terça-feira, 24 de setembro de 2013

Que Princípio de Taylor?

Vou apanhar do Dudu e do Márcio. Estou preparado para os "rounds de porrada".

O Cochrane sempre tem razão, fato. Não é por que ele foi um de meus orientadores, é que ele é PhoDa.

Ele escreveu que aumentar a taxa de juros gera inflação explosiva numa Regra de Taylor. Está aqui. O Cochrane está dizendo que o Princípio de Taylor está errado, como em geral estão os modelos neokeynesianos (vou ser linchado agora?).

O Princípio de Taylor é o seguinte: se a resposta dos juros a um aumento da inflação esperada for maior do que um-para-um, a inflação tende a se estabilizar, caracterizando uma política monetária ativa. Se for menor, caracteriza-se uma política monetária passiva e instabilidade da inflação. Isso daqui está naquele livro para ninar do Woodford, Interest and Prices, 2003.

Há evidência empírica do que o Cochrane escreveu sobre o Princípio de Taylor.

Neste artigo aqui, o autor mostra que a resposta dos juros à inflação era maior do que um-para-um antes de 1994 no Brasil, e mesmo assim a inflação era instável/indeterminada. O Alkimar Moura, que era diretor do Banco Central na época, confirmou. Não vale dizer que era por que o Banco Central não seguia regra alguma ou não tinha meta, pois o FED não fez isso nem antes, nem depois do Volcker e o Clarida, Galí e Gertler (2000) adotaram a mesma análise. O autor também mostra que, depois de 1999, a resposta dos juros à inflação era maior do que um-para-um, 1,5 para ser exato, porém não significante e de magnitude muito menor do que outros autores calcularam, talvez porque esses autores esqueciam que o lado esquerdo da equação de regressão deveria ser calculado usando ln(1 + juros). Mesmo assim, havia estabilidade inflacionária.

Neste artigo aqui, o mesmo autor mostra que a resposta dos juros à inflação, notamente no período pós-Volcker, era menor do que um-para-um, consistente com o discurso do Greenspan em seu livro A Era da Turbulência (2007). Greenspan escreveu que não seguia regra alguma. Blinder e Reis (2005) também encontraram o mesmo resultado, mas não acreditaram e deixaram numa nota de rodapé. Ou seja, mesmo com resposta de juros abaixo de um-para-um, ainda assim havia estabilidade monetária nos EUA.

Como os artigos mencionados não foram publicado em periódico nenhum, você pode dizer que
a. O autor está errado e é um idiota;
b. Não sabe escrever artigos que prestem;
c. Destroi uma paradigma, contraria interesses e frustra algumas pessoas, inclusive editores, já que não propõe nada construtivo;
d. n.d.a. (pode escolher alguma coisa pior).

PS: Acho que é b.

22 comentários:

  1. Good post.

    -- John Cockroach

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  2. She don't lie, she don't lie, she don't lie..... Cochrane

    -- Eric Clapton

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  3. De losso, voce tem bons momentos, como nesse post, mas tem muita gente que te acha um trouxa, sabia? HA HA HA

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    1. Rindo da própria piada Dudu? Assim fica difícil te defender de quem te acha trouxa. HA HA HA

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    2. Sabia, Dudu. Sou trouxa e sou feliz (vc até riu). Mais trouxa é ...

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    3. Nasce um novo meme...("vc tm bons momentos, mas tem gente que te acha trouxa").

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  4. Para com esse papo! Taylor rules! E é mais prático.

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    1. Taylor Swift? Sim, she rules!

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  5. Que lugar na foto do blog onde não tem falha de mercado? O mercadão de Belém?

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  6. Acho que não entendi muito bem, mas qual é o seu ponto sobre o Brasil? O que você estava dizendo é que o coef. da Taylor rule era maior que 1 sempre (antes e depois do periodo inflacionario), mas o fato de ser maior do que 1 no periodo inflacionario nao foi suficiente para eliminar a "instabilidade" da inflação, é isso?

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    1. Rigorosamente, o coeficiente era maior que um no período de megainflação e estatisticamente zero após o Plano Real. Exatamente o contrário do que se esperaria pelo Princípio de Taylor.

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    2. Pois é, mas eu não sei se isso contradiz o princípio de Taylor. Dois pontos:

      1) Se eu entendi bem, a estimativa para o período pós plano Real foi 1.5, mas com um desvio-padrão grande. Isso não quer dizer que é estaticamente zero, apenas que a estimativa é imprecisa (estatisticamente, vc tem tanta evidência que é 0 quanto é 3, não tem razão para favorecer um ou outro). Na verdade, a evidência é a favor do princípio de Taylor, mas é bastante imprecisa.

      2) O que o princípio de Taylor faz é gerar um único equilíbrio "locally bounded", mas os equilíbrios explosivos estão lá. Em geral, o que a gente faz é ignorar os equilíbrios com self-fulfilling inflation/deflation e focar no eq. bounded. Então, o princípio de Taylor nunca elimina hiperinflação.

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    3. 1) Desvio-padrão o suficiente para não rejeitar a hipótese nula que o coeficiente é zero. Óbvio que não se rejeita que é 3 também. Então, três considerações: a) o argumento não é definitivo, talvez um pouco fraco, mas ele se completa quando cotejado aos resultados dos EUA; b) Vc pode dizer que o coeficiente pode ser 3, mas há de concordar que o normal é considerá-lo nulo; c) O resultado é robusto para várias proxies de hiato.

      2) Ok. Então acho que é uma evidência empírica ao paper do Cochrane.

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    4. 1) A conclusao mais segura eh que o resultado eh impreciso demais para tirar qualquer conclusao. Embora eu entenda que tem muita gente que foca em significancia estatistica por ai, independente da economica, eu nao vejo razao para focar no zero nesse caso. A evidencia a favor de 3 eh tao forte quanto a favor de 0.


      2) Acho que o fato que existiu hiperinflacao no mundo ressoa com o ponto do Cochrane (i.e., pq a gente ignora os eq. explosivos?), mas a estimacao da regra de Taylor nao diz nada sobre isso. Além disso, a discussao de determinacao de eq. se refere a self-fulfilling inflation. Nao quer dizer que a inflacao nao vai disparar se vc comecar a imprimir moeda indiscriminadamente.

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    5. Henrique, concordo com os dois pontos, com as seguintes restrições.

      Sobre o ponto 1, eu acho que economicamente a evidência é a favor de 0. Vejamos. Há diversos canais no Brasil que restrigem a eficácia de um aumento de taxa de juros como o BNDES, crédito consignado, etc. Outra explicação, a ser confirmada, é a taxa de juros real já muito alta no Brasil, de modo que aumentar um pouco mais, tem poucos efeitos sobre a inflação. Finalmente, convém reforçar que é uma surpresa o coeficiente da inflação não ser maior que um estatisticamente, já que a inflação foi estabilizada e tudo indicava que esse seria o resultado.

      Sobre o ponto 2, a impressão de moeda e inflação em disparada deveriam gerar um coeficiente menor que um. Então, concordo que a regra de Taylor, ou a equação de regressão, em sua forma reduzida, pode não evidenciar isso devidamente.

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    6. Acho que a gente convergiu no segundo ponto. Sobre o primeiro ponto, só uma clarificação: quando eu disse que a evidência a favor de 3 ser a mesma que a favor de 0, eu não estava me referindo ao resto da literatura, o que eu quis dizer foi só que, dado que a sua estimativa foi 1.5, não há nada nas suas estimações que favoreça um ou outro.

      Concordo que várias coisas limitam a eficácia da pol. monetária. Mas a minha impressão é que vc não ia pegar isso na regra de Taylor, dado os lags de políticas. Parece-me mais natural ler a causalidade reversa lá: como juros reage a inflação, não o contrário.

      Para mim, a coisa que faz mais sentido é exatamente o que vc estimou: um coeficiente de 1.5. É uma pena que vc não tem precisão suficiente, o que abre espaço para essas discussões.

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    7. Por que lags de políticas? O modelo é forward looking, é construído para usar toda a informação disponível até o momento da decisão de fixar a taxa de juros, razão pela qual fui bem rigoroso na construção das dados que usei. Enfim, em tese esse problema de lags não deveria estar presente lá...

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    8. O que eu quis dizer foi o seguinte: o fato do canal de juros ser de alguma forma "obstruido" (por causa do BNDES, consignado, etc.), é uma afirmação sobre como a taxa de juros hj vai afetar a inflação alguns meses depois, já que a gente imagina que (pelo menos nos dados), a taxa de juros não tem um efeito contemporâneo na inflação. Já que vc não está regredindo juros em inflação futura, esse argumento de obstrução não deveria ser relevante.

      Colocando de outra forma: esses fatores que vc mencionou afetam como juros afetam a inflação, mas não dizem nada como a inflação afeta o comportamento do BC. No limite, ainda que juros não afetasse inflação, se o banco central reagisse a inflação por algum motivo vc deveria esperar um coeficiente positivo na Taylor rule.

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  7. O último comentário é bem importante. Princípio de Taylor vale para a log-linearização ao redor do SS, descarta equilíbrios explisivos. Isso é um argumento para invalidar sua crítica a partir do coeficiente maior que 1 no período anterior a 1994, quando é difícil defender a ideia de SS.

    E dai que o Greenspan diz não ter seguido regra alguma? Você sai por ai dizendo que maximiza a utilidade? Não ensinam mais a abordagem Friedmaniana em Chicago? Não quero saber de hipótese, quero saber de predições.

    Por fim, gosto da ideia de criticar o modelo NK. Só não achei essa crítica tão importante como você argumenta.

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    1. Primeiro parágrafo: tenho a impressão de que nesse caso eu deveria ter rejeitado a nula que os momentos da regressão são estacionários, mas não foi o que aconteceu.

      Segundo parágrafo: Daí que a minha predição é consistente com o que o policy-maker diz que faz e não o que o Clarida, Galí e Gertler supõem que ele faz, a menos que o Greenspan esteja mentindo. Acho que você não entendeu como se usa o argumento do Friedman.

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