sexta-feira, 31 de janeiro de 2014

O problema do troco

Há algum tempo mencionei o problema do troco que vivenciamos no dia a dia, com lojas usando mercadorias (como balas) para suprir a falta de moedas (veja aqui). Recentemente descobri que isso não é exclusivo do Brasil.

No Egito, a empresa de telefonia Vodafone propôs uma solução inventiva para esse problema: cartões que dão direito a créditos de celular. Batizados com o nome de Fakka, esses cartões podem ser usados por lojistas como troco. 

Imagino que a liquidez disso seja alta (muita gente usa crédito para celular). Ou seja, esse negócio tem o potencial de se tornar moeda, ocupando em parte o espaço da moeda oficial. O vídeo abaixo explica como o esquema funciona:



Taubaté

The old lady told me today she is tired of these Mantega and Holland interviews. She believes the markets are too pessimistic about Brazil. But the only way Dilma can revert this feeling is to actually deliver something. Talk became too cheap, even in Taubaté.

Holland (not Hollande)

The secretary says no hindrances whatsoever for investments here in Brazil. It is in the Big State today. This however begs the question: why the heck there is no no-bndes investment taking place.

Guia de Etiqueta Aeroportuária para Brasileiros


Estive em Londres mês passado a convite da British Airways para elaborar um guia "behaviorista" para viajantes de avião. O guia de "boas maneiras" será traduzido em outros idiomas (baita campanha global de marketing da BA!). Ele será distribuído pela Infraero em breve nos aeroportos locais. Mas vou apresentá-lo aqui no blog em primeira mão. Vamos às regras!

quinta-feira, 30 de janeiro de 2014

Olheiras presidenciais


O ano começou a ficar complicado para a presidente Dilma. Mercado nervoso com os primeiros passos do aperto da política monetária americana, agências de risco com dedo no gatilho para rebaixar a nota do país, emergentes fazendo água, rolezinho, manifestação contra a Copa acompanhada de carro queimado, depredações e um baleado pela PM, partidos aliados disputando a cotovelados espaço no ministério, intromissões lulisticas no troca-troca ministerial, PT e PMDB se engalfinhando em vários estados, Congresso e sua eterna pauta bomba prestes a retomar as atividades.

Não tá dando nem para esticar um pouco as pernas em um bom hotel lisboeta e jantar sossegada em restaurante estrelado à beira do Tejo.

Assim não há pankake que resista. Imagina na eleição.

DM vulnerability to EM

Liked this picture (by BCA). Even though Japan is very closed, it is a lot more vulnerable than US.
Also like the idea of taking advantage of the EM mess to buy S&P500


Você roubaria se pudesse? O caso das máquinas de auto-pagamento



Circulou nos últimos dias no noticiário britânico a seguinte notícia: uma enquete com 2.500 pessoas revelou que 1 em cada 5 admitiam já ter praticado algum tipo de roubo quando utilizando as máquinas de "auto-pagamento" (self-checkout). Veja a matéria aqui. O prejuízo causado seria da ordem de 1.6 bilhões de libras esterlinas (uns R$ 6.5 bilhões). 

Para quem não conhece, essas máquinas de self-checkout funcionam assim: você escaneia seus produtos, coloca-os logo em seguida numa "área de sacola" (que é uma balança), finaliza a compra, seleciona método de pagamento, recebe recibo/troco e dá o fora. Essas máquinas tem várias vantagens: (1) elas aumentam a velocidade com que você faz suas compras (sobretudo em lugares onde os caixas tradicionais estão apinhados de gente em longas filas), (2) ocupam menos espaço e, ao dispensar empregados, (3) melhoram a margem de lucro dos supermercados (o que, dependendo do grau de concorrência no setor, abre potencial espaço para redução de preço final ao consumidor) e liberam mão-de-obra para atividades onde ela, espera-se, pode ser mais produtiva. 

O uso dessas máquinas de auto-pagamento está em crescimento vertiginoso, pelo menos na Inglaterra e nos EUA. Fala-se no setor em um crescimento de 8 a 10 por cento ao ano. É difícil entrar em um supermercado, farmácia, estação de trem/metrô/ônibus nesses lugares que não tenha um bom número dessas maquininhas. E a julgar pela expansão no uso dessas máquinas, um argumento de preferência revelada nos diz que a economia com folha salarial deve mais do que compensar, ao menos no agregado, as perdas causadas pelos furtos.

Enquanto isso, em Gotham City...
Obviamente isto soa como uma realidade distante do Brasil. Afinal, ainda existem um número considerável de postos de trabalho de eficiência econômica duvidosa -- cobradores de ônibus, porteiros de prédio, recepcionistas de porta de restaurante, frentistas de posto de combustível, caixa de supermercado, "chamador" de táxi de aeroporto, sem falar nos restaurantes/lojas com 500 funcionários para fazer a tarefa que 1/3 daria conta. A introdução desses "self-checkouts" no Brasil dificilmente vai acontecer antes de se fazerem completamente obsoletas esses postos de trabalho, devendo inclusive sofrer do mesmo tipo de oposição que a tentativa de acabar com esse tipo de emprego já sofreu (no caso do frentista, há inclusive barreiras legais).


Ladrões na margem
Mas o ponto interessante da matéria é menos a obsolescência do emprego de caixa de supermercado que a tecnologia de self-checkout causa (donde emana, me parece, a atitude cética e desconfiada das pessoas com o progresso tecnológico...como se o progresso tecnológico experimentado ao longo dos últimos 100 anos não tivesse feito a vida da vasta maioria das pessoas melhor) e mais o efeito dessa máquina nos números de roubos em supermercado e afins. Fica a dúvida: será que as máquinas, com suas brechas para a malandragem, estaria induzindo pessoas a cometerem pequenos furtos que de outro modo elas não cometeriam? Isto é, será que a oportunidade faz o ladrão? Talvez melhor ficar com a variação dessa frase proferida por Machado de Assis: "a ocasião faz o furto, o ladrão nasce feito".

quarta-feira, 29 de janeiro de 2014

Quanto Taylor Prega p Selic?

De acordo com Regra de Taylor,
Selic Correta = juro neutro + meta de inflação + 1,5*(inflação esperada – meta de inflação)
Eu propositadamente tirei a parte relativa a hiato do PIB, pois há muita discordância sobre o hiato.
Atualmente a inflação esperada é uns 6%.
Há dúvidas sobre juro neutro e meta.
Acho legal fazer dois casos
1)      Hipóteses Tombini: juro neutro = 4%, meta = 4,5% à Selic = 10,75%
2)      Minhas Hipóteses: juro neutro = 5%, meta = 5,5% à Selic = 11,25%

O mundo antes da Revolução Industrial


De acordo com diversas teorias modernas de crescimento econômico, o progresso tecnológico é fundamental para entender os ganhos sustentados de renda per capita no mundo pós Revolução Industrial. Basicamente, a expansão contínua da fronteira tecnológica permite que se produza mais com as mesmas quantidades de insumos, gerando assim uma trajetória de crescimento no produto (e, portanto, renda) por trabalhador. 

Mas como explicar o período anterior à Revolução Industrial, para o qual não temos evidência de crescimento sustentado na renda per capita (os casos de ganhos de padrão de vida são em geral isolados e temporários)? É difícil acreditar que não houve mudança tecnológica significativa nesse período, ainda que a uma taxa bem menor do que a dos dias atuais.

O modelo malthusiano (inspirado nas ideias de Thomas Malthus) oferece uma explicação para a estagnação verificada no período, mesmo na presença de avanços tecnológicos. Há três hipóteses fundamentais:

1. Trata-se de uma economia agrária, ou seja, terra é um insumo de produção importante. 

2. O estoque de terra é limitado. Por conta disso, quanto maior o número de trabalhadores, menor a produtividade do trabalho (há menos terra por indivíduo) e, portanto, menor a renda per capita. 

3. Uma melhora nas condições de vida (aumento na renda per capita) faz com que as pessoas desejem ter mais filhos.

Considere então uma melhora tecnológica. Para dadas quantidades de trabalho e terra, a economia é capaz de gerar mais produto, levando a um aumento temporário de renda per capita. As pessoas então decidem ter mais filhos, o que no futuro se traduz em um aumento na força de trabalho. Ao longo do tempo (por conta da limitação no estoque de terra), isso derruba a renda per capita, até que ela retorne ao seu patamar original. 

Ou seja, no longo prazo, o progresso técnico não leva a ganhos de padrão de vida, mas apenas a uma população maior.

O paper de Quamrul Ashraf e Oded Galor (AER 2011) avalia empiricamente as implicações do modelo malthusiano. Entretanto, ao invés de olhar para um mesmo país no tempo (como na discussão acima), eles utilizam uma cross-section de países. Nesse caso, o modelo prevê que locais com tecnologia mais avançada (ou com terra mais produtiva) deveriam ter maior densidade populacional, mas não renda per capita mais elevada.

Os resultados estão em linha com o mecanismo malthusiano. Com base em dados de população e renda per capita nos anos 1, 1000 e 1500, os autores acham uma correlação positiva entre produtividade da terra e densidade populacional. Mas a correlação entre renda per capita e produtividade da terra é nula (estatisticamente não significativa).

terça-feira, 28 de janeiro de 2014

Sex and Popularity


Los Hermanos

Não é brincadeira não essa Cristina K.

Na liberalização da compra de dólar como instrumento de poupança, só pode (oficialmente) 2000 por mês. Mas o mais impressionante da medida é que quem ganha pouco não pode comprar moeda estrangeira! Ou seja, o pobre argentino não pode se proteger da inflação cavalar comprando dólares, apenas os mais ricos podem.

Trata-se, de fato, de um autêntico governo bolivariano.

segunda-feira, 27 de janeiro de 2014

China 2.0 for Dummies


(mais um texto velho, culpa do antoninho)
A recente “Terceira Plenária do 18º congresso do Partido” marcou o lançamento do novo modelo de crescimento chinês. Em longo documento, seus lideres traçaram as diretrizes econômicas para os próximos dez anos. A última vez que isso ocorreu de forma tão radical foi em 1978, quando a China abriu-se ao mundo. Assim como da outra vez, é de se esperar que as transformações sejam lentas e graduais, mas profundas. Eis a lista dos principais pontos abordados:

1) Liberalização da taxa de juros. Soa estranho, mas é isso mesmo. Atualmente na China as taxas de juros são controladas, e mantidas em nível artificialmente baixo. Para evitar o problema da inflação, o Banco Central força os bancos a não emprestarem, restringindo o volume de crédito na marra. Claro que isso não funciona direito, e faz com que algumas empresas, as escolhidas, tenham fundos baratos, e acabem investindo demais. Com a mudança, esse problema diminuirá. E ainda por cima, com a subida das taxas de juros, as famílias terão melhores retornos sobre suas poupanças financeiras. Dessa forma, o crescimento chinês será mais balanceado: menos exportações e investimentos e mais consumo interno.

2) Liberalização dos fluxos de capital. Para um estrangeiro é atualmente é proibido investir na maioria dos ativos financeiros chineses. Da mesma forma, um chinês não pode livremente comprar ativos fora da China. Essa limitação permite ao governo manter a taxa de câmbio em patamar artificial, distorcendo as alocações produtivas. Para corrigir o problema, o plano é criar zonas de livre comércio, com propriedades similares às atualmente presentes em Hong Kong. Dentro dessas, o  Renminbi será plenamente conversível em Dólar. As empresas poderão ter contas em dólar e, simetricamente, os estrangeiros poderão comprar ações dessas empresas. Aos poucos, essas zonas irão ficar maiores e, eventualmente, englobarão todo o país.

3) Novo sistema de avaliação política. Atualmente a avaliação dos governantes das províncias é quase totalmente baseada no crescimento econômico. Isso faz com que eles tenham incentivos para investir em grandes obras, criar grandes empresas, poluir a vontade, ignorar o bem estar da população. No novo sistema, a avaliação conterá itens tais como a saúde e educação da população, o endividamento do estado, a destruição de recursos naturais, etc.

4) Liberdade de migração. No atual sistema de registro – conhecido como Hukou - os chineses não podem livremente largar o campo e ir para as cidades. Quando o fazem perdem direito a educação e seguridade social, além de receberem salários bem mais baixos, já que se tornam “ilegais”. A liberdade de migração levará a maiores salários e consumo, ajudando no rebalanceamento econômico.

5) Esvaziamento das Estatais. As poderosas estatais chinesas têm elevados lucros que não podem ser distribuídos, e acabam sendo mal investidos. É comum, por exemplo, que esses recursos acabem servindo para a compra de imóveis em cidades fantasmas, criando bolha imobiliária. Com as reformas, uma fatia elevada dos lucros das estatais será transferida para o Governo central. Esses recursos passarão a fundear o novo sistema de seguridade social, mais generoso e inclusivo.

6) Manutenção do sistema estatal como principal pilar econômico. Governo continuará controlando as atividades consideradas estratégicas, provendo bens e serviços através de suas empresas, decidindo o futuro dos projetos de infraestrutura. Seria demais imaginar que haveria grandes privatizações. Ainda assim, as diretrizes do Governo chinês parecem mais capitalistas que as do brasileiro...

Garantia estendida


As lojas no Brasil estão começando a oferecer a chamada garantia estendida.

Geralmente, na compra de eletrodomésticos, o consumidor tem garantia contra defeitos de fabricação por um ano. A garantida estendida adiciona um ou dois anos a esse prazo.

O vendedor da loja promete mundos e fundos, mas a garantia é bem limitada. Por exemplo, ela não garante troca ou reparo do produto em caso de descarga elétrica excessiva na rede, inundações e... defeito latente. Além disso, a soma das reparos não pode exceder a 100% do limite máximo de indenização.

Até aí, tudo bem, desde que o preço da garantia seja compatível com o que segura. Vejamos o preço. Para um celular moderno, a garantia estendida custa 11,37% do preço. Sei que o seguro não é justo, mas essa proporção não é muiiiito acima da taxa de sinistro?

Outra observação. O preço final da garantia embute IOF (6,58% do preço final ou 7,38% do prêmio líquido) e... encargos (!?) (4,32% do preço final ou 4,85% do prêmio).

A sacanagem não termina aí. Na verdade, o consumidor está comprando uma opção futura, pois a garantia estendida só vale após um ano da compra (e o vendedor diz que está vendendo um seguro de dois anos, eheheh). Depois de um ano da compra, o valor do produto comprado já perdeu, digamos, 30% do seu valor. O valor do prêmio já aumentou, digamos, 12%. Com isso, a proporção do preço final pago pela garantia e o valor do produto sobe 60%, passando a ser 18,20%.

Parabéns pela aquisição da garantia estendida. Você acaba de ser enganado(a), mas não é novidade, é?

Que posturas autoritárias definem os Ptistas?

Olhem o quadro abaixo por favor. Vejam se faz sentido: o Ptista típico é uma combinação de "O Elitista Arrogante", "Mais Humanitário que Você", "O Sonhador" e "Pequeno Tirano".


* Clique na figura para melhor visualização.
** A autoria do cartoon (originalmente em inglês) é de David Barker.

sexta-feira, 24 de janeiro de 2014

Crise Argentina sobre PIB Brasil

No gráfico o comportamento histórico das exportações e importações para a Argentina e a variação do PIB da dita cuja. Note que exportações apanham bem mais que importações. No olhômetro, baseado nas crises anteriores e novo nível, a atual/futura crise da Argentina vai implicar numa queda do saldo comercial brasileiro de 5 U$bi. O efeito sobre o PIB brasileiro é de -0,25%. Isso evidentemente não considera os efeitos pelo canal financeiro, que depende de quanto o mercado vai separar o joio (Argentina) do joio (Brasil).


quinta-feira, 23 de janeiro de 2014

Miopia 2


O povo - o de São Paulo pelo menos - decretou. Míopes são os que enxergam algum traço de discriminação social na repressão aos rolezinhos. Segundo o Datafolha, 82% dos paulistanos são contra os rolezinhos. Ponto para o PSDB que assumiu o discurso da manutenção da ordem e da segurança. Sinal amarelo para o PT que se alinhou ao ponto de vista do apartheid social.

Como garantir sucesso na vida? A recompensa do autocontrole

Em 2008, Joanne K. Rowling, a bilionária novelista britânica autora da série Harry Potter, fez o prestigioso discurso de colação de grau da Universidade de Harvard – chamado de Commencement Speech (o vídeo está aqui). No meio do discurso, ela diz o seguinte (traduzido): 
“a vida é difícil e complicada e além do nosso total controle; a humildade em saber isto vai capacitar você a sobreviver suas vicissitudes”.
Legal. Mas há uma meia-verdade aí. De fato, há muito de aleatoriedade nos caminhos que nossa vida toma. De tal modo que a vida pode bem ser vista como uma grande loteria, na qual estaremos sempre encarando a possibilidade de ganhar ou perder. E se perderemos ou ganharemos vai mesmo sempre depender de eventos que estão fora do nosso controle.

Mas ao contrário do que sugere Dona Harry Potter, o destino das nossas vidas não é tão aleatório assim. É razoável acreditar que fazendo esforço (estudando, adquirindo habilidades, trabalhando pesado etc) seremos capazes, senão de impedir com absoluta certeza, ao menos de reduzir as chances de ter insucesso na vida. É aquela velha história: é preciso estar preparado para ter sorte.


Mais fácil dito do que feito 
Mas preparar-se para ter sucesso envolve trocas no tempo que nem todos estão preparados para fazer – o vulgo “sacrifício”. Frequentemente, não nos falta o intento mas falta a disciplina, a resiliência em tolerar adversidades. Não é novidade que ao menos parte desse problema de autocontrole emana da nossa dificuldade em administrar os conflitos que existem na vasta maioria de nós entre nossas emoções e nossa razão: sabemos que é importante ler aquele livro, fazer aquele curso, trabalhar mais naquilo...mas outra parte de nós não está muito interessada nisso: quer lazer, diversão.

Mas o que diabos tem isso a ver com economia? Bom, como as dificuldades de exercemos autocontrole podem ser vistas como expressões de um conflito entre razão e emoção, podemos pensar nisso como um “problema de agência” (conflito entre partes) cuja solução envolve desenharmos um contrato que dê os incentivos corretos para as partes envolvidas para agirem em nosso interesse.

Um modelo de 2 em 1
Vamos imaginar então que cada um de nós tem dois lados, ou como dizem os psicólogos, dois selves. Um é o self racional. É o lado “sério” de nós. É o lado que planeja as ações que acreditamos trarão o sucesso que queremos para a nossa vida. É o lado que diz que precisamos estudar ou trabalhar por 60 horas por semana e coisas do tipo. O outro self é o emocional. É o lado meio bon vivant de nós. É o lado que diz um fim de semana na praia ou uma sexta-feira mais curta em favor de umas horinhas de papo com os amigos no boteco é sempre preferível a qualquer alternativa desenhada pelo self racional. O “sucesso” do lado racional passa portanto em manter o lado emocional sob controle.

Mas não se engane: a despeito da natureza conflituosa dos nossos selves, ambos trabalham para nós. Nosso problema seria então o de desenhar um “contrato” que crie consistência entre as ações do lado racional e do lado emocional e maximize o nosso bem-estar – que vou descrever como o saldo de ganhos e perdas do “eu” emocional e do “eu” racional. Mas como fazer isso?
 

Setup
Vamos imaginar que o self racional age como se propusesse um contrato para o self emocional. Como agente e principal são a mesma pessoa, não é nenhuma grande arbitrariedade considerarmos que as ações do self emocional são observadas pelo self racional. É como se estívessemos tratando de um caso em que, como se diz na literatura econômica, há informação completa. Pois bem. Em ambiente com informação completa, esse contrato (chamado de “first best”) pode ser um no qual o self emocional fará um esforço de se manter “in check” e aumentar as chances do self racional implementar os planos que, se tudo der certo, trarão sucesso para o indivíduo “dono” dos selves.

Fazer esforço é necessário mas não suficiente para ter sucesso. Afinal de contas, como dito no começo do post, a vida não está completamente sob nosso controle. Para os fins desse modelinho que estou construindo, isso vai significar que o mundo estará em um de dois possíveis estados: um estado “bom” (1), onde os esforços de auto-controle do self emocional funcionam e um estado “ruim”(2) onde nosso auto-controle falha e o lado emocional, o bon vivant, domina nossas ações e, por suposição, sabotam os planos de sucesso desenhados pelo lado racional. O estado “bom” tem probabilidade q de ocorrer e o estado “ruim” tem probabilidade (1-q) de ocorrer. A segunda e terceira coluna da tabela abaixo descreve os ganhos (G) de cada self em cada estado possível do mundo. Os ganhos do indivíduos são apenas a soma dos ganhos dos selves – o que captura a ideia de que, na medida do possível, o indivíduo deve satisfazer a ambos.



O que droga são essas letras?
p é o “preço” que o self racional “vende” o contrato de auto-controle para o self emocional – entrando portanto com um sinal negativo na conta do self emocional. Mas o self emocional terá que ser recompensando para aceitar esse contrato de autocontrole. Essa compensação seria o x. O g é o ganho do self racional quando o autocontrole funciona. O l é a perda que ambos os selves encararão pela falha do auto-controle. O l^E  é o bônus emocional experimentado pelo self emocional quando o autocontrole falha – a contrapartida prazerosa que frequentemente está envolvida com a perda de auto-controle. O e é o esforço psicológico do self emocional de conter seus impulsos.

Como deve ser esse contrato? Solução
Aceitando minhas suposições, o problema agora resume-se ao seguinte: o self racional precisa definir o nível de esforço do self emocional, o “preço” e o prêmio oferecido ao self emocional para aceitar o pacto de fazer um esforço se manter “sob controle” (estado “bom”). Eu vou então definir o problema do self racional como sendo o de maximizar a utilidade esperada do indivíduo – que nada mais é do que a média ponderada do valor subjetivo dos ganhos em cada estado do mundo, onde os pesos são as probabilidades de ocorrência de cada estado – condicional à satisfação das restrições de participação do self emocional e de si mesmo. No caso, o valor esperado dos ganhos do contrato tanto para o self racional quanto para o self emocional devem ser ao menos tão bom quanto quanto o nível de utilidade alcançável na ausência desse contrato.

Oh loco meu! Quem é "agente" e quem é "principal" aqui?
Uma observação para o leitor familiarizado com um pouco de economia. O problema aqui é similar ao de desenho de contrato ótimo com risco moral e informação completa, com um tratamento admitidamente não-convencional de quem é agente e principal: pois que aqui temos um “principal” (indivíduo inteiro), um “principal-agente” (self racional) e um agente (self emocional). Uma montagem diferente do problema deve quase certamente gerar uma solução diferente da que obtive. Mas a motivação do post, como quase sempre nesse blog, é de ilustrar o uso de economia para problemas cotidianos e, com sorte, “get the discussion going”.

Tá; mas qual o resultado?
Aceitando-se a forma como montei o problema de maximização do self racional e as restrições que devem ser satisfeitas, é possível usar certos métodos matemáticos (Lagrangianos) para resolver o problema do self racional. 

Vou poupá-lo da sopa de letras e macumbas algébricas envolvidas – que encheram um trio de páginas – e vou direto ao resultado principal, qual seja: o de que o “contrato” ótimo que deixa o indivíduo e seus selves satisfeitos é um em que o prêmio x oferecido ao self emocional, no estado de sucesso, pelo esforço de auto-controle deve ser igual à ao custo do “contrato” para o self emocional, p, mais a metade da soma de g, o ganho do self racional quando o auto-controle funciona (estado “bom”) com e, o esforço psicológico do self emocional.

E daí meu bem? 
Esse resultado principal tem uma implicação prática interessante: para contar com a colaboração do self emocional na implementação das ações de sacrifício que aumentarão nossa chance de sermos bem-sucedidos, o self racional precisa oferecer uma compensação maior do que o preço p do contrato pago pelo self-emocional. Isso pode ser visto como uma justificativa para a ideia de que qualquer esforço de autocontrole necessário para desempenharmos certa tarefa deve ser recompensada com um belo agrado para nós mesmos. Não deixa de ser uma bela ilustração de como os incentivos importam.


É verdade que mesmo nesse modelo, esforço de autocontrole é importante mas não garante necessariamente sucesso – afinal, como ilustra a carreira da autora de Harry Potter, o sucesso nas nossas vidas é mais aleatório do que desejamos admitir. Mas, como diz um provérbio americano e ilustra a vida de muitos, uma coisa é fato: sucesso é uma escada que não se sobe com as mãos no bolso…

Vampiros



Incomodam-me deveras as modinhas. Por exemplo, a "saga" Crepúsculo lembrou-nos da existência de vampiros, como se isso fosse grande novidade. Bram Stoker escreveu seu livro em 1897, alertando-nos para a questão. Mas, a mencionada "saga" trouxe seriados relacionados ao tema ad nauseam.

Essa modinha, entretanto, é objeto de estudo dos economistas há longo tempo. Há artigos sérios sobre o assunto desde 1980. A preocupação dos economistas, creio, é com o desaparecimento da raça humana. Imagino que os marxistas iam ficar loucos se não se pudesse mais extrair mais-valia absoluta ou relativa do trabalhador.

Em um artigo de Snower (1982), publicado no Journal of Political Economy, constamos a importância do assunto. Ele escreve: Although human beings have endured the recurring ravages of vampires for centuries, scarcely any attempts have been made to analyze the macroeconomic implications of this problem and to devise socially optimal policy responses. Despite its increasing incidence of vampire epidemics in recent years (in Transylvania, Hollywood, and elsewhere), vampirism remains a thoroughly neglected topic in the theory of macroeconomic policy

Mais tarde, uns matemáticos, percebendo a importância do assunto, se aventuraram a escrever sobre o tema. O primeiro artigo, de Hartl e Mehlmann saiu em 1983 no Applied Mathematical Modelling. Esse autores melhoraram o trabalho 9 anos depois, publicando um artigo no Journal of Optimization Theory and Applications intitulado Cycles of Fear: Periodic bloodsucking rates of vampires. Particularmente, gosto do trecho que começa a descrever o modelo: 

Consider the Lotka-Volterra system
v(t)' = -av(t-1) + dv(t)h(t), (1)
h(t)' =  nh(t)     - dv(t)h(t); (2)
here, h is the stock of humans in an isolated Transylvanian community; v is the number of vampires; a is the death rate of vampires due to contact with sunlight, crucifixes, garlic, and vampire hunters; n is the growth rate of the human population; d is the contact coefficient.

Mais seriedade com esse tema, por favor.

quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

someone´s debt = someone else´s asset

boy, this is surely true

but then if surprise inflation reduces A´s real debt, A gains but B loses.

how can that lead to higher investment, higher consumption then?

it can because people are not equal: some are credit-constrained, whereas others are not, and some have better real investment opportunities at hand than others.

if you can get those constrained entrepreneurial guys some relief, the economy may start growing again

i talked to paul k these days and we agreed this is of the utmost importance when it comes to europe

ps. the rumours that my real name is Fernando are false, and the rumours that my name is Marcio are also false

Um epsilon


Tem dias que estamos meio estranhos. Eu tenho. Hoje, ao passar por esse posto de gasolina, vi essa placa e fiquei profundamente irritado. Entrei no posto, pedi 1 litro de álcool, paguei com uma nota de R$ 2,00 e pedi o troco. Caos. Depois de uma reunião de frentistas, veio o gerente e me deu 1 centavo.

Duas dúvidas:

(i) isso pode legalmente?

(ii) se eu fosse pagar com cartão, como o computador do posto faria a conta? arredondaria para cima? (na maquininha de cartão, obviamente, só vai até centavo.)

Esses caras estão levando a coisa do "se eu reduzir um epsilon, eu ganho todo o mercado" muito a sério.


segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

Miopias


FFLCH e mercado financeiro, dois mundos distantes. Por razões profissionais e acadêmicas, circulo por ambos. Para ilustrar o abismo entre eles, lembro-me de uma ocasião, em dia de mercado tenso com a tumultuada situação política da Grécia e o futuro do Euro, no qual deixei às pressas o trabalho para ir à FFLCH e me deparei com uma assembleia estudantil – acho que do pessoal das Letras. O orador, exaltado, falava justamente da situação grega. Animado, via a confusão no país mediterrâneo como prenúncio da grande crise do capitalismo global. Claro, o exemplo é extremo. Nem todo mundo da FFLCH deseja o fim do capitalismo ou acha que esse é um evento possível. Mas o fefelechiano mediano está bem à esquerda do mercadista mediano.

A convivência com esses dois mundos me facilita o acesso a visões mais à esquerda e mais à direta da realidade brasileira e, creio, me permite perceber certas miopias que ambas carregam. 

Cito duas que considero das mais agudas. Muita gente da FFLCH não percebe que a grande maioria do povão quer mesmo é se integrar ao mercado de consumo. Ou se percebe, encara isso de forma depreciativa, decorrente da falta de consciência política dos menos favorecidos.

Já o pessoal do mercado financeiro, em geral, ignora o fato – e as consequências políticas e econômicas decorrentes – de o Brasil ser um país de enorme desigualdade social no qual ainda vive um contingente expressivo de miseráveis ou quase miseráveis.

Tome-se como exemplo a discussão a respeito dos rolezinhos. É difícil atribuir ao fenômeno algum conteúdo contestatório à ordem capitalista, como se esforçam alguns à esquerda, quando o que a molecada deseja de fato é ficar com umas mina e uns mano e comprar um sanduiche no McDonald´s. Por outro lado, nega o óbvio quem desconhece que os rolezinhos somente despertaram tanta atenção – e pavor em alguns segmentos – porque aglutinam na sua maioria jovens pobres e da classe média baixa. Nesse sentido, são sim expressão da desigualdade social que marca o Brasil.

sexta-feira, 17 de janeiro de 2014

Pela volta dos militares

Sexta à tarde é dia de dar uma olhada no que tem saído de novo por aí. Achei este texto sobre CEOs com bagagem militar.

Pelo visto, empresas como Wal Mart e General Electric têm adotado programas para selecionar pessoas que serviram no Iraque e no Afeganistão.

Buscam em militares atributos como dedicação, ética, autossacrifício e capacidade de tomar decisões em circunstâncias estressantes. 

Naturalmente, correm o risco de trazer indivíduos agressivos, autoritários, demasiadamente confiantes e propensos ao risco.

Para desempatar, os autores analisaram uma base de dados de 4013 executivos, 2402 firmas e 22044 anos de observações, incluindo informações biográficas, detalhes do serviço militar, bagagem educacional e características das firmas.

A evidência mostra que empresas comandadas por CEOs com formação militar tendem a ser mais conservadoras e têm desempenho melhor em momentos de crise.

A meu ver, no entanto, o resultado mais interessante é o que trata de ética. 

A chance de um executivo com formação militar se envolver em alguma maracutaia é significativamente menor do que a de um “CEO civil”. 

Contrate um CEO militar e a probabilidade de mutreta se reduz em 70%. Mais do que isso: se você quer profissionalizar sua empresa e valoriza a ética, prefira um CEO militar a um civil com MBA.

É difícil esgotar convincentemente questões de causalidade em exercícios desse tipo. Os autores procuram controlar os efeitos, mas, naturalmente, são cautelosos com as conclusões.

Não se trata evidentemente de dizer que não há bandido militar e que quem não é militar é bandido.

Agora, olhando a história do Brasil desde 1900 à luz dessa evidência – e das lições do penúltimo post do Maurão – parece que uma solução eficiente para grande parte dos males atuais (da roubalheira ao rolézinho) seria eleger democraticamente governantes militares, não?

Vampire Economics

Paul Zak (a.k.a. Dr. Love) esteve no Brasil recentemente. Sua passagem teve boa repercussão na mídia local. A Globonews fez uma entrevista longa e a Veja publicou uma matéria (veja aqui e aqui). 

Ele tem formação em Economia (PhD UPenn) e estuda um negócio chamado "Neuroeconomia", que eu nunca tinha ouvido falar antes. Fiz uma busca na internet e encontrei um TED Talk, no qual Zak explica sua pesquisa (abaixo). Na minha opinião isso não é Economia (parece mais com Biologia). Mas achei bem interessante.



Em suma, Zak encontrou uma molécula (oxitocina) produzida pelo organismo humano, a qual está associada a moralidade e cooperação entre pessoas. Mais que isso: seus achados sugerem que essa molécula causa comportamento moral.

Há evidência de que, em países muito pobres, as pessoas não confiam umas nas outras. Essa falta de confiança dificulta trocas e a celebração de contratos de longo prazo, tendo repercussões negativas sobre produtividade agregada e desenvolvimento econômico.

A recomendação de política seria então: fazer com que as pessoas tomem oxitocina?

quinta-feira, 16 de janeiro de 2014

Corruptos natos


Rema Hanna e Shing-Yi Wang têm um novo paper, no qual encontram evidência de que indivíduos mais desonestos possuem uma propensão maior a preferirem carreiras no setor público.

O exercício mais interessante do paper é o seguinte: as autoras submetem um conjunto de universitários na Índia a um experimento, em que cada pessoa joga 42 vezes um dado de seis faces. Quanto maior a pontuação do participante (i.e., a soma dos 42 números sorteados), maior seu ganho monetário. O ponto principal é que o pagamento baseia-se nos resultados reportados pelo próprio indivíduo (ele não mostra o dado aos responsáveis pelo experimento). Ou seja, ele pode mentir para inflar seus ganhos.

As autoras não observam se a pessoa está trapaceando ou não. Mas se a pontuação reportada é improvável (indicando uma quantidade muito grande de números elevados sorteados), dá para inferir que o cara está mentindo com alta probabilidade. A pesquisa envolveu ainda a aplicação de questionários junto aos envolvidos para captar, entre outras coisas, as preferências com relação a diferentes empregos no futuro.

Os resultados indicam que a corrupção é generalizada entre os indivíduos amostrados: a mediana das pontuações reportadas corresponde ao percentil 95 da distribuição teórica (na qual se atribui probabilidade 1/6 a cada face do dado, e independência entre os 42 lançamentos). Mais importante, os indivíduos mais desonestos tendem a preferir o setor público: quanto maior a pontuação reportada, maior a probabilidade do indivíduo revelar propensão a fazer carreira no governo.

Link para o paper aqui.

Previsões para 2016 ...

... deu no Financial Times.

Brasil vira Argentina.

Argentina vira Venezuela.

Venezuela vira Zimbabwe.


COPOM

Os caras se assustaram com a inflação de dezembro, ficou meio chato os 5,9>5,84.

Ai deram um totó a mais, andaram de 50pontos. Nao acho que eles tenham mudado efetivamente de cabeça. Vão dar 25 na próxima e parar. Vão parar, ironicamente, onde começaram. O resultado final do experimento heterodoxo foi esse: nao funcionou. Inflação de 6 e crescimento de 2. Duro.

quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

terça-feira, 14 de janeiro de 2014

Demanda pela "Econométrica"

Esses dados eu peguei na base que R disponibiliza para domínio público.

"citeprice" é o preço do journal dividido pelas suas citações (controlando pra qualidade)

Ajuste uma regressão no olho, você perceberá que a Econométrica está sendo demandada pelas bibliotecas "menos do que deveria" dado seu preço!

Por que será, hein?


Ideologia e pragmatismo

“A ideologia está profundamente enraizada dentro do alto escalão”, disse Flavia Cattan-Naslausky do Royal Bank of Scotland (Estadão 07/01/2013) como corolário de uma análise pessimista a respeito do governo Dilma. É uma crítica frequente ao atual governo, especialmente comum entre profissionais ligados ao mercado financeiro.

O contraponto positivo a Dilma é o pragmatismo de Lula. Mas ninguém do mercado reclamava que havia excesso de ideologia no governo FHC quando ele levou adiante sua agenda de reformas pró-mercado – ou, para seus detratores, neoliberais. O problema real, portanto, não é que o governo Dilma está impregnado de ideologia. É que sua cartilha ideológica não é a do mercado financeiro. Se é para ter uma ideologia “errada”, melhor ser pragmático como Lula.

Ainda sobre pragmatismo e ideologia, é sempre um desafio para políticos e governantes encontrar a combinação adequada entre essas duas balizas para a ação e tomada de decisões. Os melhores políticos carregam alguma ideologia, alguma visão de mundo que orienta seu comportamento. Porém, sabem ser pragmáticos quando necessário.

Uma amostra do dilema aparece no filme chileno “No”. Ele trata do envolvimento de um jovem publicitário – René Saavedra, interpretado por Gael Garcia Bernal – na campanha do plebiscito de 1988 que definiu se Pinochet continuaria ou não no poder. O publicitário, cujo pai fora ligado ao partido comunista, foi convidado a assessorar a oposição chilena. Na primeira reunião exibiram para ele o primeiro esboço do filme publicitário elaborado pela velha guarda dos partidos socialista e comunista. O filme era soturno e dramático. Mostrava cenas em preto e branco da repressão conduzida pelos militares e fazia a denúncia das violências perpetradas pela ditadura de Pinochet.

René detestou. Ele dispunha de pesquisas segundo as quais a maioria dos chilenos favoráveis à saída de Pinochet temia votar contra o regime. Mostrar a violência da ditadura somente exacerbaria esse receio, percebeu o publicitário. Apresentou então filmes leves e alegres nos quais a opção a favor do “não” aparecia como algo moderno e jovem. Parecia propaganda de Coca-Cola. Alguns políticos não gostaram. Reclamaram que carecia de ideologia e mensagem política. Vocês querem ganhar o plebiscito ou firmar uma posição ideológica? Questionou o publicitário. A maioria, pragmaticamente, optou pela primeira opção. E o “no” venceu o plebiscito.

segunda-feira, 13 de janeiro de 2014

salário que apenas sobe (dificil)

faz algum sentido?

bom, experiência tem relação com produtividade, então aparentemente sim.

mas mesmo quando é patente que o trabalhador mais experiente não vai ficando mais produtivo, faz algum sentido?

sim. pense num modelo com assimetria de informação. o empregador não sabe bem se o recém-contratado é um picareta ou não. um oportunista ou não. com o passar dos anos, isso torna-se claro: um picareta acaba sendo pego com o tempo. nesse caso, faz sentido um contrato que o salario sobe com o tempo: nos primeiros anos o trabalhador ganha menos que sua produtividade; mas no longo prazo ele ganha mais. em média, salario = produtividade. esse contrato gera um "separating equilibrium": os picaretas optam por ficar de fora, pois o ganho inicial (antes do cara ser pego) é baixo; e os caras que se sabem não-picaretas, optam por ficar, pois entendem que vão colher os frutos lá na frente. se você adiciona ao modelo alguma inconsistência temporal do trabalhador, do tipo o cara tem dificuldade para poupar, aumenta até mesmo o bem-estar dele esse contrato aí.

Folha ontem

A Folha de ontem trouxe uma reportagem sobre a nova geração de economistas brasileiros (veja aqui e aqui). Cesg está na lista.

Parabéns, Cesg! E obrigado pela menção ao blog.

sábado, 11 de janeiro de 2014

2014

I have all figured out. It will be like this:

growth = 2%

inflation= 6%

Selic = 10.5%

FPS (the real one) = 1% of GDP

FX = 2.53 in december

C.A deficit = 2.9% (because of poor growth and FX depreciation)

Dilma is reelected, and then the same figures hold for 2015-2018 (on average)

See you all in 2019, if I manage to live until there

ps. I left Brookline, and am currently living in NY at 43th, I work in the financial sector, I do algo_trade in Yens

Charlie Harper on intra-household bargaining

A parte relevante começa em 2:00.



Sobre o tema de barganha dentro do domicílio em Economia, veja aqui.

sexta-feira, 10 de janeiro de 2014

Lattes

Hoje descobri que os posts do blog podem ser elencados no lattes em Produção Técnica/redes sociais, websites e blogs.

Já que isso vale, deveria ter um espaço para colocar a frequência de leitores.

Anatocismo

Anatocismo é um conceito jurídico que proíbe juros sobre juros em empréstimos e financiamentos.

Foi estabelecido no artigo 4.o do Decreto n.o 22.626/1933: “É proibido contar juros dos juros: esta proibição não compreende a acumulação de juros vencidos aos saldos líquidos em conta corrente de ano a ano.” O mesmo decreto limitava o teto dos juros também. Com a desculpa de evitar a usura, basicamente o decreto foi feito para proteger os cafeicultores endividados devido à crise de 1929.

A lei ainda vige, não obstante Súmulas do STF permitam a cobrança de juros sobre juros por instituições financeiras. Como o entendimento não é pacífico entre os magistrados, há inúmeras causas na justiça obrigando credores a cobrar juros simples. Além disso, para a Justiça, os juros em dívidas e indenizações devem ser calculados pela forma simples!

Entre os economistas, a divergência maior é se existe ou não anatocismo no Sistema de Amortização Francês (ou Price). Por esse sistema, as prestações a serem pagas são fixas. Acredito que essa divergência exista porque os economistas ainda não entenderam bem as hipóteses econômicas subjacentes a esse sistema de amortização. Minha tese de livre docência sugere uma forma original de mostrar que existe anatocismo no Sistema Francês e estende esse resultado para qualquer sistema de amortização cujos juros em um período sejam dados pelo saldo devedor do período anterior multiplicado pela taxa de juros. Portanto, o sistema de amortização constante - SAC -, comum para financiamentos imobiliários, também está sujeito ao anatocismo.

Falei sobre esse assunto na Folha Invest aqui e aqui. Nessas entrevistas discuto o efeito dessa lei sobre a taxa de juros cobrada pelos bancos e a inevitabilidade dessa cobrança. Basicamente, proibir a cobrança de juros sobre juros é equivalente a proibir a lei da gravidade.

PS: Apesar dos recursos que usa, quantidade de pessoas que envolve, valores bilionários que suscita e ineficiências difíceis de mensurar que provoca, o assunto é solenemente ignorado pela academia. Talvez apenas eu e o Prof. Clóvis de Faro (EPGE) tenhamos alguma preocupação.

quinta-feira, 9 de janeiro de 2014

Aversão ao risco e a crítica de Lucas


Esse paper, de uma turma boa, faz um experimento para mostrar que a aversão ao risco pode variar no tempo. No experimento, pessoas expostas a um filme de terror apresentam depois disso aversão ao risco bem maior.

Se aversão ao risco for de fato tão variante, acho que a literatura macro tem um problema para enfrentar. Esse parâmetro é normalmente tratado nos modelos macro como um "deep parameter": não é afetado pela policy. Mas e se isso não for verdade? Bom, nesse caso, os modelos atuais não sobreviveriam à crítrica de Lucas.

Vamos ver onde esse paper vai ser publicado. A depender, modelar a aversão ao risco pode passar a ser um bom tópico (preferências com hábito já fazem isso, mas a evidência do paper claramente nos obrigaria ir além).

Não vou explicar não, senhor Celso Toledo

No seu último post, o senhor toledo pediu para eu explicar decentemente os textos do André Lara e GHB Franco que saíram no Estadão e eu resumi em duas linhas. Ele sugere que assim eu não ajudo o Brasil, um país que segundo ele não tem direita.

Eu não vou atender o pedido do toledo, porque mesmo que a Ana Maria Braga entenda minha explicação dos textos, não vale a pena, eu acho. São textos para nossa elite intelectual, não são essenciais para o eleitor mediano.

Acho que o que nós precisamos é difundir o entendimento de conceitos mais básicos de economia, fazendo isso chegar ao ensino médio. Não me parece que a popularidade do populismo econômico seja apenas uma questão de termos um eleitor mediano pobre. Acho que precisamos entrar na batalha para divulgar os aspectos mais básicos (e importantes) da teoria econômica para o eleitor mediano. Esse é o esforço dos meus livros "Economia Sem Truques" e "Sob a Lupa do Economista", que o senhor toledo ganhou e NÃO leu.

quarta-feira, 8 de janeiro de 2014

Por que não existe direita no Brasil?


Discuti há pouco a questão com um colega, voltando de almoço com cliente em um shopping. Arriscamos algumas hipóteses, mas não chegamos a nada satisfatório.

Disse a ele que proporia a questão no blog para ver se surgiam ideias, seja dos ilustres professores, seja dos leitores.

Fiz a lição de casa. Perguntei ao Google.

A única coisa interessante que apareceu na primeira página de resultados foi uma reportagem da Veja de 2011 – “O Incrível Caso do País sem Direita”.

O tema de nossa conversa surgiu por duas razões:
1. o elevador do shopping tinha ascensorista;
2. o artigo do Clóvis Rossi sobre o surto de pessimismo com relação ao Brasil. Ambos tomamos conhecimento do besteirol por intermédio da incrível aceitação do argumento nas chamadas “mídias sociais”. Diversos amigos nossos "curtiram" a ideia de que o pessimismo é coisa da “classe privilegiada”.
O que isso tem a ver com a pergunta do título?

No Brasil, contratar um ascensorista é “gerar um emprego”. Isso é bom, ponto final. O fato de o trabalho ser improdutivo é mero detalhe. Não há chance de a questão ser debatida serenamente em um debate político. Aqui, poupar trabalho inútil é “destruir” empregos e coisa de quem lucra com a promoção da injustiça.

Este e outros mitos como, por exemplo, as falácias do Clóvis Rossi, “colam” porque batem em ouvidos que são acostumados ao discurso esquerdista mais superficial desde os primeiros anos de escola. Não há pedagogo que não seja marxista no Brasil.

Na matéria da Veja, um político do PSB diz que "oposição à direita é um erro grave porque você tem um país com contradições sociais gravíssimas” – como se a agenda à direita fosse sinônimo de promoção de injustiças.

Possivelmente o político fala a bobagem porque está convencido – não necessariamente por que é mal intencionado. É lógico que há vigaristas que se opõem ao “neoliberalismo e tudo que está aí” porque o discurso funciona em eleições e, uma vez no poder, é deitar e rolar (em sociedade com os pilantras do passado). Várias fortunas amealhadas recentemente tiveram essa origem.

Discordo do colega CESG quando ele diz que os artigos recentes do André Lara Resende e do Gustavo Franco chovem no molhado. O maior problema é que eles não atingem o público que deveriam atingir. Mas têm que ser escritos.

A salvação da lavoura em longo prazo seria investir na formação de pedagogos com noções básicas de economia.  Em curto prazo, o CESG precisa explicar os textos do André Lara Resende e do Gustavo Franco para a Ana Maria Braga – a única que teria capacidade e legitimidade para oferecer ao grande público um contraponto às barbaridades do Clóvis Rossi.

Os políticos também teriam. Mas são todos “de esquerda”.