terça-feira, 19 de agosto de 2014

Moeda única, preço único


A Lei do Preço Único implica que o preço de um bem deve ser igual entre países, quando avaliado na mesma moeda. Caso contrário, forças de arbitragem entrariam em ação, levando a diferença de preços para zero. Empiricamente, esse resultado tende a não se verificar: há consideráveis diferenças de preços entre países, mesmo para produtos muito parecidos. Isso não surpreende, dado que custos de transporte, barreiras alfandegárias, diferenças de impostos etc. previnem a ação de tais forças de arbitragem, permitindo que produtores cobrem preços diferenciados entre países.

Na verdade, o interessante é entender o que está por trás desses desvios da Lei do Preço Único.

Há um particular custo associado a comprar bens em outro país que potencialmente explica a não observância da Lei do Preço Único: a necessidade de utilizar outra moeda. O paper de Alberto Cavallo, Brent Neiman e Roberto Rigobon analisa essa questão utilizando dados de milhares de preços de produtos idênticos, mas vendidos online em países diferentes por Apple, H&M, Zara e IKEA. Claro, a amostra não é muito representativa dos preços praticados em um país. Mas o ganho está em chegar muito perto da noção de produtos idênticos para realizar a comparação.

Os resultados: a Lei do Preço Único explica relativamente bem diferenças de preços entre países que adotam uma moeda única. Particularmente, para pares de países na Zona do Euro, em mais de 60% dos preços observados, a diferença é inferior a 1%. Em pares de países que não compartilham a mesma moeda, isso ocorre para menos de 10% dos preços.

Uma possível explicação é risco cambial. Por exemplo, se você compra livros na Amazon (não tem imposto), você corre o risco da conta variar dependendo da taxa de câmbio. Esse custo associado a passar por moedas diferentes pode desincentivar trocas internacionais, levando a diferenças de preços entre países que não compartilham a mesma moeda. Para essa história fazer sentido, a Lei do Preço Único deveria fazer um bom trabalho não só entre integrantes da Zona do Euro, mas também para países que adotam regimes de câmbio fixo. Entretanto, não há evidência disso nos dados.

Parece-me que uma explicação mais plausível tem a ver com custos, para o consumidor, de comparar preços em moedas diferentes. Sim, é fácil fazer conta de câmbio. Mas não me parece trivial. Por exemplo, há evidência de que cálculos bem mais simples, como arrendondamentos, são custosos (veja post anterior sobre esse assunto).

Os mesmos autores têm outro paper bem recente analisando a entrada da Letônia na Zona do Euro no início de 2014, com base em produtos vendidos online pela Zara. Antes disso, o país seguia um regime de câmbio fixo em relação ao Euro. Os resultados encontrados são similares: por exemplo, na comparação de produtos idênticos vendidos online na Alemanha e na Letônia, os preços quase iguais (diferença inferior a 1%) saltaram de 6% para 89% do total, com a unificação das moedas.

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Os dados dos papers aqui citados são resultado do Billion Prices Project, tocado por Roberto Rigobon e Alberto Cavallo, do MIT. Trata-se de um esforço para coletar informações desagregadas de preços em vários países do mundo, por meio de buscas nos websites de grandes empresas varejistas. Mais detalhes aqui.

Um comentário:

  1. países que adotam a mesma moeda, tendem a ter outras observáveis e tb não-observáveis (o q complica...) que poderiam tb gerar esse efeito...

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