sexta-feira, 15 de agosto de 2014

Não divulgue minha nota!


Em seu último post, Sergio Almeida mencionou o paper de Daniel Gottlieb e Kent Smetters, sobre a política de "grade non-disclosure" em programas top de MBA nos Estados Unidos. Tal política conta com apoio pesado dos alunos desses programas, e impede que as notas sejam divulgadas a potenciais empregadores.

Dei uma olhada no paper e achei bem interessante (obrigado, Marcos Nakaguma, pela sugestão). A ideia é a seguinte: sem saber a nota, o empregador não consegue diferenciar o joio do trigo, o que faz com ele ofereça o mesmo salário para todo mundo, independente de ser bom ou mau aluno. Uma hipótese importante é que há assimetria na distribuição de talento entre os alunos, de modo que o aluno mediano é pior que o aluno médio.

Dessa forma, o mediano pode preferir que as notas não sejam divulgadas, pois será remunerado de acordo com a média, e não precisará fazer tanto esforço estudando. Como o mediano apoia a política de "grade non-disclosure", os alunos piores que ele também serão favoráveis. Dessa forma, pelo menos 50% do alunato apoia a política, que acaba sendo implementada.

O resultado ruim é que isso diminui o incentivo a fazer esforço, dado que a nota individual não sinaliza mais nada para potenciais empregadores.

Fiquei pensando em outras repercussões desse raciocínio. Primeiro, as escolas com "non-grade disclosure" podem perder alunos muito bons, e que estão interessados em sinalizar sua habilidade via nota. Segundo, pode ocorrer outro tipo de seleção perversa: a escola passaria a atrair alunos menos dispostos a estudar duro. Se "vagabundagem" na escola estiver associada a "vagabundagem" no trabalho, isso acabará se refletindo no mercado. Ao longo do tempo, tal traço torna-se evidente para os empregadores, que passarão a levar isso em conta e reduzir ofertas de salário para alunos egressos de escolas que adotam essa prática.

No fim, a produção de alunos piores e menos dispostos a trabalhar duro pode arranhar a própria reputação da escola. Nessa situação, o propósito inicial da política pode desaparecer, pois o aluno mediano não terá mais colegas muito melhores para puxar a média da escola para cima.

***

Tem uma coisa meio paradoxal: de acordo com o paper de Gottlieb e Smetters, 95% dos alunos apoiam a política de "grade non-disclosure" em Wharton -- uma das melhores business schools dos Estados Unidos, e onde eles dão aula. Para racionalizar esse número na história deles, acredito que precisaríamos: (i) uma elevadíssima desutilidade associada ao esforço de estudo; e/ou (ii) uma distribuição bizarramente assimétrica de talento (de modo que o mediano estivesse muito longe da média, justificando essa quantidade enorme de gente em favor da política).

Em minha opinião, isso sugere que outros mecanismos são importantes nesse caso. Primeiro, como levantado pelos próprios alunos de MBA, se a nota fosse pública, eles não teriam incentivo a escolher cursos difíceis, em que correm o risco de manchar seus históricos. A divulgação das notas poderia forçar muita gente a procurar cursos "coxas", em que a nota média é elevada, a dispersão é baixa e o aprendizado é pequeno. Isso é ruim para os próprios empregadores e para a escola.

Segundo, a divulgação de notas torna o ambiente na escola mais competitivo, e reduz o incentivo à cooperação entre os alunos. Isso pode ser problemático para a própria formação dos alunos, se o mercado de trabalho demandar capacidade de trabalhar em grupos. Esse ponto foi colocado em comentário anônimo a esse post (que foi editado para incluir essa última parte). Obrigado, Anônimo.

28 comentários:

  1. "No fim, a produção de alunos piores e menos dispostos a trabalhar duro pode arranhar a própria reputação da escola."

    Isso é claro, mas um nível de exigência alto para a aprovação mitiga esse problema, ou seja, mesmo o "vagabundo" de "non disclosure" vai ter que ser relativamente menos vagabundo do que o de escolas " disclosure" com menor nível de exigência. Ou não?

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  2. Acho essa discussão legal. Mas gostaria de saber também sobre os incentivos à cooperação. De certo modo, não sei quanto que o talento profissional de um indivíduo num curso de MBA está associado a sua nota. Talvez seja preconceito meu, mas acredito que no mundo profissional a nota talvez seja um fator não tão importante para o desempenho profissional do aluno. Neste mundo, habilidades não-cognitivas são extremamente importantes. Claro que ai vem a pergunta: então pq as empresas estão dispostas a olhar para a nota? Talvez pq a nota seja um dos poucos sinais que ela pode usar para diferenciar os alunos e é melhor do que nada. Só que ai temos um problema de incentivos: a empresa não está interessada na cooperação entre os alunos e no desempenho médio da sala, ela só está interessada em alunos individuais.

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    1. esse é um ponto bem importante. obrigado pelo comentário. mais tarde vou editar o post e colocar essa discussão.

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  3. Fiz MBA no exterior, em escola tier 1.

    a) o non disclosure diminui o backstabbing, principalmente nos grandes MBAs.

    b) O ponto do MBA é a criação de relacionamentos e os soft skills. Além disso, a seleção já ficou pra traz, no admission.

    c) Notas não necessariamente têm a ver com desempenho profissional, principalmente em escolas de negócio, onde há todo um ambiente "controlado". Exemplo clássico: Efficient Market Theory. É o que se aprende, não existe (ou existe apenas muito raramente) na prática.

    Como disseram (sort of) no primeiro post da série, na área de comentários, é uma discussão meramente acadêmica, sem o fine tunning de quem está no mercado.

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    1. Seu primeiro ponto é fair. Já incluí no post. Mas o resto eu não entendo.

      Se for só seleção via admission, não faz sentido ter aula. Parece uma grande ineficiência. Seria melhor ter uma prova super difícil e o problema acabou. E depois vc organiza eventos sociais e põe as pessoas para se conhecer. Parece que o linkedin já daria conta disso.

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    2. Linkedin, sério?

      O "fenômeno" a que me refiro acontece aqui também: politécnicos que só contratam politécnicos, que só contratam politécnicos, e por aí vai.

      A mesma coisa no MBA. Algumas empresas já contratam em determinadas escolas, alimentando as "panelinhas" dos principals.

      Outra coisa que vocês não levam em consideração é que a maioria das pessoas faz um MBA sponsored. Já estão em empresas de consultoria, e vão voltar pra lá - a não ser que paguem a "multa". Novamente, a seleção se deu antes.

      E "marca" importa, muito. É o grande vetor de diminuição de assimetria de informação. É um problema de assimetria de informação, não? Pra entrar em Harvard, você teve uma formação diferenciada. É o conjunto, não a nota do paper de Marketing.

      E reitero: como alguém se põe a "pesquisar" algo se a) não sabe como o MBA seleciona, b) não sabe como as empresas que contratam selecionam, c) não entendem quais os skills realmente necessários no mercado?

      Da "torre de marfim", as coisas são diferentes. Não estou dizendo que economistas não deveriam pesquisar essas coisas, mas estou dizendo que precisam melhorar o nível de informação que possuem pra sair fazendo inferências.

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    3. O cara é piadista! Certamente está há muito tempo afastado do mercado de trabalho... A vida de funcionário público é "diferente"

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    4. 1. Você diz que o problema se encerra no admission, certo? Se isso for verdade, então a única coisa que Harvard precisaria fazer é selecionar. Daí tudo já estaria resolvido. Não precisaria de aula, trabalhos, etc. Não acredito que isso seja verdade. Por isso acho que tenha alguma coisa a mais.

      2. Com relação ao linkedin. Vc disse que tudo já está resolvido no admission e que b-school é só para fazer networking e soft skills. Para fazer networking, de novo, para que assistir a aulas, fazer trabalho, etc? Usei o linkedin como ironia. Eu não acredito que as pessoas e empresas gastem os tubos, as pessoas gastem tempo estudando e fazendo trabalhos, etc, só por causa de networking e soft skills. De novo, tem que ter alguma coisa a mais.

      3. Sim, é assimetria de informação. Mas é também preciso separar o cara bom de Harvard do cara ruim de Harvard. E no topo da distribuição (como os caras que vão para Harvard) é onde as diferenças são maiores, ou seja, o melhor cara é em geral muito melhor que o segundo, que não é tão melhor que o terceiro, e assim por diante. No meio da distribuição as pessoas são mais ou menos parecidas.

      4. Sim, é óbvio que é o conjunto da obra. Não a nota do trabalho de Marketing. Nunca disse isso.

      5. Eu só comentei o paper do Gottlieb e Smetters. Se vc tem algum insight sobre o processo de admissions, por favor escreva para eles. Mas eles são professores de Wharton, ou seja, devem ter alguma informação sobre esse processo, se já não participaram ativamente dele. E como já apresentaram esse paper em uma trolha de lugares, certamente já toparam com alguém que participou desses processos, que apontaria se eles estão falando muita besteira.

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    5. Esses comentários anônimos agressivos só reforçam o ponto do paper: é muito fácil se esconder no meio da multidão e se dar bem.

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    6. Os escritórios de admissions tem participação muito maior de ex-alunos que de professores.

      Meu ponto é um só: vocês não tem a info, e não se preocupam em verificá-la.

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    7. Assiste-se aula e faz-se trabalho para não ter "fail" na matéria. E por que eventualmente destacar-se em sala pode levar a relacionamentos de negócios no futuro, se assumirmos que todos num MBA top estão ladeira acima nas suas organizações, ou estarão.

      Mas inclusive têm-se a liberdade de estar na "Dean's list".

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    8. O cara ruim de Harvard ainda é um cara de Harvard.

      E é melhor, no mercado, ser um cara de Harvard que o top de Smallville Comunity College.

      A reputação da escola, por ser mais forte, e portanto mais efetiva em mitigar a assimetria de informação, precede a capacidade do aluno.

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  4. Eu acho que o principal meio de "screening" de candidatos com MBA é a admissão inicial aos programas. Daí o surgimento e a importância dos rankings de universidades. Se o cara entrou em Harvard ou na Wharton, provavelmente já tem as habilidades técnicas mínimas para o mundo dos negócios (que não são tão elevadas assim, é bom que se ressalte). As "soft skills" são auferidas em entrevistas, dinâmicas, estudos de casos, etc.

    Aliás, para PhDs em Economia as notas durante o doutorado não importam muito quando ele vai ao mercado. Importam o "job market paper", que aufere sua capacidade real de fazer pesquisa, e o ranking da universidade, porque prestígio não faz mal a ninguém.

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    1. Se as notas não importam, por que os alunos se preocupam tanto com sua divulgação nos programas top de MBA?

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  5. Mauro comentou:

    "Se for só seleção via admission, não faz sentido ter aula. Parece uma grande ineficiência. Seria melhor ter uma prova super difícil e o problema acabou. E depois vc organiza eventos sociais e põe as pessoas para se conhecer. Parece que o linkedin já daria conta disso."

    Na minha opinião, aulas são importantes não apenas para se ganhar conhecimentos técnicos, pois, de fato, livros e apostilas poderiam dar conta disso. Pra mim, aulas são importantes também para se adquirir conhecimentos tácitos que decorrem da interação entre professores e alunos. Isso inclui o jargão das disciplinas, o modo de o professor pensar e resolver problemas, a mimetização do comportamento de um especialista no assunto pelos alunos, etc. Enfim, muito do que os alunos aprendem decorre da simples observação do professor. O conhecimento por osmose não é mito.

    Acho que há muito mais numa aula com um bom especialista do que a simples transmissão de conhecimentos técnicos.

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    1. Parece que para você, a unica coisa que não importa num MBA é conhecimento.

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  6. Há também a questao de "grade inflation". Alias, da uma olhada nesse paper. A intro da um argumento para o non disclosure: a nao divulgação ou a nao uniformidade da nota fará com que os empregadores confiem mais na reputação de universidade, o que pode reverter em mais doações: http://www.voxeu.org/article/unrecognised-benefits-grade-inflation?utm_source=dlvr.it&utm_medium=twitter

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  7. Por que tenho a impressão de que o desempenho nos cursos de graduação e pós são fortemente não-correlacionados com desempenho no mercado de trabalho? Certamente, terá talvez até uma correlação negativa para certos níveis de desempenho acadêmico. Logicamente, o "nerdezinho" incapaz de comunicação que estuda 12 hrs por dia, mesmo que de grande conhecimento acadêmico é de pouca valia no mercado de trabalho.

    Aliás, tem até trabalhos muito bons sobre isso, recomendo a leitura: Granovetter, "A Força dos Laços Fracos"

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    1. Parece que ficar muito tempo fora do mercado de trabalho, no mundinho acadêmico deixa as pessoas bitoladas achando que desempenho acadêmico é sinônimo de sucesso no mundo real.

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    2. Então me explica por que recebo emails de tempos em tempos pedindo para indicar BONS alunos para consultorias e bancos?

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    3. E você indica quem? Aquele nerd que se formou com coeficiente de 9,5 ou aquele aluno capaz de fazer perguntas inteligentes e surpreendentes na sala de aula? Geralmente essas duas pessoas não estão em um mesmo corpo...

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    4. Essa é uma boa questão: indicar alguém bom de nota, mas que não sabe falar, não sabe se portar numa reunião, não sabe se vestir e se comportar em ocasiões sociais é complicado....

      É uma coisa dura de se dizer, mas a verdade é que no mercado de trabalho privado aparência visual e fluência verbal contam muito, mas muito mesmo. Provavelmente os nerds que o Mauro indica ficam no back office fazendo conta sem nenhum contanto com os clientes e altos executivos. É um troço cruel, pra ser bem sincero, mas é a vida.

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    5. Na academia essas coisas contam também. Fluência verbal principalmente.

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  8. Há um certo exagero nos comentários. Para aqueles que polarizam Mercado vs. Academia, lembrem-se que o MBA é um programa voltado exatamente para o mercado, o que leva a crer que um bom MBA replicará nas aulas, papers e group tasks situações que os estudantes enfrentarão no dia-a-dia. Logo, a atribuição de notas deve ocorrer de acordo, ou seja, o "nerdizinho" acadêmico tenderia a não se dar tao bem.

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  9. O tom ácido com a academia de certos comentários diz muito sobre quem os escreve. São covardes que usam do anonimato para se "vingar" da frustração ou de terem sido alunos fraquíssimos ou de serem simplesmente pessoas tristes que precisam do regozijo de ser "macho" de máscara na frente do teclado para conseguir aguentar a vida merdal e insignificante que levam. É isso que acontece quando a mãe não dá carinho e não amamenta no peito...

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    1. Tipo você, ou "anônimo" é seu nome de batismo?

      Posso dizer que a "frustração" sobre não ter seguido carreira acadêmica tende a zero. E nem é pelo retorno financeiro: é pelo prazer em ver resultados práticos no que se faz.


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    2. Tem muita frustração na academia também hein... Vivemos uma época contraditória de estresse e frustração em todo canto.

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