sexta-feira, 25 de outubro de 2013

Por que exportamos nosso melhor café?


Países tendem a exportar bens de alta qualidade, e deixar as versões piores para o mercado interno. No Brasil, o caso clássico é o do café, sendo o tipo exportação de qualidade muito superior ao que estamos acostumados a consumir no dia a dia.

Podemos especular uma série de razões para esse fato -- por exemplo, diferenças no poder de mercado dentro e fora do país, ou preferências diferenciadas (gringos gostam mais de café de alta qualidade e brasileiros não se importam tanto). Mas um mecanismo bem mais simples (creditado a Alchian e Allen) nos ajuda a entender o fenômeno. A parte crucial é que há um custo fixo de exportação, ou seja, que não depende do valor exportado.

Suponha um mundo perfeitamente concorrencial, de modo que os preços dos bens refletem apenas seus custos de produção. Há dois tipos de café: o de alta qualidade, e o de baixa qualidade. Produzir café custa $2 por unidade para a qualidade alta, e $1 para a qualidade baixa. Assim, no mercado doméstico, o preço relativo do café de alta qualidade é igual a 2.

Para exportar, é necessário pagar um custo z por unidade, independente do tipo de café. Pense que, para cada saca exportada, o peso e o espaço ocupado no container são os mesmos para os dois tipos. Logo, no mercado externo, o preço do café de alta qualidade é 2+z e o de baixa qualidade é 1+z, refletindo assim tanto custos de produção como de exportação. O preço relativo é portanto:

Em outras palavras, o café de alta qualidade é relativamente mais barato no exterior, quando comparado ao mercado local. Dessa forma, estrangeiros consumirão relativamente mais do tipo de melhor qualidade. Em equilíbrio, portanto, o país acaba exportando o café de alta qualidade.

Note que o modelo replica o fato estilizado, sem que seja necessário supor que as firmas têm poder de mercado, ou que as preferências são diferentes entre países. Concorrência perfeita e gostos homogêneos dão conta do recado.


20 comentários:

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    1. Tem razão, só bati o olho no texto .... mal por essa

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    2. Lesson learned...one hopes.

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    1. Ele aprendeu com o Prof. Kanczuk!

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  4. "Note que o modelo replica o fato estilizado, sem que seja necessário supor que as firmas têm poder de mercado, ou que as preferências são diferentes entre países. Concorrência perfeita e gostos homogêneos dão conta do recado."

    O que vc acabou de fazer foi pintar o alvo em volta do tiro que vc deu. Fico sem entender qual a vantagem de usar conceitos que não se aplicam a nossa realidade pra explicar um fato estilizado. Se não se aplicam a nossa realidade, por que utilizá-los na explicação de fenômenos econômicos?

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    1. Heterodox detected

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    2. That's the beauty!

      Com essas hipóteses canônicas, vc pode focar em um mecanismo particular: o custo fixo de exportar. Colocar penduricalhos (que são importantes no mundo real) cria distrações que deixam a história poluída.

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  5. Este comentário foi removido pelo autor.

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  6. Cool. Nessa história, quanto mais longe for o pais comprador do Brasil (maior z portanto), maior deve ser o consumo relativo do café premium. Tem evidência disso?

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    1. Sim! Hummels and Skiba (JPE 2004):

      http://www.nber.org/papers/w9023

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  7. Eu quero aprender modelos Heckscher-Ohlin dinâmicos! Mauro, me ajude, por favor!

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  8. "Em outras palavras, o café de alta qualidade é relativamente mais barato no exterior, quando comparado ao mercado local. Dessa forma, estrangeiros consumirão relativamente mais do tipo de melhor qualidade."

    Por esse argumento, não devíamos então consumir mais café de alta qualidade (da Colombia ou da Indonésia por exemplo) também?

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    1. Mas aí não dependeria da razão entre o custo café externo e o interno?

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  9. Muito bom...esse dá pra explicar até durante o almoço. Valeu professor.

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