quarta-feira, 23 de abril de 2014

"Por que imposto sobre aeronaves é uma má ideia?" Resposta aos comentários do "Economista X", the founder

O pai fundador deste blog e meu guru intelectual na infância, o Economista X, a quem eu devo toda a minha fama e fortuna, ofereceu gentilmente, e em benefício do debate, alguns contra-argumentos ao post que escrevi ontem sobre o artigo do Professor Vladimir Safatle na Folha. Vou oferecer uma tréplica. Os comentários do Dr. X vão em vermelho e os meus vão em verde-floresta:



1 - Safatle não sabe economia. ponto. Sérgio está certo.
--

2 - A incidência de impostos depende mesmo apenas das elasticidades, e não de quem legalmente é obrigado a pagar o imposto. Sergio está certo.
--

3- Imposto não é necessariamente ruim, por um motivo simples: precisamos de bens públicos (inclusive para gerar mais crescimento). Claro que imposto gera distorções, reduz trocas e produção, mas já sabíamos que não há almoço grátis em economia. Sergio não esta certo.
Soa como uma falácia do espantalho X. Porque não há nada no post (nem na minha cabeça) que me faça discordar de uma afirmação tão correta quanto trivial dessas.

3,5 - NÃO HÁ (QUE EU SAIBA) EVIDÊNCIA EMPÍRICA DE QUE MAIS IMPOSTO GERE MENOS CRESCIMENTO, pelo motivo óbvio de que depende do que você faz com o dinheiro coletado.
Desculpa X mas não vale alegar o próprio desconhecimento como argumento. Se fizer uma pesquisa verá que a literatura empírica está overhelmingly dominada por resultados apontando para uma relação negativa entre imposto e crescimento econômico. Veja esse estudo aqui para os países da OECD e essa revisão da literatura sobre o tópico aqui. Se não gostar de nenhum deses trabalhos, pode também olhar essa aqui: um paper do David e da Christina Romer publicado em 2010 na American Economic Review. Todos eles concluem a mesma coisa: impostos tem efeitos negativos sobre o crescimento econômico. Pra alguém que é supostamente de Macro, você deveria estar mais informado (ouch!). 

4 - Imposto ótimo, parte 1: melhor se mais fácil de coletar, se elasticidades de demanda E oferta são baixas (menor distorção de quantidade); a regra geral é igualar distorções na margem e evitar taxar o capital muito, pois esse acumula ao longo do tempo e afeta salario real.  Sergio não esta certo, não tem necessariamente a ver com consumo / renda. Quem defende muito taxação de consumo é em geral quem acredita que capital (que vem da poupança) gera externalidades positivas e gera (causa) mais produtividade global. Mas essa hipótese dos modelos iniciais de crescimento endógeno fracassou empiricamente...spetacularly so.
Não sei do que você tá falando. Meu ponto original era bem simples: a incidência tributária de um imposto no mercado de aeronaves e iates e bens de luxo em geral recairia relativamente mais sobre os produtores. É um argumento puramente teórico ajudado pela experiência com taxação nesse setor nos anos 90. Não tinha nada a ver com a questão sobre de quem coletar imposto e sobre o que (consumo ou capital) colocar um imposto -- pontos que aliás eu nem tenho porque objetar porque como quase tudo em economia eles podem ser feitos válidos/inválidos dependendo das suposições que se faça. 

5 -  Imposto ótimo, parte 2 (desigualdade): se faz sentido redistribuir renda (e eu acho que faz dado que condições inicias contam muito (leiam Heckman papers)), faz sentido taxar mais consumo consumido por gente mais rica sim. Assim como faz sentido taxar mais a renda dos mais ricos. Sergio esta errado nisso.
Ué, porque eu discordaria disso? Se tem que taxar, só faz sentido taxar quem tem. Meu ponto era sobre os efeitos de "n-ésima" ordem que isso teria sobre o emprego do setor (ceteris paribus!) -- que você inclusive já reconheceu no seu ponto 3 que não seriam o de expandir o nível de emprego.

5,5 - alguns dos bens consumidos pelos mais ricos são bens cuja utilidade está no relativo, não no absoluto, como nos modelos tradicionais. eh a historia do Bob Frank, muito bem contada por ele naquela infinidade de livros...a festa de aniversário da minha filha precisa mais espetacular que a da filha do vizinho...nesses modelos tem equilíbrio de Nash que todo mundo estaria mais feliz gastando menos, pois o que importa não eh apenas o consumo absoluto. esse eh um argumento adicional para se taxar mais o consumo dos mais ricos, e eh de eficiência, pasmem, não de redistribuição.
Cool story bro.

6 - Emprego dos pobres não cai necessariamente com aumento de imposto em um dado setor. Se por exemplo o governo não mexeu em G, então necessariamente caiu imposto em outro lugar, e a produção e o emprego aumentam aí. O resultado final sobre emprego depende da intensidade K/L relativa entre setores.
Necessariamente não né. Mas poxa, tem que falar agora o tempo todo que esses thought experiments são feitos sob a suposição de que tudo mais está parado? Porque se você começa a mexer (por suposição) em outras variávies ao mesmo tempo, como faz nesse ponto, aí realmente não dá pra falar muita coisa sobre coisa alguma a menos que se ande com um DSGE no bolso; talvez nem assim...

Obrigado pelos comentários X! 

14 comentários:

  1. 5,5 também poderia ser usado para justificar o IPVA talvez até mesmo mais do que para justificar um imposto sobre Helicópteros e Iates

    ResponderExcluir
  2. https://www.youtube.com/watch?v=OmyjqwqHMEc

    ResponderExcluir
  3. Húúúúú !!! Chupa, X !!!

    ResponderExcluir
  4. Achei muito interessante este debate! Alto nível! Obrigada Sergio e X! Ana

    ResponderExcluir
  5. http://www.cbpp.org/cms/?fa=view&id=4094
    http://www.businessinsider.com/study-tax-cuts-dont-lead-to-growth-2012-9

    ResponderExcluir
  6. Do paper da OCDE citado: "The results of the analysis suggest that income taxes are generally associated with lower economic growth than taxes on consumption and property. More precisely, the findings allow the establishment of a ranking of tax instruments with respect to their relationship to economic growth. Property taxes, and particularly recurrent taxes on immovable property, seem to be the most growth-friendly, followed by consumption taxes and then by personal income taxes."
    Ops...

    ResponderExcluir
  7. "Quem defende muito taxação de consumo é em geral quem acredita que capital (que vem da poupança) gera externalidades positivas e gera (causa) mais produtividade global. Mas essa hipótese dos modelos iniciais de crescimento endógeno fracassou empiricamente...spetacularly so."

    Qual(is) artigo verificou isso?

    ResponderExcluir
  8. Ola, Sergio, ola X.
    Não, não Sergio, eu conheço esse paper dos Romers ai e a literatura associada, mas não eh isso que eles mostram. Eles mostram que contrações fiscais derrubam a atividade no ciclo. Havia uma crença que good debt dynamics pudesse compensar isso, mas não...
    Agora, não tem nada a ver com o ponto do X, se é que eu entendi...o X fala que tamanho do Tau de SState não tem a ver com crescimento de LP. E isso é fato, quem gasta e tributa menos não necessariamente cresce mais, ou tem maior log de PIB/capita. Até porque baixa taxação é sinal de weak states, em geral, onde faltam outras coisas necessárias ao crescimento. Alta taxação eh sinal de Strong states. Tem de tudo, nego que taxa muito e cresce bem e eh rico (nórdicos), gente que taxa pouco e cresce pouco (África), gente q taxa muito e cresce pouco mas eh rico (Franca) e gente que taxa muito e eh meia-boca e cresce pouco (Brasil)

    ResponderExcluir
  9. Já dá pra pedir música?

    ResponderExcluir
  10. Do segundo paper citado: "Of those studies that distinguish between types of taxes, corporate income taxes are found to be most harmful, followed by personal income taxes, consumption taxes and property taxes."
    É, acho que já dá pra pedir música. Que tal essa: https://www.youtube.com/watch?v=73sbW7gjBeo ?

    ResponderExcluir
  11. Sou daltônico e achei todo este post desconexo e sem sentido.
    Obrigado
    Att,

    ResponderExcluir
  12. Se está a assumir que a demanda por helicópteros é elástica. No entanto, não é apresentada uma estimativa da elasticidade dessa demanda no Brasil para ver se de fato ela é elástica. Num país onde as pessoas compram Cherokee 3x mais caro que nos EUA* e tênis por R$1.000,00 que nos EUA custam menos de R$500,00**, não seria muito surpreendente se ao estimarmos a elasticidade da demanda por helicópteros no Brasil, ela não fosse tão elástica assim.

    * http://carros.uol.com.br/noticias/redacao/2012/08/13/forbes-ironiza-precos-da-chrysler-no-brasil-e-quem-busca-status-em-carro-caro.htm

    ** http://mansueto.wordpress.com/2014/04/14/brasil-e-protecionismo/

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Nao assumi. No texto está claro: SE a demanda for mais elástica...

      Além disso, o argumento feito depende da elasticidade relativa de demanda e oferta. Masi uma vez insisto: não há porque acreditar que os produtores desses bens de luxo (aeronaves, iates) são capazes de reagir a preços mais rapidamente do que o lado da demanda. Nesse sentido, me parece de pouca relevância por si só se os consumidores brasileiros desses bens são menos elásticos do que se imagine. Desde que não sejam mais inelásticos do que a oferta, o ponto feito sobre a distribuição da cunha fiscal permanece.

      Excluir
  13. Tanta discussão por causa de um texto do Safatle? Really?! Basicamente a mensagem dele é taxar mais os ricos, impondo impostos progressivos efetivos - ideia que ele chupou do economista francês, claro, que eu duvido que ele tenha lido. A questão do IPVA pra avião é uma exacerbação para ganhar adeptos da ideia. A grande merda que ele diz é querer financiar mais duas USPs com o dinheiro a ser arrecadado. Precisamos de mais duas USPs? Really?!

    ResponderExcluir