quinta-feira, 3 de abril de 2014

Gasto e Qualidade: As Universidades Brasileiras na Fossa


Periodicamente instituições internacionais de pesquisa produzem e divulgam rankings de universidades. Apesar da variação nos quesitos, pesos dos quesitos, metodologia para a obtenção de informações, etc. estes rankings contam estórias consistentes (e óbvias) sobre a nata e a fossa da academia no mundo. Duas observações de interesse particular são bastante claras independente do ranking para o qual a gente olha: (i) Existe correlação forte entre gasto por aluno e posicionamento no ranking e (ii) as universidades brasileiras estão chafurdando na fossa.

Ricos e pobres: Os gastos da universidades por estudante

Para ilustrar estes pontos eu fui analisar os dados* do ranking da Times Higher Education (THE) – talvez o mais conhecido destes rankings de universidades (veja o ranking da THE aqui e o de Shangai aqui) – com dados sobre despesas totais das universidades e número de alunos (as duas últimas variáveis coletados na internet). Daí eu fiz um gráfico de dispersão para mostrar a correlação do gasto por aluno das universidades com a posição no ranking do THE. O gasto por aluno nada mais é do que a despesa total da universidade em moeda corrente do país em 2013 convertida em dólares e dividida pelo estoque de estudantes de graduação e de pós graduação matriculados na universidade. A tal figura está logo abaixo. Coloquei na figura uma curva de regressão (y, a posição no ranking, contra ln(x), o logaritmo natural do gasto per capita) e o negócio parece não linear mesmo, o que também faz bastante sentido (essa curva tá carregada de endogeneidade, logo nada de causalidade aqui, ok?).


O gráfico acima mostra que a correlação entre gasto e ranking é forte (é também estatisticamente significante a 1%) e sugere que se a gente quiser explicar o sucesso e o fracasso de alguma universidade a gente tem de olhar para o quanto esta universidade gasta por aluno. De fato, como você já deve ter notado, os caras que gastam mais com seus alunos ficam lá em cima no ranking; os caras que gastam pouco ficam para trás. Outra coisa que dá para dizer é o seguinte: Este é um mundo bem caro – e cheio de investimento a fundo perdido. Só para se ter uma ideia, tem universidade por aí gastando algo como US$300 mil por aluno, como é o caso, por exemplo, do M.I.T (Massachusetts Institute of Technology). Isso é mais ou menos R$700 mil por ano por cabeça matriculada naquela escola ou um apartamento de dois quartos em um bairro decente aqui em SP (por cabeça e por ano). 

USP e Unicamp 

A segunda observação importante está relacionada ao pontinho vermelho e o pontinho laranja do gráfico. O pontinho vermelho é a USP; o pontinho laranja é a UNICAMP. A USP, melhor universidade brasileira neste ranking e em qualquer ranking que se olhe, está na posição 226-250; A UNICAMP figura bem mais abaixo, na faixa 301-350. Basicamente isso diz que, de acordo com o THE (e com outros rankings que se queira olhar), constituímos a escória da academia no mundo.

Com estes números na cabeça a gente é então tentado a dizer: “Bem, ok, a academia brasileira está na zona do rebaixamento porque gastamos pouco com educação superior”. Verdade. Ou, pelo menos, meia verdade. Enquanto as dez melhores universidades no THE estão gastando em média US$170 mil por aluno/ano a USP gasta aproximadamente US$ 27 mil (ou algo como R$62 mil) por aluno/ano e a UNICAMP aproximadamente US$43 mil (ou algo como R$99 mil) por aluno/ano. Vendo a coisa desta forma, parece que se esse pessoal das universidades brasileiras for até o governo e pedir mais uns trocos a gente vai galgando posições na tabela e começa a brigar por uma vaga na libertadores. Chegando na libertadores, a gente pede mais um pouco aqui, outro ali, e no final do ano estamos todos lá no mundial. Aí é só comemorar. 

Brasil: Gastando muito na carroça e pouco no burro 

Entretanto, a metade mentirosa desta meia verdade tem duas facetas. A primeira delas eu vou colocar na tabela abaixo. A segunda eu conto no final do post.


A tabela logo acima eu tirei do livro do Armando Castelar Pinheiro e do Fabio Giambiagi (“Rompendo o Marasmo: A Retomada do Desenvolvimento no Brasil”). Os números estão desatualizados, eu sei, – o que não significa que a coisa tenha mudado; muito pelo contrário, apostaria 100 cruzeiros que ficou pior – mas estão falando que a gente, diferentemente do resto do mundo e, em particular, muito diferentemente do mundo desenvolvido, gasta os tubos com educação superior vis-à-vis educação média e fundamental. Colocando o negócio de uma forma bem grosseira, este é o resultado de algumas décadas de escolhas “peculiares” que fizemos e que continuamos a fazer: Enquanto o mundo desenvolvido criou um burro bom (educação básica e fundamental) e depois colocou a carroça (educação superior) atrás dele, nós resolvemos montar uma carroça chinfrim e colocar na frente de um burro mais chinfrim ainda. Por isso, e não mais do que por isso, é que não dá para chegar lá no governo e pedir mais para as universidades. Se alguém precisa de dinheiro aqui este alguém é o burro e não a carroça. 

E agora José? 

Fazer o que então? Como melhorar sem pedir dinheiro ao bom e velho governo? Bom, voltamos ao gráfico. Nota que os dois pontinhos gordos estão bem acima da curva. Nota também que, neste gráfico, ser um ponto acima da curva não é bom. Se você pegar o pontinho vermelho (USP) e traçar uma reta paralela ao eixo vertical você vai ver que tem um monte de caras gastando coisa parecida (ou menos) com o que gastamos mas que estão numa posição bem melhor na tabela. O caso da UNICAMP é mais grave: Tem gente fazendo muito mais com muito menos grana. Ou seja, parece que dá para melhorar sem pedir nenhum troco extra para o governo. 

É justo notar finalmente que os dados sobre alunos que usei para construir o gasto per capita referem-se ao estoque de matriculados. Se levarmos em consideração o número de formados (ao invés do estoque) é provável que o grau de ineficiência sugerido pelo gráfico acima seja exacerbado uma vez que a evasão nas universidades brasileiras (especialmente nas públicas) é muito maior do que se observa por aí. 

As possíveis soluções do imbróglio remete aos posts recentes do Dr. Sérgio Almeida (aqui e aqui). Eu volto para falar mais sobre isso assim que der. 

*Agradeço ao João Moraes de Abreu pelo excelente trabalho de coleta dos dados. Valeu João!

16 comentários:

  1. A evasão nas universidades públicas brasileiras é muito grande mesmo.
    Mas entendo que o ranking THE e qualquer ranking acadêmico será dependente de publicações, que é diretamente ligado aos programas de pós-graduação (formação de mestres e doutores).
    O problema: o Brasil tem capacidade para absorver mestres e doutores fora da academia?
    Não que a gente deva deixar a USP e Unicamp afundar, longe disso, mas se houvesse mais demanda a coisa se equalizaria mais facilmente...

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  2. http://www.ipea.gov.br/portal/index.php?option=com_content&view=article&id=15102&catid=170

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  3. Ainda tem cara idiota que acha que a desigualdade será reduzida com cotas.

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    1. A questão é se as cotas reduzem a qualidade da Universidade. Evidências empíricas dizem que não...

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    2. Poderia por gentileza indicar quais seriam as fontes de constatação empírica? Levam em conta o número de matriculados ou formados?

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  4. Não sei exatamente se os dados são comparáveis nesse caso. A USP, por exemplo, gasta uma fatia bem gorda de seu orçamento com aposentadorias. Mudar este aspecto administrativo da instituição (uma saída seria terceirizar esse troço) poderia levar a uma mudança significativa nos orçamentos. Os valores REALMENTE investidos nos alunos são muito menores que os apresentados. Além de gastas muito dinheiro, as universidades gastam muito mal o dinheiro que têm.

    E, claro, o problema de preparar o burro para puxar a carroça é crucial. Burrice no Brasil é doença endêmica.

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  5. Talvez com melhor educação básica melhoraríamos índices de produtividade, cidadania e até mesmo honestidade.





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    1. Excelente artigo, Fábio!

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  6. Legal o post. Mas o mais correto não seria fazer a análise com gasto por professor ao invés de gasto por aluno? Que que o aluno tem a ver com esses rankings de publicação? O investimento é no professor! Não muda muito se a relação professor/aluno for meio constante entre universidades mas: (i) não sei se é, (ii) resolveria o problema da evasão e (iii) acho que é uma medida mais direta do que você quer ver.

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    1. Mais correto por quê? Veja o ranking pelo amor de deus antes de sair falando besteira. O ranking combina 13 indicadores e o de ensino tem 30% do peso! Além disso boa parte dos gastos das universidades são em grande parte para fornecer estrutura e ensino para o corpo discente que tem. Gasto por aluno formado seria uma medida melhor.

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  7. Legal. Mas pode ser que estejamos estimando muito para cima o gasto efetivo por aluno. O orçamento da USP e da Unicamp inclui dois hospitais gigantescos, não? Por exemplo, na UFPR o HC consome um terço do orçamento. Você pode dizer que o hospital serve para ensinar os alunos. Porém, para ser justo, é preciso admitir que a função hospital-escola é muito pequena perto do atendimento que se dá à população nesses hospitais. Como ficariam as universidades se tirássemos os hospitais. E, será que nos EUA, por exemplo, os hospitais consomem um orçamento assim grande (sem se dedicar primordialmente à função hospital-escola)?

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  8. "Enquanto o mundo desenvolvido criou um burro bom (educação básica e fundamental) e depois colocou a carroça (educação superior) atrás dele, nós resolvemos montar uma carroça chinfrim e colocar na frente de um burro mais chinfrim ainda." Não sei se isso é correto. A educação básica na Inglaterra era boa antes das universidades serem boas? Nos EUA eu acho que sim, embora o ensino médio tenha sido "universalizado" depois do grande investimento nas Land Grants, não?

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  9. Tem uma diferença, universidade pública no Brasil é "política social" e não educação.

    "Política Social" para os funcionários concursos que aposentam com 55 anos e consomem mais da metade da verba da universidade. Do que sobra boa parte ainda é gasta com Hospitais Universitários e demais formas de atendimento a população.

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  10. Sou estudante da USP e vou para Indiana University em agosto pelo programa Ciência sem Fronteiras. Antes de ler essa matéria havia procurado (apenas por curiosidade) os gastos da USP e de Indiana em 2013 e calculado o quanto isso representava por aluno. Observei que as duas universidades tem um valor de gastos por aluno bem próximo (em torno de R$60mil, considerando o dólar a R$2,2), observei também a posição que as duas universidades ocupam no THE (USP: 226-250, IU: 132) e no QS (USP: 127, IU:240), considerando a oscilação nos rankings (em um a USP está aproximadamente 100 posições abaixo e em outro aproximadamente 100 posições acima) pode-se dizer que as duas universidades encontram-se na mesma faixa de qualidade. Ou seja, é mais um indício de que a sua hipótese de que a quantia gasta por aluno está fortemente relacionada à qualidade faz todo sentido, mas que a USP não fica para trás (nem a frente) de uma universidade que gasta na mesma proporção que ela. Sua iniciativa é muito bacana e merece os parabéns, mas tanto a minha análise como a sua possui falhas: a sua por considerar apenas um ranking, a minha por comparar com apenas uma universidade...

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