terça-feira, 21 de outubro de 2014

Dilma e a razão de sacrifício


O livro de Macro de graduação do Blanchard tem um exemplo do custo da desinflação nos Estados Unidos na década de 1980 (Volcker). Especificamente, entre 1979 e 1985, a inflação caiu de 13,3 para 3,8%. Nesse período, por conta da contração monetária, a taxa de desemprego permaneceu bem alta, chegando próxima a 10%.

Uma forma comum de calcular o custo da desinflação é pela razão de sacrifício. Basicamente, ao longo de cada ano de um período de desinflação, computa-se a diferença entre a taxa de desemprego observada e a taxa de desemprego de longo prazo (suposta igual a 6% para os Estados Unidos). Somam-se então esses desvios ao longo do período de desinflação, sendo essa soma chamada de desemprego acumulado. A razão de sacrifício é o desemprego acumulado dividido pela variação na taxa de inflação no período. 

Nas contas do Blanchard, a razão de sacrifício foi de 1,32 entre 1980 e 1985, que corresponde ao período de desinflação.

No debate presidencial do SBT, Dilma fez uma afirmação acerca do efeito sobre desemprego de uma redução brusca na inflação, como proposta por Aécio (aqui). Especificamente, ela disse que, se a taxa de inflação fosse reduzida para 3%, a taxa de desemprego iria para 15%. Com base nesses números, dá para calcular a eventual taxa de sacrifício.

Suponha: (i) o eventual ajuste será realizado em um único ano, (ii) a taxa de desemprego de longo prazo é igual à atual (5%), e (iii) a taxa de inflação corrente é 6,5%. Nesse caso, a taxa de sacrifício de Dilma é (15%-5%)/(6,5%-3%) = 2,85.

Mas e se a taxa de desemprego de longo prazo fosse mais elevada -- por exemplo, 8% -- caso supusermos que a economia está aquecida hoje? A taxa de sacrifício cairia, mas ainda ficaria mais alta que a do Volcker: 2,0.

Os números da Dilma são bem mais elevados do que os da experiência americana. Por que o Brasil seria diferente? Mais rigidez de preços, contratos de trabalho mais longos etc.? Acho que não. Além disso, a desinflação no exercício acima é mais rápida que a do Volcker. E há evidência de que, se o ajuste é rápido, o aumento acumulado no desemprego de curto prazo é menor, por conta do ganho de credibilidade (veja aqui).

Um eventual ajuste provavelmente terá custos em termos de produto e emprego de curto prazo, mas não na magnitude citada por Dilma. Os números parecem estar mais no espírito da política do medo (politics of fear).

segunda-feira, 20 de outubro de 2014

Valor da Petrobras na próxima 2a-feira



Tenho escutado a pergunta: "se a Dilma ganhar, para quanto vai a Petrobras? E se o Aécio ganhar?"

Dado que hoje (20/10), a chance para cada um está ao redor de 50%, o mercado de opção pode dar uma boa ideia.

Comprar uma call e uma put (estratégia chamada "straddle") te coloca numa situação de ganhar $ se o ativo cair muito ou se o ativo subir muito.  De acordo com os preços das opções de hoje, fazendo um straddle você ganha $ se a Petrobras estiver abaixo de R$ 13 ou acima de R$ 23 no dia 17/11 (figura acima).

Ou seja, Petrobras a R$ 13 sob Dilma e a R$ 23 sob Aécio é, grosso modo, o que se espera.

Prevendo o eleitor "swing": Três razões porque Aécio vencerá as eleições


Não é por acaso que as democracias representativas são formas dominantes de governo. Participar de forma direta -- e minimamente decente -- do processo de formulação e voto de políticas públicas e leis em geral demandaria muito tempo de nossas curtas vidas: tempo direto, gasto nos ritos processuais envolvidos em cada uma dessas etapas e tempo indireto, gasto na aquisição das competências e expertise para avaliar e votar de forma informada na variedade de assuntos -- de defesa nacional à regulação econômica -- de que consistem a administração de qualquer sociedade.

Um subproduto, talvez indesejável, dessas formas indiretas de governança é a existência de apatia e pouco engajamento ao processo político por parte de grandes frações do eleitorado. Como há indivíduos dedicados aos (e especializados nos) trâmites do processo de formulação de políticas públicas (nossos "representantes" nos vários níveis de administração), nosso envolvimento tende a se reduzir à escolha desses representantes, o que acontece de forma infrequente o suficiente para que adquirir grandes conjuntos de informação sobre os vários indivíduos que pleiteam representar nossas preferências é simplesmente taxing demais. Resultado: muitos eleitores simplesmente não conseguem expressar mais do que indiferença aos candidatos na disputa eleitoral, frequentemente utilizando "atalhos" ("rules of thumb") para decidirem em quem votar ("o mais bonito", o "incumbente", o "preferido das pesquisas", os "que são apoiados por meus amigos",  etc, etc).

É razoável acreditar que dessa apatira e indiferença surge o fenômeno do "eleitor swing" (swing voter). O "eleitor swing" é o eleitor "independente", o indivíduo sem forte identificação ideológico-partidária, que pode votar em virtualmente qualquer partido. Mais importantemente, é o eleitor que permanece indeciso ao longo de quase toda a campanha, decidindo seu voto nos últimos instantes da campanha eleitoral. 

Partidos e analistas políticos sabem, já há algum tempo, que ganhar o coração e mente desse tipo de eleitor é absolutamente crucial para o resultado da campanha. Foram esses eleitores, por exemplo, que deram uma inesperada vitória para Truman (partido democrático) nas eleições presidenciais americanas de 1948 -- inesperada porque Harry Truman venceu com mais de 15 pontos percentuais de vantagem para o segundo colocado quando as pesquisas de intenção de voto, até os últimos momentos da campanha, apontavam para uma apertada disputa entre ele o candidato do partido republicano, o então governador do estado de Nova York, Thomas Dewey. A vitória foi tão inesperada que até um jornal de Chicago se adiantou aos resultados das urnas, antecipando uma vitória que não aconteceu. 



A Eleição Presidencial no Brasil
Essa indiferença e apatia -- com correspondente efeito no número de eleitores "swing" -- é um fator psicológico crucial para prever o resultado de uma eleição. A razão é simples: eleitores indecisos sempre são uma fração significativa dos votantes. Faltando apenas um mês para as eleições, pesquisas de opinião indicavam que 7% dos eleitores ainda estavam indecisos (ver exemplo aqui). 

É verdade que isso não aparece muito. Mas se considerarmos que os votos brancos e nulos e até mesmo as abstenções, são todos -- ao menos em alguma medida -- expressão dessa apatia com o processo eleitoral, temos aí um "pool" de eleitores "swing" de magnitude impressionante. No primeiro turno dessa eleição presidencial, por exemplo, nada mais do que cerca de 29% dos eleitores se abstiveram (19,40%), votaram em branco (3,85%) ou votaram nulo (5,78%). Fosse um candidato, esse "frankstein da apatia e da indecisão" teria sido o terceiro candidato mais votado.

Quem ganhará o segundo turno?


Como as pesquisas de opinião apontam para um empate técnico entre Aécio e Dilma, não parece um exercício complicado de lógica concluir que o que estou chamando -- com alguma "liberdade poética", é verdade -- de eleitor "swing" será o agente decisório dessas eleições presidenciais. Prever o resultado desse próximo domingo reduz-se, portanto, a entender o seguinte: como decidirá esse eleitor "swing"?

O que aprendi nas incursões que faço na literatura de psicologia social me inclina a acreditar que o vencedor dessa eleição será o candidato do PSDB, Aécio Neves. Três fatores contribuirão para isso:

O efeito "underdog"



O primeiro é o "efeito underdog". O efeito "underdog" é um fenômeno típico de competições -- eleitorais mas não só -- onde os indivíduos, ao perceberem que um dado candidato é o provável vencedor, tendem a dar apoio ao candidato que espera-se perder -- esse tipo de fenômeno seria explicado por  uma espécie de "desejo de ser influente". 

Há uma literatura empírica sobre o assunto, que foi tratado de forma seminal (ver artigo aqui) por Herbert Simon -- um dos economistas/cientista políticos mais brilhantes de sua geração com contribuições em mais de meia dúzia de áreas, da psicologia, passando pela economia, até à computação (Simon ganhou o chamado "Prêmio Nobel em Economia" em 1978).

Pois bem. O fato é que Aécio foi praticamente "written off" da corrida presidencial, tendo sido preterido -- os surveys de intenção de voto sugeriam -- por Marina Silva para ser o adversário de Dilma Roussef no segundo turno. Aécio deu uma "virada" -- seu "vote share" acabou sendo muito maior do que as pesquisas de boca de urna sugeriram -- e se posiciona nas últimas pesquisas divulgadas em empate técnico com a incumbente Dilma Roussef. Muitos desses eleitores indecisos e indiferentes tenderão a votar no "underdog", em Aécio, pelo simples fato -- abominável como soe -- de que ser responsável por um dos maiores "upsets" na história das eleições brasileiras será muito mais prazeroso. 

O efeito "pivotal illusion"


O segundo é o que chamarei de "ilusão pivotal". Ser pivotal em um processo decisório significa simplesmente ser de importância crucial -- no caso, ser um eleitor que "influencia" o resultado da eleição. É claro que ser pivotal é impossível: como qualquer modelo econômico de "eleitor racional" nos dirá, votar é (em certo sentido) irrelevante, dado que o voto individual tem probabilidade praticamente nula de influenciar o resultado final da eleição.

Mas nosso comportamento é frequentemente baseado em crenças e percepções. E a disputa apertada entre os dois candidatos ajuda a criar a percepção de que "cada voto contará", dando origem a ilusão de que será um eleitor "pivotal". Mas por que a existência dessa ilusão favorece ao candidato do PSDB? Explico.

Pouco mais de 27 milhões não compareceram às urnas. Muitos dentro desse contingente não comparecerão mesmo: são eleitores que faleceram mas ainda estão com seus títulos ativos. Mas a vasta maioria desses eleitores são de indivíduos que, a um custo c, poderiam votar na eleição deste domingo. São eleitores que estarão fora de seus domicílios eleitorais -- -- esse c seria portanto, essencialmente, o custo de deslocamento. É claro que a distribuição desse custo é heterogênea -- para alguns significaria ir da capital para o interior; para outros, viajar do Sul/Sudeste para o Centro-Norte/Nordeste (ou vice-versa). Mas minha hipótese é que, ainda que os votos desses eleitores ausentes (e sujeitos à "ilusão pivotal") se distribuam uniformemente entre Aécio e Dilma, são os eleitores do primeiro que tenderão a aparecer em maior proporção nesse segundo turno. A razão é simples: internalizar o custo de deslocamento será proporcionalmente mais fácil para o eleitor típico do candidato do PSDB -- veja que não se trata aqui de repetir a besteira que só pobres/só ricos votam num e noutro, mas apenas notar que as pesquisas mostram que os indivíduos de maior renda estão proporcionalmente mais inclinados a votar no candidato da oposição. Em suma: a "ilusão pivotal" diminuirá o número de abstenções e a maior fatia desses votos, por questões econômicas, irá para Aécio -- uma adição que será crucial para o resultado da eleição.

Uma ilustração desse ponto são os dados na tabela logo abaixo. Eles mostram a votação de Aécio e Dilma no primeiro turno entre os eleitores que votaram em trânsito -- eleitores que podem ser vistos como uma "proxy", admitidamente imperfeita, do que seria o voto do eleitor que absteve-se no 1º turno, decidisse ele/ela aparecer para votar no 2º turno.


O efeito "networked bandwagon"


O terceiro é o que chamarei de "networked bandwagon effect" -- uma espécie de "todos pulando no mesmo carro/onda". Comecemos observando o seguinte: povoamos nossas redes sociais de pessoas semelhantes a nós mesmos em muitas dimensões. É razoável admitir, portanto, que os sujeitos genuinamente indecisos estão também cercados de indivíduos indecisos. Ou seja: o eleitor indeciso está numa "network" de eleitores indecisos. Uma vez que um ou mais indivíduos (os "nós" da rede) dessa rede comecem a decidir seu voto, esses eleitores tenderão a "contaminar" outros eleitores indecisos em sua rede (que "pularão na onda"). É claro que a força e magnitude desse efeito depende (1) do momento em que essa decisão é feita (se for feita no último segundo, seu efeito é nulo) e (2) da "topologia" dessa rede -- quantos mais links cruzados, maior e mais rápido tende a ser esse efeito (em oposição à uma rede "flat" onde cada indivíduo tem poucas conexões).

Obviamente que a estrutura em rede de conexões sociais pode favorecer qualquer dos dois candidatos dependendo da opção dos primeiros "nós" a mudarem de status (de "indeciso" para "decidido"). Mas meu argumento é que os dois efeitos acima contribuiriam para que esse voto fosse em favor do candidato do PSDB, de modo que as redes de indecisos fizessem um "swing" majoritariamente em favor dele.



É a presença desses três efeitos -- mais salientes em eleições "mais disputadas" como essa -- que torna difícil a tarefa dos institutos de pesquisa de prever corretamente os resultados.

Conclusão
Aécio vencerá (salvo alguma declaração -- verbal ou não -- desastrada no próximo debate).

Gangnam Style

Isso já é antigo -- até porque a febre do PSY já passou há algum tempo -- mas achei divertido. The Economist estimou o que poderia ser construído com o tempo que as pessoas gastaram assistindo ao vídeo de Gangnam Style no Youtube -- 2 bilhões de visualizações, de um vídeo de 4:12 minutos, o que dá mais de 140 milhões de horas. Abaixo o gráfico da The Economist, dando exemplos do que poderia ser feito:


Para os puristas de sempre, calma... A conta acima é quase que uma brincadeira. Por exemplo, não leva em conta qual a perda de deslocar um trabalhador de escritório para construir um porta aviões, nem diferenças na produtividade do trabalho, etc. Além disso, muitas das pessoas assistindo ao vídeo são crianças.

Mas ilustra o ganho de bem estar do vídeo de PSY. E que as restrições a esse tipo de produto -- que são normalmente defendidas por se tratar de cultura de baixa qualidade -- são realmente custosas. 

Link para a matéria da The Economist aqui. Aliás, a revista também está vendendo camisetas com o gráfico acima.

sexta-feira, 17 de outubro de 2014

Piketty

Apresentação de Thomas Piketty, no TED.


Algumas observações:

1. Se você não conseguir entendê-lo por causa do sotaque, tem uma versão com legendas aqui.

2. Engraçado uma apresentação sobre desigualdade de riqueza (e seus problemas) ser patrocinada pela Rolex.

3. O ponto de Piketty é que o aumento da desigualdade está associado à diferença entre r (a taxa de retorno do capital) e g (taxa de crescimento do PIB). Daron Acemoglu e James Robinson têm um paper recente, em que não encontram correlação nenhuma entre r - g e índices de desigualdade para um painel de países (aqui).

quinta-feira, 16 de outubro de 2014

A pirataria vai acabar com o mercado editorial?


No último domingo, o Estadão publicou um texto interessante sobre o efeito da pirataria digital no mercado editorial (aqui).  Para minha surpresa, entre as editoras a reclamação não é geral. Sim, tem aquela galera que argumenta que a pirataria desincentiva a produção de livros, dado que os autores deixam de ser remunerados pelo esforço quando seus trabalhos são distribuídos ilegalmente pela internet.

Minha impressão é que, exceto pelos Paulos Coelhos da vida, poucos autores ficam ricos escrevendo livros no Brasil (talvez o principal payoff seja simplesmente publicar e ter o trabalho lido pelas pessoas). Nesse sentido, não acredito que a pirataria terá um efeito como o descrito acima. Um mecanismo mais plausível pode ser o seguinte: a pirataria reduz a lucratividade no setor editorial e, com isso, provavelmente menos livros serão editados. Com a maior dificuldade para publicar, alguns autores podem desistir da empreitada.

O argumento é justo, mas tem outro lado: o efeito divulgação, o qual contribui para elevar a demanda no setor. Especificamente, a pirataria permite que os leitores tenham acesso mais fácil à obra, e possam ter uma ideia do conteúdo. Isso pode incentivá-los a comprar o livro (convenhamos, a cópia digital e a cópia física não são exatamente substitutos perfeitos). Na matéria do Estadão, Paulo Rocco ilustra bem esse efeito:
Percebo nessa meninada uma adoração pelo livro como objeto de colecionador. Assim, quando eles não resistem e baixam algum arquivo ilegal, é normalmente para ter uma ideia de como é a trama - algo como, em uma livraria, ler a orelha e os primeiros capítulos do volume para ter a certeza da escolha.
O efeito divulgação pode ainda propiciar outras fontes de renda para o autor (por exemplo, palestras). Esse efeito é análogo ao do mercado fonográfico, em que músicos têm seu trabalho divulgado com a ajuda da pirataria, tornado-os mais conhecidos, e estimulando a demanda por shows. Igor Cortez tem um trabalho interessante nesse tema, achando evidências de que acesso a pirataria está associado a uma diminuição na demanda por CDs, mas a um aumento na demanda por shows (aqui). 

segunda-feira, 13 de outubro de 2014

Jean Tirole, Prêmio Nobel de Economia de 2014



Há algumas décadas o Prof. Jean Tirole é um dos economistas mais influentes da academia internacional. Uma posição obtida como fruto da sua extensa, ampla e profunda agenda de pesquisa. Os dois campos citados na premiação, de regulação e organização industrial são realmente onde suas contribuições foram mais impactantes. 

Na organização industrial, Tirole esteve na fronteira do movimento que incorporou as contribuições da teoria dos jogos à análise de mercados com concorrência imperfeita (onde existem poucas empresas). Dentro deste campo, suas contribuições são muito variadas. Ele produziu artigos seminais em inovação, barreiras à entrada, restrições verticais e mais recentemente em economia de redes. Também elaborou o Livro “The Theory of Industrial Organization” que teve um papel na estruturação deste campo. Publicado em 1988, na sua versão em inglês, o livro permanece até hoje como a referência básica deste campo. Esta, aliás, é outra faceta do laureado. Sua capacidade de síntese produziu diversos outros livros que resistem ao tempo como referências para estudantes de economia.

Na área de Regulação, Tirole trabalhou intensamente com Jean-Jacques Laffont, que faleceu de forma prematura em 2004. Regulação trata do funcionamento de setores onde, pela existência de retorno a escala, o monopólio natural é a estrutura de mercado mais eficiente. Em tais mercados a regulação é a estratégia viável para evitar que estes monopólios obtenham lucros extraordinários cobrando preços muito elevados, em prejuízo dos consumidores. Antes das contribuições de Laffont e Tirole, a regulação tradicionalmente funcionava com contratos de compensação de custos, onde o governo remunera os custos apresentados pela empresa adicionando uma margem de lucro considerada justa. O trabalho de Laffont e Tirole foi o de analisar o papel dos incentivos existentes nos contratos e suas implicações para o funcionamento destes setores. Eles mostraram que, na presença de assimetria de informação, os contratos de compensação de custos geram incentivos para empresas inflarem seus custos, onerando os serviços prestados. Laffont e Tirole apontaram para o redesenho dos contratos com objetivo de prover incentivos à redução de custos, que em última instância poderiam ser revertidos aos consumidores. Seus trabalhos reforçaram o desenvolvimento de contratos de regulação via price cap (limite de preço) tão difundidos atualmente ao redor do mundo. 

Nesta agenda, o papel de Jean-Jacques Laffont foi possivelmente mais relevante que o de Tirole, como ele próprio reconheceu em sua declaração após ser informado da premiação “I am more than aware of the key role he (Laffont) played in what is happening to me today.” Se estivesse vivo, certamente Laffont estaria dividindo este prêmio com o Tirole.

Não obstante a importância destas contribuições merecedoras de um prêmio Nobel, Tirole tem trabalhos fundamentais em diversas outras áreas. Teoria dos Jogos, Teoria dos contratos (incentivos), Finanças, Macroeconomia, Finanças internacionais, Economia política e em Psicologia aplicada à economia contam com contribuições seminais dele. Para ter-se uma ideia, consultando o nome Jean Tirole no Google Scholar temos que chegar à impressionante décima segunda página de resultados de pesquisa para encontrar um artigo seu que possua menos de 100 citações. Contemplando a sua obra temos a impressão de observar um indivíduo extremamente inteligente que planta sementes em diversas áreas da economia, mas sem exaurir toda a agenda de pesquisa do campo. Desta forma seu trabalho sempre abre espaço para novos desenvolvimentos. Por isso Jean Tirole é tão influente. É praticamente inconcebível que alguém tenha completado seu doutorado em economia nos últimos 20 anos sem ter contato com o trabalho dele.

Francês, Jean Tirole é fruto do sistema de Grand Écoles, onde se formou em engenharia na prestigiada École Polytechnique. Completou seu PhD em economia no Massachusetts Institute of Technology em 1981, onde até hoje é professor visitante regular. Pela influência de Jean-Jacques Laffont, foi trabalhar na Universidade de Toulouse que atualmente possui um dos melhores Departamentos de economia do mundo e certamente o melhor da França.

Jean Tirole ganha o Prêmio Nobel


Acabou de sair:
The Sveriges Riksbank Prize in Economic Sciences in Memory of Alfred Nobel 2014 was awarded to Jean Tirole "for his analysis of market power and regulation".
Jean Tirole é o primeiro francês a ganhar o prêmio desde Maurice Allais, em 1988. E, ao contrário da grande maioria dos laureados, não está afiliado a uma instituição americana  -- é professor da Toulouse School of Economics (mas passou pelo MIT nas décadas de 1980 e 1990).

Mais aqui.