terça-feira, 29 de julho de 2014

A Década Perdida


O Brasil melhorou ou piorou nesses últimos dez anos de governo petista? 

Embora seja um pergunta de óbvia relevância, as respostas a ela oferecidas na imprensa são quase que invariavelmente ruins. São ruins essencialmente por duas razões. Primeiro porque são feitas sob lupas ideológico-partidárias. E invariavelmente essas lupas focam apenas nas dimensões que favorecem um veredito apriorístico. Segundo porque mesmo quando politicamente neutras e lastreadas em dados, essas análises têm dificuldade em dar conta da multidimensionalidade desse tipo de avaliação e de estabelecer um contrafactual -- uma situação de referência de como estaria o Brasil na ausência da "intervenção" cujo efeito se quer analisar e contra a qual o Brasil sob o governo petista será julgado.

Um texto para discussão da PUC-RJ produzido pelos pesquisadores Vinicius Carrasco (PUC), João Manoel Pinho de Mello (Insper) e Isabela Duarte (PUC) procura construir esse contrafactual e, contra ele, avaliar o desempenho de uma série de variáveis sócio-econômicas do Brasil ao longo dos últimos dez anos de governo. O artigo pode ser lido aqui.

Método de controle sintético 
Simulando uma investigação experimental, o artigo trata a chegado do PT ao governo em 2002 como um "tratamento" e procura, usando o método do controle sintético*, construir um Brasil hipotético sem o PT que sirva de "condição de controle". Esse grupo de controle será formado por uma série de países emergentes e esse Brasil hipotético sem o PT (que seria o "Brasil sintético"), como proposto pelo método, será construído a partir de uma combinação convexa das variáveis relevantes dos países com maior similaridade ao Brasil (numa dada dimensão) antes da chegada do PT ao poder. A ideia aqui é que uma combinação de países oferece um contrafactual melhor do que um ou outro.

Conquanto esse tipo de inferência esteja, como qualquer outro método de inferência, sujeita a críticas (é possível argumentar, por exemplo, que as comparações produzidas podem ser sensíveis à extensão do período de pré-intervenção utilizado para eleger os candidatos do grupo de controle a partir do qual será construído o contrafactual sintético), essa é sem dúvida uma das avaliações mais rigorosas do governo petista que foram feitas.

Década perdida



Ao longo do artigo, os autores fazem uma avaliação comparativa de dezenas de variáveis macro e microeconômicas -- de crescimento econômico, passando por geração de energia elétrica, até segurança pública. Em várias dimensões, os resultados mostram que melhoramos, mas menos do que o melhor grupo de comparação. O trecho abaixo me parece resumir bem a mensagem do artigo:
Por que então o nítido aumento na sensação de bem‐estar, refletido em, entre outras coisas, na reeleição do presidente Lula em 2006 e na eleição da presidente Dilma em 2010? Porque os indicadores mostram que o país melhorou. O eleitor típico, mesmo que racional, talvez tenha dificuldade de avaliar o contrafactual. A década foi perdida no contrafactual e não no factual. Portanto, nossos resultados são perfeitamente compatíveis com o sucesso eleitoral do PT na década de 2000. Em suma, crescemos menos e assentamos bases mais frágeis para o futuro do que países similares. Nesse sentido, perdemos a década.

Luz para a "nova direita"

Talvez os autores desejem uma audiência mais acadêmica e qualificada para o texto que produziram. Mas tomo a liberdade de sugerir que o mesmo seja leitura obrigatória (também) das pessoas que, sob os mais diferentes rótulos (liberais, libertários, anarco-capitalistas, conservadores), mas unificados pelo sentimento anti-petista, andam panfletando ativamente contra o Partido dos Trabalhadores na internet.

Não que seja imerecido o "stick" que o PT recebe; nem também que não seja bem-vinda e desejável a promoção das ideias liberais de respeito às liberdades civis, de livre-mercado e de menor intervenção estatal na sociedade. Mas confesso que é um pouco deprimente ver essa bandeira -- forjada dentro de um movimento que defendia o uso da razão (iluminismo) -- ser carregada como uma arma anti-petista cuja munição não emana da análise da evidência empírica, mas simplesmente da repetição cega de mantras liberais -- quase que como uma espécie de culto que replica práticas comuns do movimento simétrico oposto que criticam. Se vai ser anti-esquerda por uma via liberal, que seja com lastro empírico. E os resultados do exercício acima oferecem munição empírica para quem deseja apontar as deficiências dos últimos dez anos de governo.

------------------------------------------------------
* Para quem se interessar pelo método de controle sintético, uma descrição dele pode ser encontrada aquiaqui. Informação sobre pacotes estatísticos que implementam o método pode ser visto aqui.

29 comentários:

  1. Por algum motivo o artigo abriu ilegível aqui, mais alguém passou por isso?

    ResponderExcluir
  2. Foi impetrado no TSE pedido para banimento deste blog.

    ResponderExcluir
  3. Olá Sergio,

    Bem interessante a iniciativa do artigo deles. Eu corri o olho e vou olhar com mais calma depois. No entanto, aparentemente, a China recebe um peso grande na maioria dos controles que eles elaboram. Acho a abordagem do controle sintético bem bacana, mas também acho que grande parte da escolha do grupo tem que ser justificada com base na retórica, mostrando que os grupos são realmente parecidos (como acontece quando os trabalhos usam variáveis instrumentais). Nesse sentido, acho bem questionável dar um peso para a China como eles deram. Sinceramente, gostaria de um placebo sem a China.
    Abs

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Achei legal também. É uma técnica bem decente para essas análises comparativas.

      Sobre os pesos, o pesquisador define o pool de candidatos a controle. A combinação convexa particular deles que é utilizada para criar o controle sintético é completamente data-driven.

      Sobre a China, de fato pode ser um exercício alternativo interessante. Mas por que a China de cerca de 14 anos atrás teria que ficar de fora desse grupo de controle? Iria "defeat" a proposta desse exercício "pseudo-experimental" se os controles fossem selecionados com base em similaridade pós-intervenção...

      Excluir
    2. Sim, talvez eu tenha me expressado mal, acho que o cuidado com a escolha desse pool é muito baseado na retórica.
      Bom, também acho que a estrutura institucional da China é algo bastante relevante para a comparação com qualquer outro país que tenha estrutura institucional democrática. Acho que ninguém gostaria que o PT, PSDB ou qualquer outro partido assumisse o poder que tem o Partido Comunista na China. Assim, colocar a China nesse pool e dar peso relevante para ela, a priori, não me parece adequado.


      Excluir
    3. Meus caros, só rapidamente. Dei uma olhada no artigo (muito bom) e eles já fazem isto. Além do controle sintético, eles utilizam alguns outros controles ad hoc (por exemplo, dando o mesmo peso para todos os países, utilizando a América Latina, etc) e os resultados não mudam. Ou seja, estes seriam bastante robustos.

      Excluir
  4. O governo FHC fez tanta cagada que fica dificil defendet tucano.

    ResponderExcluir
  5. Excelente. O ponto de partida de qualquer análise decente deve estar ancorada em evidências empíricas. Os defensores do liberalismo, pelo menos os mais evidentes, destacam-se pelo excesso de ad hominem e pela produção de frases de efeito. O sectarismo campeia dos dois lados.

    ResponderExcluir
  6. Muito legal a iniciativa desse trabalho. Nao o li, apenas passei o olho, mas senti falta de algumas coisas para tornar os resultados mais robustos.

    Por exemplo, por que nao considerar "efeitos placebo" e colocar o tratamento em outros anos anteriores, por exemplo 2000? Seria algo parecido com regression discontinuity.
    Vi que os autores consideraram outros efeitos placebo, impondo tratamento em outros paises, mas acho que mudar o ano do tratamento no brasil mesmo pode nos dar outras informacoes bacanas.

    Outra coisa: Essas diferencas sao estatisticamente significante? Muitas vezes me parece que as curvas estao bem proximas, nao sei se podemos inferrir se as curvas sao realmente "diferentes". Apesar da teoria asintotica nao esta (ainda) desenvolvida para o metodo de controle sintetico, da pra fazer a analise de placebo como Abadie et al (2010, JASA)

    Outra coisa interessante a ser feita seria comparar os resultados com controles sinteticos com os do panel data approach seguindo Hsiao, Ching, Wan (2012, J. of Applied Econometrics, http://onlinelibrary.wiley.com/doi/10.1002/jae.1230/abstract). Dai ja nao teria problema de inferencia nem nada.

    De qualquer maneira, bem legal a iniciativa de quantificar tudo isso. Temos que parabenizar os autores por iniciar um debate baseado em evidencias empiricas!

    ResponderExcluir
  7. O problema desse método é que os resultados são muito sensíveis as variáveis escolhidas para o controle. Dessa forma, talvez seja possível "encontrar" o resultado desejado incluindo ou excluindo variáveis.

    ResponderExcluir
  8. Mas nada garante que outros partidos fariam melhor. O contra factual é construida na base de outros paises e não na base de outros possíveis governantes brasileiros. Por isso, é difícil justificar o voto de um eleitor baseado neste artigo.

    ResponderExcluir
  9. Mas se a China é o país com o melhor desempenho, a conclusão seria de que precisamos de um governo mais à esquerda aqui? Economia de mercado com planejamento estatal e sem democracia?

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Você leu o artigo ou é zoação?

      Excluir
  10. Teria muita curiosidades de ver os resultados dos 10 anos anteriores ao PT. E para o período Getúlio Vargas.

    ResponderExcluir
  11. Eu não li (só passei o olho) e achei a iniciativa bastante válida... Só queria destacar dois pontos: (i) artigo muito mal escrito, cheio de erros de digitação... fica feio uma documento assim, parece que foi feito às pressas; (ii) se os resultados forem de fato robustos e cientificamente válidos, suponho que os autores enviarão para publicação, será que isso vai ocorrer?
    Mesmo com esses poréns, acho que vale muito para o debate.
    Abs

    ResponderExcluir
  12. Acho o método interessante, adoraria ouvi-lo numa mesa de bar. Mas numa boa: voces acreditam nestes resultados? Eu acho impossivel acreditar nisso, embora reconheça o mérito da tentativa.

    ResponderExcluir
  13. Meus amigos,

    Em teoria, a combinação convexa gerando um controle sintético é interessante. Na prática, a coisa muda um pouco de figura. Por mais que seja data driven, não é muito tranquilo digerir esse "mix ponderado de países" como um grupo de controle adequado.

    Além disso, não há como negar que há ideologia por trás do artigo. Queria ver o mesmo trabalho para a década anterior. Se a de 2003 a 2012 foi perdida, fico ansioso para saber o termo que eles utilizariam para o decênio anterior (década arrombada, talvez), quando até mesmo o factual foi ruim. Usar um contrafactual seria um nocaute clássico, a la Mike Tyson!

    Enfim, concordo com o colega acima sobre o exercício de fé que acaba sendo uma tentativa cietífica como essa.

    Abs
    Economista X

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Esse não é o X oficial, é? O X autêntico não manda abraço nem diria algo deste naipe: "...quando até mesmo o factual foi ruim. Usar um contrafactual seria um nocaute clássico, a la Mike Tyson!"

      Excluir
  14. Cada comentário tosco no sentido contrário ao artigo. Muitos fizeram boas observações, mas a maioria só "encheu o saco com coisa nenhuma". "'Ui ui, não acredito nisso' significa: não entendi nada, mas vim falar pq sei de tudo!"

    Vamos entender uma coisa: o "contra-factual" aqui não é como num psm: não é para avaliar o país "com e sem PT", mas como o país se saiu EM TERMOS de uma média de um grupo razoavelmente semelhante ao país. Então, a interpretação é parecida, SQN! A combinação convexa é o melhor que se pode fazer nestes casos e a comparação entre países é algo standard na literatura de crescimento econômico e correlatas. Então, concordo com o que foi dito: é uma técnica decente, ou, como se costuma dizer, "é o que dá pra fazer".

    O artigo não está perfeito, como observaram alguns, mas isso não quer dizer que os resultados sejam invalidados. Acredito que após rodarem por aí com ele, incorporarão muitas críticas e sugestões e chegarão a algo mais refinado.

    ResponderExcluir
  15. Escrevem João Manoel Pinho de Mello e Vinicius Carrasco, dois dos autores do artigo. Antes de mais nada queríamos dizer que adoramos o blog, que seguimos sempre com muito interesse. Parabéns ao que contribuem para o blog! Vamos postar em duas entradas porque violamos o litie de toques. Vocês devem ter percebido que estamos meio prolixos ultimamente.

    Agradecemos os comentários, sugestões, elogios e, por que não?, críticas.

    Tendo em mente o risco da interlocução online com anônimos, decidimos responde-los porque julgamos que, em sua maioria, são comentários legítimos, feitos por pessoas interessadas no artigo. Vamos leva-los a sério.

    Primeiro um esclarecimento para dirimir mal-entendidos, provavelmente pela leitura na diagonal, como vários comentaristas nesse espaço dizem que leram (entendemos, é um troço meio longo). A Turquia é o país que mais aparece com o Brasil em nossa análise. Não a China. Esta última aparece bastante, mas a Turquia aparece bem mais. Em particular, nossa resultado principal de PIB per capita atribui quase 60% de peso para a Turquia e nenhum peso para a China. Portanto, simplesmente não faz muito sentido o comentário – engraçado, admitimos – que deveríamos ter mais intervencionismo porque a China foi melhor. Diga-se de passagem, está fora do nosso escopo opinar sobre o porquê do Brasil ter ido relativamente mal.

    A razão pela qual o procedimento escolhe dar muito peso à Turquia é simples: ela emula bem tanto o nível como a trajetória do PIB per capita antes de 2003. Não sabemos se isso é bom ou ruim. Muita gente se incomoda com o fato de que não haver nenhum país latino-americano no resultado principal do PIB per capita. Há um preconceito – no sentido literal da palavra – de que nosso yardstick deveria ser a América Latina, talvez pela proximidade geográfica e cultural. Não tínhamos essa pré concepção. Por que devemos nos comparar com Chile e Colômbia, por exemplo, que são menos industrializados e mais abertos? Ou deveríamos nos comparar à Argentina, pelos laços comerciais? Ou ao México, por ser grande e mais industrializado? Não sabemos responder e, na verdade, o propósito do procedimento é não ter que responder. Achamos razoável a Turquia. Tem nível de renda parecido com o Brasil, é relativamente industrializada. Claro, sempre pode ser racionalização a posteriori.

    ResponderExcluir
  16. Três posts, na verdade.


    Alguém disse que “não é muito tranquilo digerir esse "mix ponderado de países" como um grupo de controle adequado.” Pelo nível de generalidade, a crítica normalmente não mereceria resposta (depois vamos falar um pouco mais sobre críticas gerais). Por isso fazemos o exercício de outras formas para o PIB per capita. Por exemplo, a média simples, para tentar dirimir o ceticismo daqueles que têm dificuldade de entender ou aceitar o procedimento. Fazemos também para o grupo de países latino-americanos, para forçar a comparação com a América Latina. Incluindo outros países de renda média-alta (além dos emergentes conforme definição do FMI). Fazemos o exercício incluindo os países de renda alta. A diferença entre o Brasil e os melhores grupos de comparação após 2002 sempre aparece e sempre é algo como 15% . Achamos que isso passa o sarrafo acadêmico normal para estudos com dados não experimentais. Mas, como alguém notou, escrutínio científico dirá quando submetermos o artigo, o que faremos caso não decidamos publicar como livro (o troço é meio longo para artigo).

    Houve acusação de ‘ideologismo’, que vamos preferir interpretar como crítica. Não vemos mérito algum nela. É perfeitamente razoável criticar o método, preferivelmente de forma específica. Mas, dado o método, apresentamos fatos. Em pouquíssimas ocasiões fazemos algum julgamento ou interpretação dos resultados, dizendo algo como “foi mal porque foi intervencionista”. Dizemos razoavelmente incontroversas. Exemplo: LRF assentou bases sólidas para a política fiscal; o balanço do setor bancário estava limpo em 2003; as reformas micro do 1o Lula foram importantes. Talvez o mais controverso seja nosso comentário sobre o efeito das políticas setoriais sobre o risco regulatório. Mas, “na boa”, para usar a expressão de alguém, é muito absurdo isso?

    Talvez o colega tenha confundido ‘ideologismo’ com partidarismo. Talvez sejam mesmo. Nestes tempos de demissão do analista do Santander resultados ruins para algum lado são partidários.

    Obrigados pela ideia dos placebos. Em tese é uma ótima ideia. No entanto, os placebos não são particularmente informativos neste caso, por duas razões. Primeira: escolhemos 2003 como tratamento mas o efeito de escolhas governamentais pode demorar. Logo, colocar placebo em datas posteriores não ajuda muito. Segunda: quase todos os anos anteriores têm alguma forma de “tratamento”: 1997 = Ásia, 1998 = Rússia, 1999 = desvalorização 2002 = Lula.

    Outra crítica é: o método é sensível ao que se inclui de controle. Todos os métodos não experimentais tendem a ser sensíveis ao que se inclui de controles. Principalmente os controles que importam. Por isso essa crítica, que não é tão geral como a anterior, ainda assim é pouco útil. Além disso, dois comentários. No nosso caso, o controle que mais importa é , em geral, a inclusão da variável de interesse nos outros países como previsor da variável de interesse no próprio país. Portanto, a crítica não é muito relevante na prática. Além disso, entre os vários exercícios de robustez para o PIB per capita, um deles envolve usar os dados da Penn World Table, que tem outros controles.

    Sobre década violada (preferimos ‘violada’ porque o outro termo não é muito adequado para um blog familiar de alto nível como este). Não é nosso objetivo avaliar o desempenho relativo do Brasil nos anos FHC. Mas fizemos: o Brasil andou em linha com o melhor grupo de comparação, talvez um pouquinho melhor. Tivemos que incluir os anos 1980 no pré-tratamento, o que fez com que a coisa que mais se pareça com o Brasil seja a América Latina. Por que? Não sabemos: talvez porque o efeito da crise da dívida seja algo tão forte que fez com o que só países latino-americanos consigam emular o Brasil nos anos 1980. Se quiserem ver os resultados, os anônimos que disseram que queriam ver o resultado podem nos pedir por email. Teremos prazer em compartilhar. Ah, identificando-se, é claro.

    ResponderExcluir
  17. Há a seguinte observação: “Enfim, concordo com o colega acima sobre o exercício de fé que acaba sendo uma tentativa científica como essa.” Novamente, apesar da generalidade, achamos esse um comentário justo. Na verdade, é justo para qualquer tipo de inferência causal com dados não experimentais. Na ausência de variação experimental (natural ou criada), é sempre preciso fazer hipóteses não testáveis de identificação, ou seja, é preciso de retórica, que é outra maneira de dizer fé. Portanto, a observação se aplica não só ao método do controle sintético ou ao nosso artigo, mas à agenda geral de investigação empírica com métodos não experimentais. Com esse nível de generalidade, a observação aplica à MQO, à IV, à diferenças-em-diferenças, aos métodos de matching e, no limite, mesmo aos desenhos em descontinuidade. Mais especificamente, pedimos que atentem para o link abaixo, contém um ótimo artigo de macro com dados não experimentais (há algum experimental?), escrito por alguns dos brilhantes colegas que contribuem para este excelente blog. Ele também é mais fé do que ciência, se formos julgá-lo com a mesma generalidade que o colega está a julgar nosso artigo. Achamos que, apesar das hipóteses de identificação, sempre não falseáveis, o excelente artigo abaixo é uma contribuição muito relevante para o conhecimento econômico.


    http://papers.ssrn.com/sol3/papers.cfm?abstract_id=1807452


    Por fim, o texto certamente pode melhorar. Pedimos perdão aos leitores e à flor do lácio. Tentaremos produzir algo mais decente brevemente. Mas o desleixo com a forma não se transfere para desleixo com o conteúdo.


    Novamente, obrigados pelos comentários.


    Vinicius Carrasco e João Manoel Pinho de Mello

    ResponderExcluir
  18. Vinicius, João,

    Em nome do blog e até dos que fizeram comentários (inclusive os que não fizeram mais do que expressar ceticismo sem maiores justificativas) agradeço pela consideração de vocês em prestar todos esses esclarecimentos e responder aos comentários. Obrigado.

    Sobre a existência de papers de macro com dados experimentais, recomendo dar uma olhada no texto abaixo do John Duffy onde ele dá (em pouco mais do que quatro páginas) um "overview" dos tópicos de macro que estão sendo estudados em laboratório e das questões metodológicas envolvidas nesse tipo de investigação (a principal sendo a questão da validade externa).

    http://www.pitt.edu/~jduffy/papers/expmacro2.pdf

    Para um survey mais amplo da pesquisa experimental em macro, por favor ver:

    http://www.pitt.edu/~jduffy/papers/heeaug12.pdf

    Aproveito para apontar também que já faz um tempo que a Barcelona Graduate School of Economics organiza um workshop sobre o tema. Detalhes do último que ocorreu (Junho deste ano), ver o link abaixo:

    http://www.barcelonagse.eu/summer-forum-theoretical-experimental-macroeconomics.html

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Caro Sergio,

      Somos nós que lhe agradecemos pelo post e aos demais pelos comentários.

      Obrigados, também, pelas referências. Leremos com atenção.

      Um forte abraço,

      Vinicius e João.

      Excluir
  19. Valeu Sergio!

    Interessantes mesmo os artigos. É uma agenda promissora. Acho, no entanto, que será difícil que experimentação consiga responder as questões fundamentais em macro. Vamos ficar muito tempo patinando entre retórica, fé e ciência.

    Mais uma vez: o blog é muito legal. Sou fã.

    abs

    João

    ResponderExcluir
  20. Tem algum artigo bem publicado usando controle sintético?

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Boa pergunta.

      Dada o tom da pergunta, considero aberta a temporada do credencialismo, mesmo que usando as credenciais alheias :-).

      AER, RESTAT (pelo menos 3 que eu saiba), JASA, American Journal of Political Science (top em pol sci), Journal of Quantitative Criminology (top em criminologia, área onde experimentação já tem uns 30 anos). São todos bem recentes.

      http://gspp.berkeley.edu/research/selected-publications/did-the-2007-legal-arizona-workers-act-reduce-the-states-unauthorized-immig

      http://www.mitpressjournals.org/doi/abs/10.1162/REST_a_00324#.U9vvJPldWAk

      http://www.mitpressjournals.org/doi/abs/10.1162/REST_a_00413#.U9vvg_ldWAk

      http://link.springer.com/article/10.1007%2Fs10940-014-9226-5

      http://www.hks.harvard.edu/fs/aabadie/ccsp.pdf

      http://web.stanford.edu/~jhain/Paper/comparative.pdf

      http://www.hks.harvard.edu/fs/aabadie/eccp.pdf

      O método já é imensamente popular. Possivelmente pela razão errada: ele é fácil de usar. A razão certa é: ele é conveniente quando há uma unidade tratada e várias não tratadas, além de apropriado para fazer exercícios contrafactuais com dados agregados sob algumas circunstâncias, como sói passar (ver a referência do Magnac abaixo).

      Há um monte de WPs e artigos submetidos que usam o método, inclusive em outras áreas como criminologia, finanças e management. A derivação das condições para consistência é de 2010. Até agora não se tem inferência precisa. Por isso não é exatamente surpreendente que só agora estejam saindo os papers. Dois bons exemplos de coisas no processo de submissão são:

      - O paper do Paolo Pinotti, que está arrebentando em Economia do Crime (re-submetido para o Economic Journal):

      http://didattica.unibocconi.it/mypage/upload/144356_20140210_105843_MAFIA.PDF

      - O paper do Alex Butler, um cara bastante bom de finanças, super ativo (re-submetido para o Management Science, top em management):

      http://business.utsa.edu/finance/files/Butler%20Cornaggia%20Gurun%20-%20consumer%20finance%20-%20synth%20controls.pdf

      Como WP bastante promissor, ver o JMP do Edson Serverini (que conseguiu um emprego em Carnegie_Mellon com esse paper):

      http://intranet.weatherhead.case.edu/document-upload/docs/1028.pdf

      O Thierry Magnac, que não costuma das bola fora, entrou nisso, fazendo monte carlo em small sample para comparar SCG com Difs-em-Difs e Painel:

      http://idei.fr/display.php?a=27411

      Os primeiros WPs de inferência são super recentes:

      http://www.eea-esem.com/files/papers/eea-esem/2013/2549/SCMAndoSavje.pdf

      Em suma, a despeito da fragilidade clara (não há inferência), as pessoas já usam, publicam bastante bem, e investem em novos artigos que usam SCG.


      Por curiosidade. O David McKenzie faz um bom resumo no seu blog:

      http://blogs.worldbank.org/impactevaluations/evaluating-regulatory-reforms-using-the-synthetic-control-method

      Por fim, a opinião dos gurus sobre o método (Imbens e Wooldridge, na resenha famosa do JEL em 2009):

      "Applications in Abadie, Diamond and Hainmueller (2007) to estimation of
      the effect of smoking legislation in California, and the effect of reunification on West Germany are very promising."


      João

      Excluir