quinta-feira, 12 de junho de 2014

Toc, toc, toc


A presidente Dilma anda batendo na madeira e fazendo figa para que tudo dê certo durante a Copa do Mundo. Fez isso quando, ao lado de Cafu, recebeu a taça da Fifa das mãos de Joseph Blatter (aqui). Repetiu o gesto em entrevista à TV Bandeirantes (aqui). Com tantos fios desencapados rondando o evento, faz bem a presidente em bater na madeira e fazer figa, porque é importante para a sua reeleição que a Copa corra bem, fora do campo, mas, estou ficando convencido, também dentro do campo.

É um sinal de anormalidade. Não deveria ser assim. Normal seria se Copa e eleição fossem eventos desconexos. Pensar que as desventuras dos jogadores brasileiros durante as próximas quatro semanas (toc, toc, toc) possam influenciar a decisão de voto dos brasileiros é o supra sumo da anomalia. Mas o brasileiro anda tão mal humorado, tão ensimesmado com a Copa e o clima social está tão agitado que não é absurdo pensar que o desempenho do Brasil em campo poderá ajudar ou atrapalhar o destino da presidente Dilma.

Estamos vivendo tempos estranhos e é provável que esse clima se estenderá até a eleição, talvez com um interregno durante a Copa (toc, toc, toc). Uma situação diversa da desenhada por Cezar Zucco em artigo publicado no Valor (aqui). Para quem não conhece, Zucco é um dos principais nomes da nova geração de cientistas políticos brasileiros. Andou por universidades importantes nos EUA, como aluno e professor. Hoje está na FGV-Rio. Produz bastante, papers que combinam assuntos interessantes, boas discussões teóricas e testes empíricos tecnicamente sofisticados.

No artigo do Valor, Zucco usa justamente um modelo empírico para concluir que Dilma é franca favorita. O modelo, bastante parcimonioso, combina preços de commodities à taxa de juros americano para criar um índice de que ele batizou de “bons ventos econômicos”. Esta é a variável independente que explica a aprovação ao governo, a qual, por sua vez, determina as chances de sucesso da candidatura incumbente. Segundo Zucco, a aprovação de Dilma está abaixo do previsto pelo modelo. Com base no modelo, ele aposta que, apesar da conjuntura desfavorável, fatores estruturais se imporão de modo que, daqui até a eleição, a aprovação do governo, hoje um pouco aquém de 35%, chegará a 45%, nível suficiente para garantir a reeleição de Dilma. Esse é principal ponto do artigo: a subordinação dos aspectos conjunturais aos estruturais.

Em condições normais, Zucco estaria certo. Mas será que a eleição presidencial deste ano ocorrerá em condições normais? Será que a avaliação do governo está seguindo seu padrão histórico detectado pelo modelo? Talvez não. E nem é preciso usar estatística sofisticada para levantar essa hipótese. Basta olhar o gráfico da avaliação positiva do governo  para perceber que as manifestações de junho passado provocaram uma quebra abrupta da série (despencou de 65% para 30% em um mês) impossível de explicar por intermédio de modelos estatísticos de tipo série de tempo. Qualquer modelo, pois todos têm a normalidade do passado como guia. E se o passado perdeu capacidade de explicar o presente e, mais ainda, de prever o futuro, a conjuntura se sobressai, não sendo desprezível a possibilidade de se sobrepor à estrutura.

Além disso, esse clima de estranheza, de mal estar, de incerteza quanto ao futuro, está contribuindo para enfraquecer – mas certamente não para extinguir – a influência do cenário econômico externo sobre o doméstico. A queda da confiança do empresariado e do consumidor, por exemplo, a qual foi contaminada, por assim dizer, por esse clima estranho, parece ter, no mínimo, contribuído para o recente esfriamento da economia, ilustrado por números divulgados nas últimas semanas.

Se é assim, se estamos em um momento no qual, usando uma expressão bem a gosto dos políticos do passado, vaca está estranhando bezerro, é mesmo hora de Dilma bater na madeira e torcer como nunca pela seleção. Toc, toc, toc, que a bola vai rolar daqui a pouco.

quarta-feira, 11 de junho de 2014

Drogas: proibir ou não proibir? O que é melhor?


O consumo de drogas tem efeitos perversos: devastam a saúde física e mental de seus usuários, diminuem a produtividade e frequentemente levam ao desemprego, degradam a vida social dos usuários e causam sofrimento nas pessoas próximas e até em terceiros. 

Mas a proibição do consumo, venda e produção de drogas -- política comum na vasta maioria dos países -- tem seus custos também: as disputas nesse mercado matam milhares, o tráfico corrompe e se infiltra  na força policial, no sistema penitenciário e no sistema político, os locais onde o tráfico se instala frequentemente se degrada e tudo isso contribui para solapar a credibilidade das instituições de uma sociedade aberta e democrática.

É natural então se perguntar: se proibir ou legalizar esse mercado de drogas possui custos e benefícios, qual seria o "arranjo institucional" regulatório preferível? Quais as consequências econômicas da proibição desses mercados versus uma situação onde esse mercado operaria "livremente" sob regulações similares que hoje se aplicam ao mercado de drogas legais (farmacêuticas)?

Jeffrey A. Miron (Boston University) e Jeffrey Zwiebel (Stanford University) têm um artigo publicado no Journal of Econoic Perspectives, intitulado "The Economic Case Against Drug Prohibition" onde eles procurem fazer uma análise positiva dessas questões. A conclusão é que a descriminalização desse mercado seria uma política superior ao arranjo corrente. 

Sobre a importância desse debate, dizem eles: 
The resolution of this debate matters. Almost a third of the population aged 12 and older claims to have used marijuana at least once, and more than 10 percent claims to have tried cocaine (U.S. Department of Justice, 1994, pp. 335-36). Revenues in the illegal drug industry almost certainly exceed $10 billion and by some estimates surpass $50 billion (WEFA, 1986, pp. 413-94). Federal, state and local governments currently spend more than $20 billion per year on drug enforcement (U.S. Department ofJustice, 1994, pp. 22-3), and in 1992 law enforcement officials made more than one million arrests for drug law violations (U.S. Department of Justice, 1994, p. 418). More than 20 percent of the 700,000 state prisoners in 1991 and almost 60 percent of the 77,000 federal prisoners in 1993 were incarcerated for drug law violations (U.S. Department ofJustice, 1994, pp. 612, 630). Rightly or wrongly, the enforcement of drug prohibition affects tens of millions of Americans, involves substantial amounts of resources and has a profound influence on the criminal justice system.
O artigo faz uma análise detalhada dos vários prós e contras para então concluir:
The existing evidence relevant to drug policy is far from complete. Given the evidence, however, our conclusion is that a free market in drugs is likely to be a far superior policy to current policies of drug prohibition. A free market might lead to a substantial increase in the number of persons who use drugs and possibly to a significant increase in the total amount of drugs consumed. But that policy would also produce substantial reductions in the harmful effects of drug use on third parties through reduced violence, reduced property crime and a number of other channels. On net, the existing evidence suggests the social costs of drug prohibition are vastly greater than its benefits.
É uma leitura didática e informativa que quem se interessa pelo tema (independente da visão que possui sobre o tema) certamente apreciará. O artigo completo pode ser visto aqui.

PS: Agradeço ao Marcos Nakaguma pela dica.

segunda-feira, 9 de junho de 2014

A Mediocridade é Possível


Há uma percepção geral no país que o ano de 2015 será um ano de duros ajustes na economia brasileira. Esta percepção vem do fato óbvio e inegável de que o Brasil precisa destes ajustes. Entretanto, entre precisar e implementar há uma grande distância e nada indica que que as reformas aparentemente necessárias serão feitas. 

Mantendo a tradição de empurrar com a barriga e evitar decisões mais controversas, o Brasil pode muito bem passar os próximos anos repetindo as políticas atuais, com um remendo aqui e outro ali, sem que nada de mais grave ocorra. Obviamente, nada de muito entusiasmante também ocorreria, e continuaríamos com nossa medíocre performance de crescimento ao mesmo tempo que o ambiente institucional, no que toca seu lado econômico, continuaria descendo ladeira abaixo. Este foi o assunto de artigo que publiquei há duas semanas no Valor em coautoria com o Renato Fragelli (Ajuste? Que Ajuste?). 

Uma pequena discordância entre o Fragelli e eu é por quanto tempo ainda poderemos continuar adiando os ajustes. Eu acho que por muito tempo, o Renato já não iria tão longe. Segundo ele teríamos dois ou três anos para respirar. Meu ponto é que países podem estagnar por anos seguidos ou crescer lentamente sem maiores rupturas, sem que inflação saia do controle ou que se observe algo de muito anormal no ambiente econômico. Por exemplo, entre 1950 e 1980 o produto per capita da Índia cresceu 1,90% ao ano, enquanto que no mesmo período o Brasil crescia a 4.64% (tudo em PPP, dados da Penn-World Table). Em 1950 o PIB per capita indiano era menos de 40% do brasileiro, de modo que tudo mais constante o esperado seria que a Índia crescesse mais rápido. Não foi o que ocorreu. A Índia continuou crescendo lentamente, sem grandes reduções de sua brutal pobreza, mas sem nenhum problema fiscal ou monetário maior. Só foi crescer de forma mais acelerada a partir de meados dos anos 1980 quando introduziu uma série de reformas liberalizantes.

Há inúmeros outros exemplos. A Argentina vem adiando há anos um ajuste inevitável à custa de aumentos de distorções e piora contínua da situação fiscal, das contas externas, da inflação e da pobreza. Mas até agora não virou uma Venezuela, onde as coisas estão claramente fora de controle. Portanto, não há nada que nos diga – e estão aí nossas imensas reservas para garantir – que se o ajuste em nosso país não for feito imediatamente entraremos em uma seríssima crise. Seria bom que fizéssemos as correções necessárias e me parece que esta é uma pré-condição para um crescimento mais robusto. Mas podemos muito bem continuar nesta nossa trajetória medíocre ainda por bastante tempo, sem que a inflação saia muito da meta, sem que nossas contas externas se deteriorem de vez, sem que o déficit público saia de controle, etc., etc.. Acho que isto vai implicar em uma contínua e talvez lenta degradação do ambiente econômico que pode sim nos levar a uma crise futura, mas até lá muitos anos de crescimento pífio passarão. 

Não sei se por miopia, falta de convicção, oportunismo eleitoral ou se estão vendo algo que eu não vejo, o ponto é que do lado do governo não se ouve falar em ajustes. Talvez usem um modelo onde tudo funcionará bem após pequenas correções. Ou talvez estejam satisfeitos com um crescimento da renda per capita de 1% ao ano.

Rodízio vs pedágio urbano


Na semana passada, Samuel Pessôa publicou um excelente artigo na Folha, discutindo possíveis efeitos de diferentes políticas públicas (notadamente rodízio e pedágio urbano) no trânsito de São Paulo. Vale a pena dar uma olhada não só pela discussão profunda, mas também porque tem muita Economia lá.

Em um ponto concordo com o Samuel: rodízio não é uma forma eficiente de reduzir o trânsito, basicamente porque as pessoas compram outro carro (com final de placa diferente) para escapar da restrição. E tem evidência disso. Na Cidade do México, há um programa semelhante ao de São Paulo, porém bem mais agressivo - Hoy no circula. Dependendo do final da placa, o carro não pode circular entre 5 da manhã e 10 da noite. Em São Paulo, isso só vale nos horários de pico: 7:00 às 10:00 e 17:00 às 20:00.

O paper de Lucas Davis (JPE 2008) avalia a introdução do Hoy no circula em 1989. O autor não encontra nenhum efeito sobre a emissão de poluentes. Mas o número de carros registrados na Cidade do México aumentou consideravelmente com a implementação do programa. E isso ocorreu majoritariamente por conta do aumento nos registros de veículos usados (vindos de outras regiões do México e dos Estados Unidos), o que sugere que as pessoas estão comprando carros usados para escapar da restrição. Por serem mais antigos, esses veículos também tendem a poluir mais.

O rodízio tem mais um problema: é difícil fazer ajustes na margem. Por exemplo, em São Paulo, já tem gente falando em estender a restrição para dois dias da semana (ou seja, cada carro não poderia circular por dois dias, dependendo do final da placa). Isso está longe de ser uma mudança na margem. E imagino que o incentivo a adquirir um carro adicional seria enorme nesse caso.

Já o pedágio urbano atua no sentido de desestimular o uso do carro, e permite que se façam esses ajustes na margem. Por exemplo, se a tarifa for R$10 e o trânsito continuar carregado, é só aumentar o preço. E não tem como a pessoa evitar o pagamento comprando outro veículo. Mais uma vantagem: ao contrário do rodízio, o Estado acaba arrecadando recursos nesse caso.

De fato, tem o inconveniente de que os pobres seriam prejudicados pois não poderiam pagar pelo pedágio. Mas a função da política de trânsito não é redistribuir renda (isso pode ser feito com impostos sobre renda/riqueza e programas de transferência de renda, como o Bolsa Família). Além disso, o rodízio também penaliza os mais pobres, uma vez que escapam da restrição apenas aqueles que têm dinheiro suficiente para comprar um veículo adicional.

Meu principal questionamento a essa estratégia é operacional. Muito provavelmente os motoristas adotariam rotas alternativas para escapar dos pedágios. Em uma cidade cheia das "quebradas" como São Paulo (ainda mais com a ajuda do Waze), isso pode ser bem problemático: transfere-se o trânsito de vias rápidas e com bastante espaço para ruas residenciais.  

HELP com R

Alguém ai sabe como restringir hiper-parametros na estimação de Kalman no R, usando o MARSS?

Ao invés disso (default do MARSS)

## Xt = Bt.Xt-1 + ut + Ct.ct+ wt~MVN(0,Qt)
## Yt = Zt.Xt + at + Dt.dt + vt~MVN(0,Rt)

Implementar isso:

## Xt = Bt.Xt-1 + ut + Ct.ct+ wt~MVN(0,Qt)
## Yt =  at + Dt.(dt - Xt) + vt~MVN(0,Rt)

sexta-feira, 6 de junho de 2014

Jesus, cesg

Boy, i read your piece in The Value EU& today. i liked the final paragraph, boy.
Now, i also read your article in Revista Cult. Fuck, cesg, couldnt they have chosen a different color? Was that your own picking?

quinta-feira, 5 de junho de 2014

BCE: bom, mas suficiente?

Demorou, mas o Mario agiu com firmeza agora. É moeda pra tudo quanto é lado: baixou juro básico, meteu o juro das reservas abaixo de zero, fez um LTRO targeted para quem emprestar para o setor real dentro da zona do Euro e disse que está se preparando para sair comprando títulos do setor privado ele mesmo.

quarta-feira, 4 de junho de 2014

USP pode obter mais de 3 bilhões de receita por conta própria (sem cobrança de mensalidades)


Já não é mais novidade que a Universidade de São Paulo (USP) está em uma enrascada. Seu orçamento corrente, cerca de R$ 4,3 bilhões, sequer cobre a folha de pagamento de funcionários e inativos, que custa hoje 105% do orçamento corrente. Há pois um déficit, que por ora está sendo financiado com poupança que a universidade reservo ao longo dos anos para enfrentar flutuações adversas no volume de ICMS arrecado pelo estado. Mas o dinheiro nessa poupança está com data para acabar como divulgou o reitor em carta aberta à comunidade recentemente. Não dura nem 1 ano.

segunda-feira, 2 de junho de 2014

A economia das figurinhas - parte 2

Há algumas semanas escrevi um post sobre o assunto. Entre outras coisas, discuti meio por cima como o tamanho do mercado (isto é, número de pessoas trocando figurinhas) afeta a chance de completar o álbum, e a demanda por figurinhas. Recentemente, The Economist publicou um artigo muito legal sobre o tema, que me motivou a elaborar um pouco mais sobre os efeitos do grau de integração do mercado nesse caso.

Modelo para macroprudencial

a ideia: tem uma externalidade no acumulo de divida externa, por exemplo. cada um não leva em conta que sua decisão de tomar mais dívida externa aumenta a exposição do sistema financeiro como um todo a um sudden stop. aí ele se endivida mais do que o socialmente ótimo.

a externalidade vem de algo assim:

no nível da firma individual, di_max < fcolateral (xi, P)

ou seja, a dívida máxima de cada firma é dada por uma restrição de colateral; e esse colateral depende de coisas específicas à firma (xi) mas também de variáveis de mercado (P), como preço da taxa de câmbio, por exemplo, que transforma o valor de um colateral nontradable em colateral tradable -- que é o que importa para o credor externo.

decisões privadas que afetem, em equilíbrio geral, a variável P, digamos o câmbio, geram externalidade: um câmbio mais depreciado porque a economia privada agregada está muito endividada aumenta as chances da desigualdade ficar "binding" para todas as firmas da economia! O equilíbrio de Nash, claro, é todos tomando P como dado, e muita dívida externa com P alto "demais" (câmbio depreciado). Nesse equilíbrio, pequenos choques atingindo P podem tornar a restrição de empréstimos binding para muita gente, e aí segue-se um credit crunch na economia: o acelerador é assim: choque inicial deprecia cambio, isso faz a restrição binding, a economia desaba, tem defaults, o cambio deprecia mais, a restrição fica mais binding e assim por diante.

policy recommendation: taxar divida externa.

viva o Mantega e o Tombini