a total e completa "várzea" no uso do dinheiro do taxpayer brasileiro (contribuinte é o ca#@%^*!)*...

* Caramba

China e Geopolítica


A ascensão da China à nova potência mundial tem transformado o panorama geopolítico. A seguir uma cadeia de ações e reações no jogo pelo poder militar e controle energético durante a próxima década.

1) A economia chinesa se tornou a segunda maior do mundo. Nos próximos anos ela continuará convergindo e eventualmente atingirá o tamanho da economia americana. Nada mais natural, a China vai querer exercer poder político condizente com sua força econômica. Devido à proximidade geográfica, a primeira região desejável como zona de influência é o Sudeste Asiático. A discórdia sobre a posse japonesa das duas pequenas ilhas e a recente criação da zona de defesa aérea são exemplos das intenções chinesas.

2) Como reação aos avanços chineses, os países do sudeste asiático pedem mais presença militar americana na sua região. Contudo, para manter sua superioridade e consequente poderio, os EUA têm de deslocar recursos que atualmente se encontram no Oriente Médio. Foi-se o tempo em que a quantidade de armamentos convencionais e recursos financeiros eram suficientes para lutar várias guerras. Além disso, a revolução do gás de xisto americana em muito diminuiu sua dependência energética. Sendo assim, para os EUA, tornou-se conveniente chegar a algum acordo no Oriente médio, que permita sua gradual saída. O recente acordo nuclear com Irã deve ser visto como consequência dessa motivação.

3) Com o fim das sanções comerciais o Irã voltará a se estabilizar sua economia, e tornar-se mais estável politicamente. O efeito disso sobre a oferta de petróleo é pouco importante, já que o Irã tem produzido e vendido praticamente toda sua capacidade. Por outro lado, a possibilidade de que as gigantescas reservas de gás natural iranianas possam finalmente ser exploradas é um sonho europeu. Com a construção de uma tubulação através da Turquia, a Europa poderia finalmente se ver livre das intempéries da Rússia, atualmente seu primordial fornecedor de energia. Talvez o único país europeu que continue a diplomaticamente aturar os abusos do Governo russo seja a França, que com matriz energética predominante nuclear, não tem tanto a ganhar com o gás iraniano.

4) Outra consequência da recuperação do Irã é a oferta de petróleo originária do Iraque. O Governo xiita iraniano teria todos os incentivos a ajudar a atual liderança xiita iraquiana a se estabilizar no poder, e também organizar sua economia. Se isso vier a acontecer, o Iraque poderá passar a produzir imensa quantidade de petróleo, e com isso atrapalhar o controle de volume e preços dessa commodity, atualmente realizado pela Arábia Saudita.

5) As constantes críticas e ameaças de Israel ao reerguimento do Irã não devem preocupar. Já passou o tempo em que um bombardeio israelense era alternativa efetiva contra o desenvolvimento nuclear iraniano. Por outro lado, há riscos significativos de confrontos militares no Iraque. Para evitar a soberania xiita e a produção de petróleo iraquiano, o Governo sunita da Arábia Saudita tem todos os incentivos para financiar os militantes (também sunitas) no Iraque. Este país será o principal palco para o teatro geopolítico durante o próximo ano, com possível eclosão de guerra civil e total descontrole político.

A convite do Antoninho

Vou colocar posts de conjuntura pura no:

http://jabuticabonomics.blogspot.com.br/

Aqui no blog do meu mestre X ficam os textos mais importantes, e abrangendo um público mais amplo.

Acho que essa especialização ajuda a separar o trigo do trigo, ou o joio do joio talvez.

Ultraje contra patrimônio nacional

Ocorreu hoje no Valor.
Um diretor do BNDE ( eh bom nao por o S para lembrar que o banco nao eh nada social) começou seu texto em defesa do BNDES citando Rosa, Grande Sertões, o mais importante livro já escrito no Brasil. Entristeceu. Rosa de fato amava o homem simples e capturou como ninguém a sua voz. O BNDE eh o inimigo do homem simples, tira-lhe dinheiro para dar aos ricos.

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

Pergunta para o neoclássico chapa-branca ad hominem

Suponha U(i)=U(c(i), G)

c/ G = (1-corrupção){soma [tau.w(i)] }

e

c(i) =(1-tau).w(i)

w é dotação

a estática comparativa vem do parâmetro "corrupção", sei lá, pensa que as leis ficaram mais frouxas de repente, ou que descobriram petróleo e com petróleo é mais fácil de roubar.

terça-feira, 4 de fevereiro de 2014

O teorema de Arrow


Motivado pela discussão "cientistas políticos e economistas" ocorrida há um tempo neste blog, vou escrever um pouco sobre o teorema de Arrow, fundamental em economia e em ciência política. Ele é o principal resultado na teoria da escolha social. Nesse sentido, assemelha-se ao teorema de existência de equilíbrio de Nash, pedra fundamental da teoria dos jogos. Mais especificamente, vou indicar algumas referências sobre formas possíveis de demonstrar o teorema.

O que é um economista decente de esquerda?


Parece uma contradição em termos, mas não é.

Quem faz conta, escreve modelo, pensa em modelo de equilíbrio geral, entende que estática comparativa não pode ser feita mexendo em variável endógena, entende a ideia de identificação empírica e estudou micro de modo decente preenche os requisitos do que eu chamo de  "economista decente".

Qual o efeito das prisões sobre a bandidagem?


A Secretaria Nacional de Segurança Pública (Senasp) divulgou alguns meses atrás seu último anuário com dados sobre criminalidade no país no ano de 2012. Chama a atenção o número de mortes: cerca de 50 mil. Em termos absolutos esse número de mortes é mais do que a média anual de mortes registradas nas guerras da Síria, do Afeganistão e do Iraque.

Ser bonito reduz a chance de ser criminoso?


No artigo "Ugly Criminals", publicado na Review of Economics and Statistics, os economistas Naci Mocan (Louisiana State University, NBER) e Erdal Tekin (Georgia State University, NBER) mostram evidência de que beleza (ou a ausência dela), através de seu efeito na formação de capital de humano, afeta a propensão dos indivíduos de se envolverem em atividades criminosas: quanto mais bonito, menos propenso a se tornar um criminoso.

FHC, os bastidores da república e o jeitinho brasileiro


Foi com certo ceticismo que coloquei o livro de Fernando Henrique Cardoso, O Improvável Presidente do Brasil -- Recordações (Ed. Civilização Brasileira), no meio de uns livros que adquiri dia desses. Não que eu esperasse um livro estendendo aquela visão medonha de comércio internacional escondida na "Teoria da Dependência" pela qual ele é academicamente famoso -- o que justificaria meu receio. É que com tanta coisa mais "educativa", digamos, pra ser lida, esse tipo de leitura que mistura biografia com "fofoca" parece uma distração.

Mas o livro é uma surpreendente e interessante leitura que vale a pena.

Quanto vale um "Por favor"?




segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

Thomas Piketty

O livro dele sobre desigualdade, que sai em inglês daqui a pouco, é espetacular. História com teoria com dados. E discussões intuitivas. Como, por exemplo: por que a desigualdade despenca quando as taxas de crescimento são mais fortes? R: porque com rendas em ascensão, tudo que é herdado fica pequeno em comparação com as rendas crescentes ao longo do tempo e porque o trabalhos e tarefas novas significam que as conexões dos seus pais importam menos para seu sucesso. Fica mais igual o playing field.

sábado, 1 de fevereiro de 2014

jabuticabonomics.blogspot

Vou começar a postar coisas de mercado mais técnicas e cheias de jargão no jabuticabonomics.blogspot.
Vou manter aqui meus posts mais caprichados e de interesse mais amplo.
Espero que com isso consiga vender mais ainda posts, e fique ainda mais rico.
Mais uma ideia sem pé nem cabeça do Antoninho...